Tortura e semântica

Olavo de Carvalho

O Globo, 3 de julho de 2004

Duas dúzias de iraquianos sem roupas, embolados no chão em pose grotesca, um deles se borrando de medo de um cão amarrado, todos por fim devolvidos às suas famílias sem um único dano corporal – eis aí cenas tão revoltantes quanto mãos e braços cortados, soldados e civis decapitados diante das câmeras, terroristas exibindo festivamente pedaços de carne de vítimas israelenses, dezenas de milhares de cadáveres de presos políticos exumados de cemitérios clandestinos, hordas de crianças emergindo, pálidas e trêmulas, das sombrias prisões de Saddam Hussein.

Tal é o critério de julgamento moral que o lobby anti-Bush — o mais rico e poderoso da história humana — vêm impondo à opinião pública mundial.

Os vídeos recentes de Abu Ghraib são repetidos ad nauseam , sublinhados por clamores de indignação destinados a dar ares de atrocidade nazista a grosserias fisicamente inofensivas, exemplificando à risca a definição de TV formulada por Guy Debord: “A imagem — mais o comentário que a desmente.” Se, em vez disso, você quer saber o que é tortura de verdade, tal como se praticava em massa na mesma prisão no tempo de Saddam Hussein e ainda se pratica na Coréia do Norte, tem de ciscar na internet. As imagens estão lá – e não precisam de nenhum comentário. Um iraquiano com calcinha na cabeça, obrigado a sentar-se em posição incômoda durante um interrogatório, precisa da ajuda de muitos comentaristas para ficar parecendo uma vítima do dr. Mengele. Mas homens ganindo de dor, retorcendo-se em convulsões após ter dedos ou braços amputados a machadadas, não necessitam de nenhum reforço oratório. Suas imagens falam por si. Por isso mesmo a mídia as sonega ao público. Porque são de uma monstruosidade tal que, depois de vê-las, qualquer um entende que o simples uso de uma mesma palavra — “tortura” — para designar essas duas séries de fenômenos tão heterogêneos já é um crime: o crime de atenuar propositadamente diferenças imensuráveis, para dar aos terroristas o benefício da equivalência moral com as tropas americanas.

Se isso não é colaborar com o terrorismo, então não há nada de pró-nazista em dizer que Churchill foi tão ruim quanto Hitler. Se não é crime, também não o é equiparar os carrascos de Auschwitz aos soldados do exército americano de libertação. Pois estes também não trataram os alemães com os primores de delicadeza que hoje seriam necessários para escapar da acusação de “tortura”. Ao contrário: gritaram com eles, jogaram-nos pelados em celas frias, aterrorizaram-nos com ameaças brutais, humilharam-nos com insultos. Só não os mandavam para câmaras de gás, não os espancavam até à morte, não os usavam como ratos de laboratório. Nem lhes amputavam dedos, mãos e braços. Nem os decapitavam, filmando tudo para ensinar às criancinhas como se faz. Mas essas diferenças, segundo a moral dos bem-pensantes, são desprezíveis. “Tortura é tortura”, pontificam eles no tom de quem enuncia um princípio lógico elementar. Sim, uma vez imposto o uso do mesmo termo para designar coisas radicalmente diferentes, a identidade do nome vale como prova da identidade da coisa. Depois disso, torna-se fácil estender a acusação de tortura a virtualmente qualquer representante do governo americano, por exemplo um deputado como aqueles dois que imaginaram ingenuamente poder transitar em segurança pelo território brasileiro. Os trombadões comunistas da UERJ que ameaçaram decapitá-los não fizeram senão tirar uma conseqüência lógica daquilo que lêem nos jornais e ouvem de seus professores todos os dias: se “tortura é tortura”, nada mais razoável do que eliminar o crime hediondo suprimindo os agentes do governo que o pratica. Por isso, até os comentaristas que condenam a malta de agitadores enragés não ousam chamá-la pelo que é: comunista. Chamam-na de fascista, porque “fascista”, na nova semântica nacional, é sinônimo de americano — e assim é possível falar contra a violência sem manchar a ideologia que a inspira, com a vantagem adicional de deixar no ar a impressão de que o único pecado dos atacantes foi o de serem quase, quase tão maus quanto suas vítimas.

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