O pensamento vivo de Luiz Noronha

Olavo de Carvalho

21 de julho de 1999

Apenas algumas horas depois de entrarem na minha homepageos avisos sobre as Picuinhas comunistas e sobre o Pires, recebi um telefonema de um sr. Luiz Noronha, que tinha lido esses avisos e estava fulo da vida. Aos berros, ele me informou as seguintes coisas (transcrevo-as literalmente, até aonde minha memória alcança):

1ª Quem manda no Segundo Caderno de O Globo é ele. Foi ele quem designou o Pires para fazer a resenha dos Ensaios Reunidos.

2ª Ele, Luiz Noronha, não reconhece em mim autoridade bastante para reclamar do que quer que ele faça publicar no Segundo Caderno.

Diante de tão significativas declarações, sugeri ao Sr. Noronha que as escrevesse e assinasse, em vez de berrá-las pelo telefone.

— Não escrevo nada!, respondeu.

E, tendo desligado o telefone após mais algumas manifestações de cortesia que foram respondidas à altura, nada mais disse nem lhe foi perguntado.

São poucas e breves, portanto, as amostras que nos restam do pensamento vivo de Luiz Noronha. Se bem as compreendi, passo a tirar delas as conseqüências lógicas inescapáveis, que traduzem, na medida em que o pode o discurso humano, o fundo abissal desse pensamento:

1ª Se foi o sr. Noronha quem mandou o Pires escrever o que escreveu, das duas uma: ou ele deu essa ordem com plena consciência de que o Pires era um notório desafeto meu, já denunciado publicamente por ter feito uma resenha desonestíssima de O Imbecil Coletivo, ou então deu a ordem sem saber nada e com total inocência. No primeiro caso, faltou à mais elementar ética jornalística. No segundo, mostrou que não sabe em quem manda, exercendo portanto sua autoridade às cegas sobre um caderno do qual nem sequer leu os números anteriores.

2ª O sr. Luiz Noronha não admite que eu escreva em minha própria homepage sem que ele me conceda autoridade para tanto.

Uma vez compreendido o sentido das duas declarações, respondo, à primeira, que, se atribuí ao Pires a culpa de designar-se a si mesmo para uma tarefa que eticamente lhe era imprópria, foi porque, então, eu ignorava que o Pires tivesse um chefe. Agora sei e, portanto, corrijo: o Pires tem, sim, uma desculpa. Ele não fez porque quis. Fez porque o Noronha mandou. As coisas ficam assim melhores para o Pires no Juízo Final, inclusive tendo em vista o desconto devido aos que, neste vale de lágrimas, já pagaram parte de seus pecados agüentando um Noronha nas costas.

Quanto à segunda, respondo ao sr. Noronha: vá dar ordens ao Pires, e olhe lá, que já é demais para a sua competência. Por escandaloso que isto pareça a um sujeito tão ávido da glória de mandar, a minha homepage não está sob a jurisdição de Noronha nenhum, e ela existe justamente para assegurar que, mesmo num país infestado de Noronhas, ainda pode subsistir, via internet, um pouco daquela liberdade de expressão que dia a dia vai desaparecendo da mídia impressa.

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