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O Brasil contra a filosofia

Olavo de Carvalho
Playboy, novembro de 2006

 

Outro dia, meu filho de dezessete anos me disse: “Pai, no Brasil nunca vi alguém que acreditasse em alguma coisa por ser verdade. Eles dizem o que querem que aconteça, ou o que acham que é bom para eles, e chamam isso de ‘verdade’.”

É a experiência de um garoto que veio para os EUA dezoito meses atrás. Se tivesse desembarcado no Japão ou em Angola seria a mesma coisa. Ele tinha descoberto a diferença entre o Brasil e a espécie humana.

Não foi só ele quem descobriu. Nossos melhores romancistas – Machado de Assis, Lima Barreto -- já haviam reparado no fenômeno. Para isso é preciso muito estudo, muita reflexão. Sobretudo é preciso que tenha despertado na sua alma aquilo mesmo que falta no ambiente: o desejo de conhecer a realidade, de sacudir de si o torpor solipsista e tentar descobrir as coisas como são. O brasileiro a quem isso aconteça vê logo um abismo abrir-se entre ele e os outros. O que ele aprendeu é incomunicável na linguagem comum, feita para expressar desejos, temores, esperanças, não fatos, coisas, situações. Ele é agora o portador de um segredo, e quanto mais se esforça em revelá-lo mais parece ocultá-lo sob um manto esotérico. Os profanos se vingam, chamando-o de arrogante e esnobe. A família ri dele, a namorada ameaça largá-lo. Então ele não agüenta mais: vende a consciência em troca de afeição. Está maduro para tornar-se um professor da USP.    

Tanto em Machado quanto em Lima Barreto os únicos personagens que querem saber da realidade acabam vivendo num quase completo isolamento. O Conselheiro Aires e M. J. Gonzaga de Sá personificam o destino da consciência inquieta num oceano de inconsciência satisfeita. Não estou falando do “destino do intelectual”. O Brasil está cheio de intelectuais. Eles não precisam se perguntar sobre a realidade porque já receberam todas as respostas na universidade, acompanhadas da reconfortante solidariedade grupal que acaba se tornando o mais invencível dos vícios. Eles tanto desprezam o conhecimento que, quando encontram alguém que sabe mais que eles, tratam logo de isolá-lo para que não cometa o pecado de lhes ensinar alguma coisa.

A filosofia nasce da pergunta sincera sobre a realidade. Com o tempo, pode degenerar em imitação acadêmica, mas sempre há filósofos genuínos que a devolvem à sua inspiração primeira. No Brasil, o que se entende por filosofia não é nem a imitação acadêmica: é a imitação da imitação acadêmica européia. Sim, a nossa experiência da filosofia não vem da fonte direta, daquele espanto inicial, o thambos aristotélico, que desperta o desejo de conhecer. Não vem sequer dos gregos, portadores da experiência originária do thambos. Quando tomamos conhecimento da filosofia, já é de terceira mão, por meio de seus mais recentes subprodutos universitários. A régua com que medimos nossas miúdas especulações não é a profundidade e seriedade da experiência interior ou exterior, não é nem mesmo a tradição clássica; é o critério escolar do dia, é a opinião corrente de burocratas, arquivistas da filosofia. Na USP ou na PUC ninguém jamais se interessou em conhecimento da realidade. Talvez nem concebessem que ela existe -- e ainda foram reforçados nesse estado de ignorância homeostática pela autoridade clerical do desconstrucionismo, que transforma a impotência de conhecer numa obrigação estatutária de achar que não há nada para ser conhecido. Dispensados de respeitar a presença das coisas e seres, estão livres para tagarelar sobre “autores”, “textos”, “discursos”, “constructos culturais”, bem como para entregar-se à volúpia da “imposição de discurso” sob a desculpa de que ninguém jamais fez outra coisa no mundo.

Não espanta que, após alguns anos dessa dieta, não agüentem manter nem sequer o padrão escolar, e caiam para a papagaiada ideológica. Ideológica? Não chegam nem a isso. Doutrinação ideológica supõe algum esforço intelectual, alguma ordenação das idéias. Isso está infinitamente acima da capacidade de um Emir Sader, de uma Marilena Chauí, de um Gilberto Felisberto de Vasconcelos. O que eles fazem é beletrismo publicitário esquerdista, desesperadoramente kitsch.

O Brasil optou desde o século XIX por uma cultura de ódio ao conhecimento e de amor às futilidades socialmente lindinhas. Só faltava transformá-la numa força política organizada. Com a ajuda de Antonio Gramsci, a presente geração de intelectuais ativistas fez isso. O Mensalão, o dinheiro na cueca e cinqüenta mil homicídios anuais entre louvores entusiásticos à normalidade democrática são a cultura brasileira transfigurada em Estado.