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Ecos de um debate na UFPR

Olavo de Carvalho
Curitiba, 24 de outubro, 2002.

 

Sempre que falo em público, e excetuado o caso de explícita decisão em contrário da parte dos organizadores do encontro, advirto aos ouvintes que não precisam esperar pelo fim da minha exposição para fazer as perguntas ou objeções que desejem. Platônico ao menos nisso, não creio muito na virtude das exposições contínuas: prefiro a forma dialogada, que permite ao expositor ir clareando as obscuridades de sua fala antes que se adensem numa massa indeslindável de malentendidos.

Presente à minha conferência na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná, bem advertido portanto do seu direito de me interromper, o sr. Walmor Marcelino, em vez de exercê-lo ou de pelo menos apresentar suas objeções no final, preferiu adotar aquilo que tem sido, desde a publicação de O Imbecil Coletivo, o procedimento-padrão de todos os complexados que não me suportam: fugiu do confronto e foi falar mal de mim lá longe, onde eu não o pudesse ouvir. Ele próprio o admite: “Fugi covardemente.” Não posso portanto negar a esse intrigante ao menos o mérito do realismo. Ele sabe que não vale nada.

Felizmente, seus ouvintes não seguem o seu exemplo de covardia. Um deles me remeteu uma cópia do panfleto que, após a minha volta ao Rio de Janeiro, o sr. Marcelino fez circular na UFPR. Em atenção ao pedido desse estudante, passo a examinar o curioso escrito, que, se por si não vale um minuto de leitura, não deixa de ser interessante como sinal dos tempos.

Após uma longa introdução que não me diz respeito, o autor do panfleto, querendo dizer algo contra mim mas não sabendo o quê, apela ao primeiro chavão difamatório que lhe vem à cabeça, acusando-me de ser um intolerante que “não admite que as pessoas discordem”. Uai, se compareço a um debate, é porque quero debater, e não imagino como seria possível fazê-lo sem discordâncias. Aliás, se convido as pessoas a manifestar suas divergências até mesmo durante a minha exposição, é obviamente porque não as temo nem as rejeito, mas as aprecio. Limito-me a respondê-las, pois para isso precisamente foram feitas. E é a sua doentia irritação contra isso, no fim das contas, que o sr. Marcelino expressa de maneira obscura ao proclamar que não admito discordâncias: quer dizer que tenho a intolerável arrogância de respondê-las. Trata-se, evidentemente, de confusão típica de um cérebro emburrecido pelo ódio. A premissa implícita do seu raciocínio – se chega a ser um raciocínio – é que, para provar tolerância, um conferencista deve abster-se de responder às objeções, limitando-se a ouvi-las em contrito silêncio e a balançar a cabeça em sinal de humilde aprovação. A absurdidade da premissa salta aos olhos: a proibição da tréplica torna impossível qualquer debate, limitando a conversa à exposição estática de um pró e de um contra fechados e inalteráveis, sem qualquer troca de argumentos em seguida. E não há como escapar da conclusão de que, se Marcelino fica tão irritado com o fato de eu responder, é porque não admite respostas. A crítica que me faz é, portanto, apenas a imputação projetiva dos sentimentos ruins que se agitam na alma de um idiota desprovido de autoconsciência.

Mas, se ele não percebe nem o que se passa dentro da sua própria cachola, muito menos há de compreender o que vem da minha. Some-se à incompreensão a vontade expressa de difamar, e terão a explicação das sentenças absurdas que ele me atribui, as quais eu nunca disse e que são de sua própria e exclusiva invenção. De tais ou quais idéias diferentes das minhas, por exemplo, eu teria afirmado que "não se coadunam com o conhecimento científico de nosso tempo". Quem quer que conheça algo de minhas obras e do meu estilo sabe que eu jamais diria uma coisa dessas, primeiro porque tenho um solene desprezo pela autoridade do "conhecimento científico de nosso tempo", segundo porque tudo o que escrevi até hoje vai diretamente contra a crença de que a contemporaneidade seja critério de valor de uma idéia ou doutrina, terceiro porque uma de minhas vaidades de escritor é jamais apelar a chavões de mau gosto. Olavo de Carvalho é uma coisa; Olavo de Carvalho escrevendo no estilo de Walmor Marcelino, é outra completamente diferente.

Em seguida, o sr. Marcelino imputa-me a qualificação de Gramsci como “aberração filosófica”. Aqui, ele me entendeu – ou fingiu entender – precisamente ao inverso. O que eu disse foi que Antonio Gramsci qualificava de aberração qualquer pensamento individual não diretamente aproveitável na luta de classes, como por exemplo o meu próprio, já assim rotulado várias vezes pelos gramscistas de plantão.

Obviamente eu não disse, também, que "os marxistas acham que o salário do trabalhador contém um excedente a que chamam mais-valia”, mas dei a definição marxista corrente de mais valia, isto é a diferença entre o salário pago e o valor-trabalho real investido na produção da mercadoria – definição que, aos ouvidos do sr. Marcelino, soou tão nova e estranha que ele nem sequer conseguiu reproduzi-la sem transformar a mais-valia precisamente no seu contrário, isto é, em algo que sobra e não que falta no salário do trabalhador.

Também é claro que não pronunciei nenhuma das outras frases que Marcelino me atribui:

"Existem pessoas [os marxistas] que acham possível definir um preço industrial de um produto, quando ele é na verdade apenas preço de comércio."

Karl Marx pensou que descobriu classes sociais e conflito de classes nas sociedades.”

Georgy Luckacs era um húngaro miserável, corno, que escreveu sobre uma inexistente consciência de classe".

Cada uma delas era outra coisa, que no cérebro desse autêntico cabeça-de-toucinho se transformou nisso.

Para esclarecimento dos que estiveram ausentes: quanto ao primeiro ponto, eu estava apenas expondo a clássica objeção de Eugen von Böhm-Bawerk à teoria marxista do valor (1), objeção que Marcelino, ao resumi-la como o fez, mostrou ser para ele uma completa e incompreensível novidade.

A segunda frase é ambígua. Ao colocá-la na minha boca, pretende Marcelino dizer que, na minha opinião, Karl Marx só pensou ter descoberto a luta de classes sem ter descoberto efetivamente nada, ou que Karl Marx, além de ter descoberto alguma coisa, também pensou que descobriu? A própria construção da frase que ele me atribui mostra que essa diferença lhe escapa. Quando Marcelino conseguir entender o que escreveu, ele talvez nos diga de que se trata.

Quanto ao terceiro ponto, o que eu disse foi que Lukács, no desespero de explicar a adesão do proletariado europeu às ideologias nacionalistas, que Lênin considerava incompatíveis com o seu interesse de classe, inventou a distinção entre “consciência proletária atual” e “consciência proletária possível” – atribuindo esta última, curiosamente, não aos proletários de carne e osso mas à elite do Partido, ele próprio incluso embora filho de capitalista. Em suma, resumi o que tinha dito no artigo “Do marxismo cultural” (2). Leiam e comparem com a interpretação marcelínica de minhas palavras: é a distância que vai entre uma idéia e um pum.

Também não chamei Lukács de “corno”, embora o termo não fosse inteiramente descabido no caso. Limitei-me a contar, de passagem e só para divertimento da platéia, que ele dividia a esposa com o co-locatário do seu apartamento – um episódio bem conhecido de todos os que tenham estudado a biografia do filósofo húngaro, o que evidentemente não é o caso do sr. Marcelino.

Não tendo compreendido sequer as frases isoladas, muito menos pode o sr. Marcelino ter apreendido a linha geral do meu raciocínio, que ele, com certa candura, confessa mesmo não ter captado nem de longe, mas que, segundo verifiquei num debate posterior com os estudantes presentes, não escapou a nenhum deles, já que afinal a população acadêmica da UFPR, felizmente, não se compõe de Marcelinos. A explicação do fracasso do sr. Marcelino em compreender o que todos compreenderam talvez resida num detalhe especialmente pitoresco: embora o anúncio do encontro prometesse apenas um debate sobre Antonio Gramsci, o sr. Marcelino confessa que ali compareceu “na expectativa de que ele (Olavo de Carvalho) logo iria, cientificamente, mostrar a coerência lógica ou a compatibilidade orgânica da microfísica de Heisenberg, a física de Galileu e a macrofísica de Max Planck e Einstein”. Compreende-se que, com essa esperança, ele não aproveitasse grande coisa do debate.

Há também, no seu panfleto, a dose regulamentar de diagnósticos psicopatológicos pejorativos que, nos escritos da crítica inepta, substituem habitualmente os resumos fiéis e as refutações inteligentes. Não vejo por que respondê-los. Não tenho pelo meu próprio inconsciente freudiano o interesse obsessivo que lhe vota o sr. Marcelino, e limito-me portanto a transcrever o seguinte parágrafo de um artigo que escrevi recentemente:

Neste país, quanto mais um indivíduo se mostra incapaz de apreender a mera referência fática do que a gente lhe diz, mais se sente habilitado a diagnosticar, por adivinhação, os sentimentos íntimos e as motivações ocultas do interlocutor -- como se a inépcia lingüística fosse um atestado de superior acuidade psicológica. Cada analfabeto funcional que encontrei nesta vida acreditava ser o doutor Freud em pessoa.”

Com estas palavras, despeço-me do sr. Marcelino.

Resta-me apenas mencionar que reação um tanto similar à dele foi observada no prof. Abilli, meu contendor no debate. Mais ainda que os ouvintes, esse senhor teve, como ocupante da mesa, tempo bastante para expor as idéias que bem entendesse. Não tendo idéia nenhuma, limitou-se a apelar ao argumento da fama -- versão brega do argumentum auctoritatis -- , alegando ser Antonio Gramsci um sujeito respeitadíssimo, etc. e tal, e acabando por cair no completo ridículo por sua própria iniciativa, sem qualquer ajuda da minha parte. No dia seguinte, teve uma tardia explosão de cólera diante de seus alunos, alegando-se vítima de opressão nazista e de um complô concebido para humilhá-lo. Não consigo imaginar o que ele quis dizer com a primeira dessas expressões, mas, quanto à segunda, informo que, desconhecendo o prof. Abilli até a ocasião (ao ponto de não ter até agora a certeza de estar grafando corretamente o seu nome), não tive contra ele nenhuma intenção maligna. A única coisa que posso ter feito para humilhá-lo foi involuntária: foi ter estudado o que ele não estudou. Mas isso foi desde muitos anos antes do debate e numa época em que eu nem suspeitava da existência do distinto. Não tenho culpa nenhuma de ele ser o que é.

Petrópolis, 7 de dezembro de 2002

Notas

(1) Eugen von Böhm-Bawerk, A teoria da exploração do socialismo-comunismo. A idéia de que toda renda não advinda do trabalho (aluguel, juro e lucro) envolve injustiça econômica, trad. Lya Luft, Rio, José Olympio, 1985, reproduzido em http://www.olavodecarvalho.org/bbawerk/rosto_bohm.htm.

(2) “Do marxismo cultural”, O Globo, 8 jun 2002, reproduzido em http://www.olavodecarvalho.org/semana/06082002globo.htm.


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A quem interessar possa:

Uma Denúncia à Farsa Cientificista
de Olavo de Carvalho

Dias de Interesse, dias de contestação, dias de aprendizado

Walmor Marcellino

Vou à Faculdade Federal de Direito, onde os estudantes organizaram exposição do pensamento de Antônio Gramsci pelo filósofo Olavo de Carvalho, seguida de debate.

Olavo Carvalho, que se qualifica filósofo, é jornalista com coluna assinada nos jornais "O Globo" e "Estado de S. Paulo" e na revista "Época", onde pontifica temas políticos e avaliza um ou "o pensamento liberal". Realiza também palestras em várias instituições e lugares, entre eles a Associação Comercial do Paraná.

Na platéia, apenas meia dúzia de não-estudantes, como eu. Antes da chegada do conferencista sou advertido de que é o Partido Democrático Universitário que promove o evento. Passo os olhos por um folheto com o título Vox Discentis, veículo informativo do PDU.

Sob o título Democracia e Movimento Estudantil, vejo um trecho de Karl Marx "contra o passado", seguido de outro de Duarte do Lago Pacheco Pereira, quando ainda ativista da JUC e diretor da UNE, em que diz "os estudantes devem participar de movimentos sociais mas sem abrir mão de suas especificidades enquanto estudantes...".

(Descontextualizados, os dois citados ali dizem o que não dizem. Ou não dizem o que pensam, um como o filósofo de "A Miséria da Filosofia", "Manuscritos Econômico-Filosóficos", "A Ideologia Alemã" e "O Capital", o mais influente nos últimos 150 anos; e o outro, como ex-dirigente da revolucionária Ação Popular Marxista-Leninista de 1967 a 1973.)

A seguir: "O Partido Democrático Universitário propõe uma nova concepção de movimento estudantil. Uma concepção que supere a atual dicotomia que nos deixa encurralados entre as alternativas 'massa mobilizada pela vanguarda' ou 'lideranças apolíticas'. A conjuntura sócio-política nacional e mundial sofreu grandes transformações, às quais o movimento estudantil deve se adaptar, sob pena de entrar para o museu da sociedade civil organizada. Apresentamos uma terceira opção, que não um meio-termo entre as duas,...".

"... já não somos mais uma ditadura e tampouco um populismo."

"... o único modelo capaz de dar conta desta nova realidade... capaz de representar todos os alunos apesar de suas especificidades"... "mas sem ignorar os topoi específicos de nossa comunidade... é o modelo Democrático-Estudantil..."

Seguem-se três princípios e um "pensamento de Olavo de Carvalho"; deste uma espécie de confiteor contra o espírito coletivista do rebanho estudantil.

Se o veículo informativo dos estudantes do PDU assustava pela pedante e juvenil algaravia vocabular, acreditei que o expositor-filósofo e o professor de sociologia e direito apresentado como objetor poderiam oferecer algum esclarecimento sobre o filósofo marxista Gramsci.

E Olavo de Carvalho começou a falar. Ao início julguei que ele acabaria por organizar o tropel de afirmações categóricas sobre as atitudes e condutas anticientíficas em nossa sociedade e no mundo. E não deixou por menos: não admite que as pessoas discordem (acordar, concordar, discordar vem de cor cordis, o coração. Sabiam?) das suas proposições "epistemológicas", pois essas idéias diferentes "não se coadunam com o conhecimento científico de nosso tempo".

Pus-me na expectativa de que ele logo iria, cientificamente, mostrar a coerência lógica ou a compatibilidade orgânica da microfísica de Heisenberg, a física de Galileu e a macrofísica de Max Planck e Einstein. Mesmo a indeterminação de Heisenberg não mexeu com sua determinação, e a atração dos buracos negros do universo não lhe puxaram velozmente a massa.

Categórico na afirmação da sua imprecisa verdade científica, que não se motivou a explicitar, tal a "obviedade filosófica" em sua "explanação", variou por anedotas e graças a respeito de todos os temas sérios ou aleatórios que seu cérebro erradio pode fazer. Foi assertórico em tudo o que falou durante uma hora, porém sem fixar uma linha divisória entre sua própria percepção das realidades políticas, o reconhecimento da sua própria vontade e sua pletora de blagues, como uma inventiva jocosidade "científica".

Depois de certificar-me, pelas risadas de alguns dos estudantes embrutecidos pela ignorância, os quais confirmavam a imbecilidade do "Vox Discentis", comecei a fazer-me psicólogo: talvez a platéia tivesse idade mental adulta que só se revelasse em questões menos complexas do que filosofia, sociologia e política; ainda que a escolha temática de Gramsci como "uma aberração filosófica" revelasse desprezo ao estudo e ao exercício do raciocínio.

E também, talvez, o autofilósofo Olavo de Carvalho fosse apenas um paranóico, sofresse uma dissociação da personalidade; ou uma disforia que se compensava com o fumo; quem sabe apenas mais uma vítima da perplexidade que acompanha nossa fragmentação do entendimento nessa sociedade capitalista esquizofrênica.

Atônito e de razão acuada, ouvi durante uma hora uma catadupa de tolices como: "os marxistas acham que o salário do trabalhador contém um excedente a que chamam 'mais valia' "; "existem pessoas [os marxistas] que acham possível definir um preço industrial de um produto, quando ele é na verdade apenas preço de comércio...;" "Karl Marx pensou que descobriu classes sociais e conflito de classes nas sociedades"; Georgy Luckacs era um húngaro miserável, corno, que escreveu sobre uma inexistente consciência de classe".

Lembrei então que o idiotismo de Olavo de Carvalho tem guarida em alguns dos veículos de comunicação social mais importantes do país; e que o discernimento dos intelectuais orgânicos do empresariado do Paraná faz dele o símbolo de sua razão e de sua capacidade de pensar. O que esperar dos filhos dessa classe média com pretensões à liderança econômica e social.

Não resisti aos coices contra a inteligência e a razão. Não pude esperar pela reação da vítima que me pareceu o encurralado professor de sociologia do direito. Fugi covardemente.

Não só Antônio Gramsci, Karl Marx, Georgy Luckacs foram varridos da história e demitidos do cenário intelectual, como também a filosofia e a razão.