Uma questão de GLP

Por José Nivaldo Cordeiro

10 de julho de 2002

O meu distinto leitor deve ter pensado, ao ler o título desse artigo, que o mesmo trata do Gás Liquefeito de Petróleo – o GLP que se usa como gás de sozinha. Acertou e nem poderia errar, pois o tal gás é a estrela do momento. A partir dele, desenvolvi um outro GLP – Grau de Loucura Política, que outro nome não pode ter a política que a Petrobrás (Petrossauro para os liberais) tem feito nos últimos meses para o preço desse combustível.

O GLP de minha autoria, que é o mesmo índice do aumento de preço concedido ao GLP combustível, tem o seu aumento proporcionalmente inverso à popularidade dos governantes e daqueles seus correligionários que buscam se eleger. Não é à toa que o candidato governista está a patinar nas pesquisas de opinião. Os burocratas da Petrobrás estão decididos a transformar o GLP – o gás, em artigo de luxo, só acessível aos ricos.

Notícias de diferentes jornais têm mostrado a desproporção entre o preço desse combustível e os salários recebidos pelas populações mais pobres, o que está levando ao crescente uso de combustível alternativo, isto é, lenha, por absoluta incapacidade das pessoas poderem comprar o produto. É uma tristeza. Os burocratas estão fazendo as pessoas retornarem ao começo do século XX.

Para tirar a limpo a questão, acessei o site da Agência Nacional de Petróleo – a ANP (www.anp.gov.br), em busca de estatísticas. Elas confessaram o crime hediondo que os burocratas estão fazendo contra seu próprio povo, isto é, nós todos. Os dados estão atualizados até março, antes dos novos aumentos de preços cavalares que aconteceram desde então. Peguei alguns Estados para ilustração do desempenho do percentual de crescimento da venda no produto do 1º trimestre acumulado em relação a igual período de 2001:

  • Brasil: -5,0%
  • São Paulo -3,6%
  • Piauí -18,1%
  • Ceará -9,7%
  • Bahia -27,7%
  • Distrito Federal +2,3%
  • Região Nordeste -16,2%
  • Região Sudeste -0,9%

Analisando os números, veremos que quanto mais pobre é o Estado, maior é a queda de consumo. Quanto mais pobre a região, idem. Parece que os políticos e os burocratas têm raiva dos mais pobres.

A notícia mais relevante de hoje é que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) dobrou em junho em relação a maio, passando de 0,21% para 0,42% por conta principalmente do aumento do GLP, o gás, claro. Vimos que no final de semana a notícia mais importante foi a estagnação nas pesquisas do candidato governista à presidência da República. Penso que a causa é também o GLP, no caso o meu índice.

Se eu fosse conselheiro político do Planalto, diria: cuidado com o GLP, os dois, o gás e o Grau de Loucura Política. Nomearia alguém de confiança para administrar a Petrossauro, pois de nada adiantará a propaganda política e as promessas de campanha se os dois GLPs continuarem a subir nesse ritmo.

Da mesma forma, se fosse conselheiro dos candidatos de oposição, não falaria de outra coisa na TV. Quem elege o presidente, sabemos todos, são as classes “D” e “E” (eufemismo dos marketeiros para se referir aos pobres que não podem mais comprar GLP). O gás poderá ser o seu grande cabo eleitoral. O gás não, claro, ele só serve mesmo para queimar, mas o seu preço, que fritará a insensibilidade dos governistas.

O escárnio é que os que estão no governo sempre fizeram discurso favorável aos pobres. Como se vê, na prática, a teoria é outra.

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