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Confusão e medo em Campinas

 

Parece que não é só em Porto Alegre que o PT, tão logo assume o Executivo, espalha um turvo ambiente de confusão, medo e insegurança entre os cidadãos e até entre seus colaboradores. Campinas, SP, minha terra natal, está passando por experiência similar. O caso do jornalista Martim Vasques, que aqui ele relata em três cartas -- uma enviada a mim, outra ao diretor da Folha de S. Paulo, Otávio Frias de Oliveira, a última ao editgor do jornal eletrônico no., Marcos Sá Corrêa – é alarmante. Algo de muito estranho está se passando na Prefeitura de Campinas. – O. de C.

 

Carta de Martim Vasques da Cunha a Olavo de Carvalho

 

Escrevo estas linhas sob o peso do terror nos ombros da minha família. Meu nome é Martim Vasques da Cunha de Eça e Almeida, sou jornalista, e filho da professora e doutora Maria da Piedade do Botelho Vasques da Cunha de Eça e Almeida. Ambos estamos sendo vítimas de um ataque sistemático realizado pela administração municipal de Campinas, no caso o Governo Popular e Democrático, dominado pelo Partido dos Trabalhadores.

Como deve saber, no dia 10 de setembro de 2001, aconteceu uma tragédia nesta cidade: o assassinato de Antonio Carlos da Costa Santos, o Toninho, em uma avenida perto do Shopping Iguatemi. Um mês depois, este caso ainda está sendo investigado pela Polícia Civil de Campinas que, mesmo com todas as pressões políticas do PT para que se jogue a possibilidade de um crime político, está fazendo o trabalho correto em apurar todas as versões deste acontecimento, atendo-se somente às evidências.

No entanto, há a Comissão de Investigação da Prefeitura que supervisiona o caso e ela fez um dossiê com 11 tópicos, com nomes de suspeitos ou possíveis interessados na morte do prefeito. E entre esses nomes estão o meu e o da minha mãe. Como fomos parar nessa enrascada?

A história é um tanto longa. Minha mãe era amiga íntima do Sr.Prefeito e, com a vitória deste, ele pediu que ela o ajudasse na questão da segurança, motivo de grande preocupação da população campineira. Ambos criaram, com ajuda de representantes da sociedade civil organizada, o Conselho Integrado de Segurança em que discutiriam e analisariam as ações e as políticas públicas da Secretaria de Segurança. Após três meses, com a minha mãe representando ninguém menos que o próprio Prefeito, ele resolveu que, para "apressar a credibilidade do Conselho", deveria usar o vínculo institucional dela com a Universidade de São Paulo, da qual ela está afastada por problemas de saúde. Minha mãe disse que não era preciso, mas mesmo assim o Prefeito providenciou todos os documentos que julgava necessários, e confirmou a ligação do Conselho com a USP através da presença da professora e doutora Maria da Piedade. Durante seis meses, ela preparou as pautas de todas reuniões, coordenou as atas, conseguiu instalar o Conselho em uma sala própria com computadores atualizados - tudo gratuitamente e voluntariamente, pagando do seu próprio bolso e não tendo nenhuma ajuda da Prefeitura. Fazia isso pelo grande amigo Toninho, sem se preocupar com ganho político ou autopromoção.

No mês de março fui convidado por uma amiga do Prefeito, a Sra. Neuza Rizzi, Diretora da Rádio Municipal e Diretora Interina de Turismo, para trabalhar na Secretaria Municipal de Cultura, então sob o comando do Sr. Jorge Coli. Minha função era ajudar o então Diretor de Cultura, o Sr.Marcos Tognon, em elaborar um projeto de comunicação integrada e de assessoria de imprensa que teria como carro-chefe dois boletins informativos eletrônicos, "Circula Cultura" e "Informa Cultura". O público-alvo deste projeto seria a cúpula do Governo Popular e Democrático e seus funcionários, além da imprensa campineira e do eixo Rio-São Paulo. Tanto o Sr. Tognon como a Sra. Rizzi me afirmaram que a minha nomeação sairia sem problemas e que eu não deveria me preocupar. E assim fiquei por três meses. Nesse período notei uma série de irregularidades - como documentos sendo queimados todos os dias no final do expediente – das quais muitas foram confirmadas por assessores e amigos pessoais do Prefeito. Além disso, fui convidado a participar de um plágio em cima de um projeto chamado "Brinquedoteca", já elaborado por uma funcionária chamada Giselda Pereira Silva. Não aceitei pelo simples motivo que eu não gostaria de chegar no Paraíso e, quando me encontrar com o Todo-Poderoso, confessar que corrompi a minha alma. Curiosamente, fui chamado no dia seguinte pela Sra. Rizzi que me disse que eu não seria mais contratado pela Prefeitura por causa da Lei da Responsabilidade Fiscal. Na mesma semana, através de contatos com minha mãe e com assessores, conversei com o Sr. Prefeito que garantiu a minha nomeação para o Departamento de Comunicação. No entanto, depois de um mês nada aconteceu e percebi que ele queria me fazer de tolo. Afinal, tinha cumprido o meu trabalho e, numa sociedade organizada, quem faz o seu trabalho é pago por ele. Escrevi e enviei um e-mail contando o meu caso com a devida indignação aos deputados do PT, José Dirceu, José Genoíno e Renato Simões e aos deputados da oposição, Carlos Sampaio do PSDB, e Peterson Prado do PPB. O resultado foi imediato: em menos de uma semana, fui chamado pelo Prefeito, que afirmou aos seus colegas que "este garoto me pôs numa sinuca política" e, com a ajuda do chefe de expediente do gabinete, Sr. Ari Pedrazzoli, resolveu o meu problema em menos de quinze minutos. Assim, minha nomeação, como assessor departamental técnico nível III (salário: R$ 1.466, mais ou menos o piso de um jornalista recém-formado, segundo o sindicato) saiu por tempo determinado - do dia 23 de março ao dia 12 de junho de 2001. Recebi meu cheque um mês depois e acreditei que minha história terminara.

Grave engano. Logo depois do meu problema na Secretaria, minha mãe notou, no mês de Julho, que seu velho amigo não era mais o mesmo. Seu comportamento mudara; estava mais taciturno, não falava mais com os antigos colegas, evitava falar com minha mãe sobre os problemas da Prefeitura. Preocupada e ciente de várias irregularidades que também aconteciam em a Prefeitura, minha mãe acreditou que o único meio de atingir a personalidade turbulenta do Prefeito era escrever artigos no jornal falando sobre esses problemas e incitando o amigo a uma resposta. Como ele não respondia, ela insistiu, abordando todas as secretarias. A reação a estes artigos da parte do PT parecia ser de respeito, assim como a da oposição. Tudo parecia estar sob controle até o dia em que o Secretario da Cultura, Sr. Marcos Tognon (Jorge Coli havia se retirado do cargo porque, simplesmente, não comparecia mais à Secretaria), respondeu a um artigo de minha mãe sobre as políticas culturais adotadas pela administração. A resposta do Secretario foi no mínimo insidiosa, afirmando que minha mãe procurava ganho político e era oportunista. A tréplica dela foi mais violenta, inclusive denunciando, sob formas de perguntas, as irregularidades que eu havia descoberto na Secretaria e confirmado com assesores do Prefeito: o aumento de 15% no salário dos assessores da Cultura em relação à administração passada (que era de Francisco Amaral, do PPS), considerada "perdulária" pela então oposição do PT; a perseguição sistemática a funcionários de carreira e concursados da Prefeitura; e o fato de que o dinheiro da venda dos programas da Orquestra Sinfônica de Campinas não fôra repassado ao Fundo de Assistência à Cultura.

Isso foi no dia 30 de agosto. Até o fatídico 10 de setembro, aconteceram os seguintes fatos: minha mãe estava elaborando o Plano de Segurança que iria entrar na seleção feita pelo Governo Federal de uma verba de R$ 15 milhões. Ela havia conseguido a presença do assessor do Ministério da Justiça, o dr. André Dahmer, para uma reunião especial com o Conselho para que ele explicasse todos os detalhes de como deveria ser apresentado o Plano. Na sua boa-fé, enviava e-mails constantes ao amigo Toninho, relatando o que aconteceu nas reuniões e enviando mensagens pessoais. Ele respondia apenas através de sua oficial de gabinete. E a amizade foi indo nesse ritmo até o dia 10 de setembro, quando Toninho morreu assassinado por um tiro de 9 mm que atingiu a artéria aorta, o que provocou morte instantânea.

Minha mãe ficou chocada. Perdera um amigo. No entanto, perderia mais. No dia 14 de setembro, em plena reunião do Conselho de Segurança, ela é avisada de que a Prefeitura apresentou uma denúncia ao Ministério Público de que ela teria praticado, "em tese", falsidade ideológica para ter vinculação com a USP e assim poder entrar no Conselho. Abalada, o único documento que ela reconhece é uma fotocópia de uma carta que Toninho, de acordo com o próprio, havia conseguido pessoalmente do reitor Jacques Marcovitch comprovando o vínculo da minha mãe com a USP; Toninho havia entregue o original a ela, depois o tomou de suas mãos, afirmando que "ela não precisava se preocupar pois o Prefeito de Campinas havia resolvido o problema", deixando que ela ficasse apenas com uma cópia. Os outros documentos ela nem sequer sabia da existência deles pois, como já foi dito, foi o próprio Toninho que tomou conta da situação.

O detalhe revelador estava nos dias em que os ofícios feitos pelo Gabinete do Prefeito e dirigidos ao Gabinete do Reitor da USP foram enviados: eles começaram na última semana de agosto e se estenderam até as vésperas da morte do prefeito. Ou seja, justamente após o período em que minha mãe havia começado a escrever as críticas no jornal. Além disso, onde estavam os originais dos documentos já que as respostas da USP eram cópias de fax assinadas por uma tal de Nina Beatriz Stocco que se dizia chefe de gabinete?

É aqui que a Prefeitura dá a sua versão da história, em um documento produzido pelo Secretário de Negócios Jurídicos, Nilson Roberto Lucílio, dizendo que Toninho estaria levando dentro do carro no momento de sua morte um dossiê sobre a minha mãe. Supõe-se que esse dossiê sumiu sem deixar pistas e, só por causa disso, a minha mãe seria uma das suspeitas. A minha entrada nesse cambalacho todo se deve por causa da minha atitude de "confronto" com o Prefeito. Logicamente, isso foi um prato cheio para os jornalistas que possuem relações mais do que íntimas com o PT, mas aqui eu quero deixar abrir uma exceção sobre o jornal Correio Popular e a TV EPTV Campinas, filial da Rede Globo, que noticiaram o fato de maneira discreta e correta, sem exageros, inclusive preservando o uso da imagem e até mesmo a divulgação dos nomes. O problema foi com a Folha de São Paulo, no caso a sucursal Folha Campinas, que implicou a mim e a minha mãe como possíveis suspeitos, divulgou que eu teria sido "exonerado a bem do serviço público" e publicou uma foto em que ela aparentava estar em desespero. Claro que também nem preciso dizer da assustadora corrente de desinformação que o PT possui, propalando injúrias, calúnias e difamações que, ditas de modo freqüente, se tornam verdades.

Há uma retaliação cristalina e também um motivo político por trás disso. Minha mãe, apesar de toda a amizade com Toninho, é do PSDB; foi assessora de Franco Montoro e Mário Covas. Ela entrou na USP através de concurso público depois de uma extenuante perseguição dentro da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Seu título de doutora foi um triunfo solitário e sua trajetória política sempre foi marcada pela integridade e pela lealdade. Para mostrar ao seu amigo Toninho como era leal, lutou para manter a credibilidade do Conselho de Segurança e criar um Plano de Segurança que não atendesse a interesses ideológicos e sim à preocupação da cidade. Não é uma coincidência que, agora com a prefeita Izalene Tiene, fiel discípula do deputado estadual Renato Simões, e que sempre disse que o Conselho deveria ser parte da sua menina dos olhos, o Orçamento Participativo, essa denúncia apareça em um momento tão propício? E não é coincidência que a prefeita peça uma mísera verba de R$ 1 milhão e coloque a Segurança como sétima prioridade no OP?

Quanto a mim, sou mais um jornalista que queria ter alguma estabilidade no início da carreira. Fui levado pela boa-fé da minha mãe em relação ao seu amigo Toninho. Mas, como não sou militante do Partido dos Trabalhadores ou de nenhum partido político (justamente para preservar minha independência de espírito), percebi o que iria acontecer com uma certa antecedência. Por isso me insurgi contra a situação humilhante em que me colocaram  e fui atrás do que era não só o meu direito, mas também o meu dever como jornalista. O único erro meu e o da minha mãe, segundo a ótica do PT, é que não ficamos de boca calada. Bem, isso é problema deles. Vou continuar a contar a minha história até o momento em que virem o massacre que estão provocando numa simples família de classe média. A grande diferença deste caso em relação aos demais é que se trata de uma pessoa que era amiga íntima do Prefeito, fez críticas para manter essa amizade de forma justa e honesta e isto foi manipulado em proveito de um projeto de tomada de poder. Ao contrário do Fabrício de Stendhal, tenho plena consciência que estou fazendo parte de um momento crucial do meu país, um país que eu não suporto muito, mas é o único que tenho. É um momento em que o terror se traveste de caridade e que as boas intenções não lotam mais o Inferno porque até mesmo o Diabo deve estar irritado com elas. Assim, peço que tome conhecimento do meu caso e que transmita da melhor forma que puder. Temo pela minha integridade e da minha família, mas não irei me abater pelo medo e pelo terror pois sei que meu maior aliado está me protegendo, seja através do silêncio ou do trovão.

Um forte abraço

Martim Vasques da Cunha de Eça e Almeida

Jornalista

Campinas 10 de outubro de 2001

 

Carta a Otávio Frias de Oliveira

 

Pessoas Comuns em Situações Extraordinárias

Martim Vasques da Cunha

 

Ilmo. Sr. Diretor Editorial do jornal “Folha de São Paulo”, DD.Jornalista Otávio Frias Filho:

 

“O homem mais poderoso que há no mundo
é o que está mais só”

Henrik Ibsen, “O Inimigo do Povo”

 

Martim Vasques da Cunha de Eça e Almeida, brasileiro, solteiro, jornalista, residente na Av.Francisco Glicério, 1058, conjunto 1015, 10o andar, Campinas-SP, tendo em vista notícia publicada na edição de 5 de outubro de 2001, caderno Folha Campinas, página C3, manchete “Polícia ouve dois sobre pasta de Toninho”, assinado por repórter “free-lance”, deste prestigioso órgão de Imprensa, pela presente Notificação Extra-Judicial nos termos do que dispõe a Lei 5.250 de 9 de fevereiro de 1967 em seu artigo 29, 30, parágrafo primeiro, alínea “a”, vem à presença de Vossa Senhoria pleitear o Direito de Resposta tão necessário à liberdade, uma vez que a responsabilidade nasce da liberdade e, assim, o Direito de Resposta “é defender também a liberdade de Imprensa”.

Pelos motivos e razões a seguir expedidos, solicitando que seja publicada com o mesmo destaque e na mesma página, a fim de que se restabeleça a verdade sobre os fatos naquela matéria veiculados:

A notícia apresenta fatos e dados que não possuem criteriosa apuração e que, portanto, prejudicam a imparcialidade e não expressam a verdade que o projeto editorial deste prestigioso jornal quer demonstrar aos seus leitores.

O primeiro dado equivocado está na manchete: “Polícia ouve dois sobre pasta de Toninho”, em que se refere sobre um suposto dossiê que teria sumido no carro do Sr. Prefeito de Campinas, Antonio da Costa Santos, logo após ao momento de seu assassinato, ocorrido no dia 10 de setembro de 2001. Tanto eu como minha mãe, a professora e doutora Maria da Piedade do Botelho Vasques da Cunha de Eça e Almeida, fomos intimados pela Polícia Civil de Campinas para prestar declarações e colaborar nas investigações. Isso significa, e espero deixar isso bem claro, que não fomos como testemunhas ou, como alguns maliciosos querem pensar, suspeitos. O tópico do dossiê (que, presume-se, seria sobre a minha mãe, membro do Conselho Integrado de Segurança) era marginal no decorrer dos interrogatórios, centrando-se sobre o meu período como funcionário público na Secretaria Municipal de Cultura, Esportes e Turismo e sobre a amizade que a professora e doutora Maria da Piedade mantinha com o Sr. Prefeito.

O segundo dado, também equivocado, seria sobre a minha pessoa, Martim Vasques da Cunha de Eça e Almeida, que teria sido “exonerado a bem do serviço público”. Isso também não corresponde à verdade, assim como os rumores de que eu teria sido “demitido”. Trabalhei na Secretaria Municipal de Cultura no período entre 23 de março a 12 de junho de 2001 depois que fui convidado pessoalmente pela Diretora da Rádio Municipal e Diretora Interina de Turismo, Sra. Neuza Rizzi, para ajudar o então Diretor de Cultura, Sr.Marcos Tognon, a realizar e executar um projeto de comunicação integrada e de assessoria de imprensa em que teria como carro-chefe os boletins eletrônicos “Informa Cultura” e “Circula Cultura”. O público-alvo deste projeto seria a cúpula do Governo Democrático e Popular e seus funcionários, além da imprensa da região campineira e do eixo Rio - São Paulo. No entanto, nesse meio tempo, descobri irregularidades na Secretaria, confirmadas inclusive por assessores e amigos pessoais do Sr.Prefeito, tais como: aumento de 15% no salário dos assessores da Secretaria de Cultura em relação à administração passada, considerada “perdulária” pela oposição do PT; perseguição sistemática a funcionários de carreira e concursados da Prefeitura na mesma Secretaria; e o fato de que o dinheiro das vendas dos programas da Orquestra Sinfônica de Campinas não ter sido repassado ao Fundo de Assistência à Cultura.

Fui também convidado a participar dessas irregularidades, entre elas a de realizar plágio de um projeto chamado “Brinquedoteca” feito pela funcionária Giselda Pereira Silva. Minha recusa a estes convites se deve ao simples fato de que, como jornalista e juramentista da minha turma de faculdade, gosto de dormir com a consciência trânqüila. Curiosamente, na manhã seguinte, a Sra. Rizzi e o Sr. Tognon me chamaram e logo falaram que eu não seria mais contratado pela Prefeitura pois não interessava mais ao Sr.Prefeito devido à Lei da Responsabilidade Fiscal. Contudo, existia um pequeno detalhe: estávamos no dia 12 de junho e eu sequer tinha sido nomeado no Diário Oficial do Município. Portanto, como poderia ter sido demitido?

No dia seguinte conversei com o Sr. Prefeito que me garantiu a minha nomeação através do Departamento de Comunicação da Prefeitura. Exatamente um mês depois, descobri, através do mesmo assessor e amigo pessoal do Sr. Prefeito que me confirmou as irregularidades na Secretaria, que este último não iria me contratar por “falta de interesse”. Decidi que ninguém me faria de tolo e escrevi um e-mail relatando o meu caso com a necessária indignação, enviando-o a políticos do PT como José Genoíno, José Dirceu, Eduardo Suplicy e Renato Simões, e também a políticos da oposição, como Carlos Sampaio do PSDB e Peterson Prado do PPB. O efeito foi imediato: na mesma semana, o Sr. Prefeito me chamou, disse que tomaria providências administrativas e passou o problema ao Sr. Ari Pedrazzoli, chefe de expediente do gabinete, que resolveu a questão com uma rapidez exemplar. Naquela mesma tarde, por coincidência, encontrei-me com a então vice-prefeita Izalene Tiene que, como boa católica, ouviu meu caso e me perguntou se gostaria de ser transferido para trabalhar em uma outra secretaria. Respondi que queria apenas receber pelo o que trabalhei e não ser nomeado em qualquer outro lugar já que estava completamente desiludido com a administração municipal.

Minha nomeação por tempo determinado – 23 de março a 12 de junho de 2001 – saiu no Diário Oficial do Município no dia 26 de julho p.p.. Se o repórter free-lance deste distinto jornal tivesse conferido nesta publicação veria que lá está o meu nome e escrito da seguinte forma: “(...)exercer em comissão o cargo de Assessor Técnico Departamental Nível III, junto a Secretaria Municipal de Cultura, Esportes e Turismo”. Não se lê “exonerado a bem do serviço público” – a não ser no relatório elaborado pela distinta Comissão de Investigação da Prefeitura em que o bom repórter free-lance preferiu à verdadeira apuração jornalística que este órgão tanto preza.

O terceiro dado é referente à minha mãe, a professora e doutora Maria da Piedade. Parece que corre um desejo de errar por preguiça ou por malícia ao afirmar que ela teria utilizado falsa diplomação da USP para se credenciar ao Conselho de Segurança. O repórter free-lancer desconhece o fato de que qualquer representante do segmento da sociedade civil organizada pode entrar no conselho, o que era o caso da minha mãe já que representava ninguém menos que o próprio Sr. Prefeito. O vínculo da professora e doutora com a USP foi usado pelo Sr. Prefeito para apressar a “credibilidade do conselho” enquanto esse detalhe era de interesse dele, mesmo sabendo de seu afastamento da Universidade devido a problemas de saúde.

O que fica claro, ao relatar a verdade destes fatos (todos comprovados com documentos que serão exibidos à Justiça no seu devido tempo), é a retaliação que o Governo Popular e Democrático está realizando contra mim e minha mãe por termos descoberto irregularidades publicadas em artigos escritos por ela no jornal Correio Popular. A grande prova disso está na foto publicada na mesma matéria, creditada ao fotógrafo Marcos Peron, em que a professora e doutora aparenta estar em desespero. Na verdade, era o contrário já que ela estava rindo do modo bizarro que os jornalistas a incitavam para ter alguma declaração ou imagem desconfortável. Mesmo com os delicados pedidos de “sem fotos, por favor”, fizeram questão de publicar a foto em questão, o que mostra um claro exemplo de uso indevido da imagem. Há também um detalhe agravante: a Folha de São Paulo foi o único órgão da Imprensa que deu destaque excessivo ao fato já que nem mesmo a TV local (EPTV Campinas, filial da Rede Globo) exibiu imagens da professora (ou sequer citou seu nome) e o jornal Correio Popular publicou uma notícia discreta. Além disso, ela havia divulgado uma curta nota à Imprensa, transcrita somente em parte. É a partir de incidentes como este que nos faz refletir sobre o que seria o senso apurado de notícia de alguns jornalistas ou – para ir mais longe – até onde vai o interesse de realizar um bom trabalho e não ser apenas bem pago.

Assim, encaminho a vossa senhoria a realidade dos fatos ocorridos que se contrapõe às narradas no noticiário estampadas neste periódico.

Confiando no elevado espírito de justiça de vossa senhoria para que a verdade seja restabelecida plenamente, solicito que a publicação da resposta tenha as dimensões previstas na Lei número 5.230/67.

Campinas, 9 de outubro de 2001

Martim Vasques da Cunha de Eça e Almeida

Jornalista

 

Carta a Marcos Sá Corrêa

 

A Morte e morte de Antonio Carlos da Costa Santos

Martim Vasques da Cunha

 

Ilmo.Sr. Editor do jornal eletrônico no., Marcos Sá Corrêa:

Antes de tudo, peço calma. O meu texto não será uma paródia do conto de Jorge Amado, um escritor que nunca gostei mas entrou na história por ter criado esse título que exemplifica bem o tema de seu último artigo, "O Mártir da Banalidade". Nele, o senhor discorria sobre o assassínio de Antonio Carlos da Costa Santos, também conhecido como Toninho do PT, que morreu realmente de uma maneira estúpida e triste: um tiro que estourou na artéria aorta enquanto ia para a sua casa e tentou resistir a um assalto - bem, é triste dizer isso - "comum".

Porquê estou escrevendo esta resposta que nem sei se será considerada como uma "resposta"? Muito simples: faço isso porque me sinto no dever de retificar alguns pontos de seu artigo. Não entenda isso como amostra de arrogância ou petulânica de um jovem jornalista. Entenda como a ajuda de alguém que sabe de alguns detalhes desta história que ainda não foi muito bem divulgada.

Supondo que o senhor recebeu e leu algumas das minhas "notas de insônia" que mando por e-mail e que discorrem sobre o atual estado de coisas, já deve saber que sou o anti-petista por excelência, o que é uma definição errada. Sou o anti-hipócrita por excelência. Meu probleminha com o Partido dos Trabalhadores se deve ao fato de que seus integrantes e políticos se utilizam das boas intenções e dos bons sentimentos para camuflar um projeto de tomada de poder. Já vejo o senhor abrir os olhos e falar consigo mesmo: "Ah, não! Mais um querendo ser Olavo de Carvalho!". Diga o que quiser, mas Olavo de Carvalho é o único que tem a coragem de apontar o dedo na ferida e, no caso do Toninho do PT, fazer isso é um procedimento terapêutico que deve dar algum resultado.

A ferida em questão é que Toninho do PT era um prefeito que não dava a mínima para a segurança - qualquer tipo de segurança. Não é à toa que acabou assassinado como um bom cidadão. Sim, Campinas é uma cidade violenta, assim como São Paulo e Rio de Janeiro, mas atualmente essa questão da violência, depois do Terror do dia 11 de setembro, é, como diriam os uspianos, "relativa". Na verdade, o mundo é violento, o ser humano é perverso e não há outro modo de viver com isso exceto aceitar essa condição. Portanto, dizer que Toninho é vítima da banalidade do crime na selva urbana é uma forma disfarçada de também querer transformá-lo em mártir. O banal nessa história é uma dessas ironias do destino que está além da nossa compreensão.

Toninho não se preocupava com segurança porque esse foi um tópico que nunca fez parte dos interesses do PT. Ele havia criado o Conselho Integrado de Segurança para implementar as políticas públicas da área para o município. Convidara pessoas representativas da sociedade civil para perfumar o Conselho com a fragância da transparência. No entanto, simplesmente, em todas as reuniões (nas quais chegava à pé, sem nenhum acompanhamento policial) jogava a culpa no Estado. "Ah! Isso é atribuição do Estado!", ele dizia, "Ah! Não posso fazer isso porque o Estado não me deu dinheiro" e por aí vai... Era uma outra versão de "Mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar!" nunca lançada nas paradas de sucesso. Também havia o impedimento de que a administração não dava subsídios para as propostas do Conselho - que eram as mais simples: operações de retiradas dos menores, blitzes em bares, revistas de PM na estrada, legalização de terrenos, reformulação do espaço urbano. Advinha o que a Prefeitura dizia? "Ah! Isso são medidas impopulares, neo liberais! O PT não pode participar disso!" Assim, menores de rua continuavam a ser explorados, os bares da periferia continuavam abertos até as quatro da manhã e o Centro... bem, o Centro ficou igual a Cingapura, entulhado de camêlos ilegais que vendiam de churrasco de gato atá detetizador de barata.

O desprezo em relação a qualquer espécie de proteção - seja policial ou privada - era uma ferrementa populista que Toninho usava para mostrar que era alguém no estilo "gente que faz". Ele andava sozinho no carro, com a janela aberta, ficava na Prefeitura até tarde da noite, era extremamente metódico no seu dia-a-dia - dizia que isso fazia parte de seu "rito de passagem" (passagem para onde ninguém sabe...). Ignorava as mais elementares questões de segurança pessoal. No gabinete, deixava coronéis da PM esperando três horas para uma simples entrevista (delegados da Polícia Civil ficavam sentados nos sofás de couro preto por quase cinco horas, muitos sem almoçar).

Não estamos falando do mártir da banalidade. Estamos falando de um sujeito que parecia suplicar para que sua morte fosse banal. O que nos leva ao ponto que discordo totalmente do seu artigo: a martirização de Toninho não está sendo feita pela oposição. Está sendo feita - ou melhor, fabricada - pelo próprio PT. A pressão que o PT faz em cima da Polícia Civil para que se tenha indícios de um crime político - inclusive com a história de um dossiê incriminador que envolveria uma pessoa da minha família, amiga íntima do Prefeito e, por isso mesmo, a única que se opôs às irreguaridades de sua administração - é digna de um Komitern. A sorte é que, apesar de todas as falhas, a Polícia Civil quer fazer o seu trabalho corretamente e que ainda vivemos algumas fagulhas de democracia. Sua citação do deputado estadual Renato Simões (curiosamente o que mais ganha com a morte de Toninho já que a atual prefeita, Izalene Tiene, é sua fiel discípula na Frente Socialista) foi feita com os melhores dos propósitos jornalísticos, mas caiu na armadilha da velha máxima de Jonh Ford em "The Man Who Shot Liberty Vance": Entre a lenda e o fato, publique-se a lenda.

O problema é que Toninho nunca será uma lenda. No máximo, será placa de rua ou nome de prédio tombado pelo Patrimônio Histórico. Acredito até que ele deveria ter suas boas razões para fazer Campinas uma cidade mais humana e habitável, mas, como algumas coisas são muito terríveis para serem verdade, ficará aquela sensação de ter morrido na praia. Se alguém quiser fabricar uma lenda em torno dele, que seja a de Absalão, filho de Davi que, após ter conspirado contra o pai, morreu numa batalha porque ficou preso entre os galhos de uma árvore. Antes de guerrear, erigiu um monumento com seu próprio nome porque "não tive nenhum filho para preservar minha memória". Toninho pelo menos deixou uma filha, Marina - essa sim, a verdadeira personagem trágica desta saga de erros. Mas sua memória que poderia ter algum futuro já faz parte do passado. O que nos resta é ir para frente, enterrar de vez Toninho e deixar a vida tomar seu rumo, dando aos mortos seu descanso merecido, mesmo quando envoltos no manto da banalidade.

Cordialmente,

Martim Vasques da Cunha

Jornalista

P.S. Sei que este texto vai parar entre vários outros na seção "Cartas ao Editor". Por isso, peço que leia com atenção e que reconsidere alguns pontos de seu artigo. Tenho admiração pela sua carreira e pelo seu trabalho no no., mesmo com algumas divergências em relação ao foco de muitas matérias e artigos - claramente "Terceira Via", ao meu ver. No entanto, a beleza da democracia é isso: a possibilidade de confrontar várias opiniões para depois mudá-las e ter um novo ponto de vista. E, no caso, tenho certeza que se o senhor averiguar outras opiniões sobre o assunto, verá que o caso Toninho do PT é apenas o início de uma história que mostra um lado muito obscuro do Partido dos Trabalhadores.