Um templo no Himalaia

Por Maria Lucia Victor Barbosa


12 de julho de 2002

Confesso que às vezes sucumbo a um devaneio: retirar-me para um imaginário templo no Himalaia. Ali, na atmosfera rarefeita e entre neves imaculadas, tentaria elevar o espírito e descansar dos descalabros que raça humana infringe a si mesma com aquele misto de euforia, ingenuidade e ignorância tão características da nossa espécie.

Não nego o grande progresso havido nos meios de transporte e comunicação, na ciência e na tecnologia. Mesmo assim, não se pode dizer que a criatura humana tenha mudado em sua essência. E nem a experiência que a história deveria transmitir nem o bom senso que adverte para que não se cometa certos erros, impede que o homem galope para o abismo da sua desgraça com aquela alegria infantil de quem desconhece os perigos.

Parece que tudo isto nada tem a ver com nosso momento político, mas é justamente esta encruzilhada do destino que me faz sonhar com aquele fantasioso templo no Himalaia. Mesmo porque, depois que o PT e seu candidato despertaram a fase risco Brasil, que se antes já existia agora vai em desabalada carreira rumo aos confins do Terceiro Mundo, não houve mais tranqüilidade. Sobe bolsa, despenca bolsa, sobe a cotação do dólar, sobe a inflação, desorganiza-se aos poucos a economia em meios a intrigas e rompantes não só do candidato do PT mas dos demais presidenciáveis.

Logo vão dizer que esqueci de explicar, que as oscilações da economia são também provocadas por fatores externos. Antes que me acusem desta falha, aviso que estou a par das circunstâncias internacionais, mas que por questão do pequeno espaço do artigo, prefiro me ater às questões internas, especialmente as ligadas ao momento eleitoral.

A estas alturas, não queiram me iludir com o argumento de que tudo não passa de perseguição dos investidores estrangeiros. Afinal, ninguém é obrigado a embarcar em canoa furada para atravessar mares revoltos. E se formos sinceros, admitiremos que o risco Brasil fomos nós mesmos que produzimos.

Vejamos, por exemplo, o caso do PT: este é o único partido que trabalha o tempo todo e não apenas durante as eleições e, assim, trabalhou incessantemente contra o atual governo para desmoralizá-lo. Inclusive, tentou de todo jeito derrubar esse Fernando como o fez ou colaborou decisivamente para a derrubada do outro. A maioria acreditou e nem o próprio governo soube defender-se como devia. Até fez vista grossa para os desmandos do MST, que por mais que o PT negue, é seu braço armado no campo e sua cria dileta.

O PT é o único partido que possui a mística, os demais nem ligam para isto. Por conta da mística, a crença dos petistas lembra o da fé. Nenhum militante acreditará que seu partido pode errar e qualquer erro será considerado acerto mesmo que seja igual ao erro dos outros. Tão pouco os adeptos do PT aceitam que suas hostes podem sucumbir ao pecado da corrupção, pois seu partido é isento do pecado original.

O PT possui disciplina rígida, enquanto os outros não têm nenhuma e seus procedimentos são seguidos de forma idêntica em todos os lugares em que seus membros logram chegar ao poder. Qualquer dos integrantes de suas fileiras, que negue os dogmas partidários ou aponte alguma falha, é sumariamente excomungado, quer dizer, alijado, proscrito das fileiras ou falanges.

O PT, sob o olhar indiferente ou complacente da nação, foi assumindo pontos vitais de controle social, como a imprensa e as universidades. Com isso, foi assegurando na prática a lição de Gramsci: “tomar a direção cultural e moral da sociedade”.

Enquanto isso, onde estavam os outros partidos? Ou mesmo aqueles indivíduos que conhecem a mentalidade do atraso que campeia no PT? Os primeiros flanando, os segundos esparsos, isolados, resistindo como podiam ao patrulhamento, á censura, à perseguição deste partido inquisidor por excelência.

E há ainda uma diferença entre as chamadas esquerda e direita: enquanto a esquerda abriga e protege os seus, a direita, pelo menos em tempos mais recentes, é desunida e só lembra do perigo na hora da adversidade.

Por isso o PT empolgou prefeituras e governos e agora se prepara de novo para o salto maior. Tem feito péssimas administrações, é acusado de corrupção em Santo André, São Paulo, Rio Grande do Sul, etc., conforme noticiado pela imprensa, mas como trabalhou bem e dispõe de mecanismos para abafar os escândalos, sua aura imaculada permanece. O PT é um partido acima de qualquer suspeita.

Mas mesmo com Lula sempre em primeiro lugar nas pesquisas, não se pode prever o que acontecerá quando em 6 de outubro as urnas forem abertas. No momento, Ciro Gomes vai ascendendo nas intenções de voto. Seu estilo bem latino-americano de nacionalisteiro, seu populismo, seu anti-americanismo começam a fazer sucesso, e quem não gosta da esquerda de botequim do Lula Mendonça vai para esquerda de butique do Ciro Gomes. Enquanto isso, Serra tem uma vice que continua a se opor ao presidente Fernando Henrique e Garotinho, bem, esse não conta mais.

Por essas e por outras, penso às vezes naquele tranqüilo templo entre as neves do Himalaia. Mas fico. Fico e tem mais, voto.

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