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Recado atrasado a Rodrigo Constantino

Olavo de Carvalho
3 de março de 2007

 

I. Rodericus Constantinus Grammaticus
II. Rodericus Constantinus Grammaticus 2
III. Disfarçando o mico
IV. Rodericus Constantinus Grammaticus 3
V. Rodericus Constantinus Grammaticus 4
VI. Recado atrasado a Rodrigo Constantino

Muito bem, Constantino. Acabou o debate (digamos que tenha sido um). Você já disse o que queria e ouviu o que não queria. Eu também.

Você conserva as suas opiniões sobre mim, eu as minhas sobre você.

Objetivamente falando, isso não tem a menor importância. O que as pessoas pensam umas das outras morre junto com elas. O que sobra é o que elas são, e isto em geral ninguém sabe exatamente – nem elas mesmas.

Mas confesso que me arrependo de uma coisa. De não haver feito as seguintes perguntas em primeiro lugar.

1. Você algum dia já imaginou a possibilidade de estar inteiramente errado? Já concedeu a essa hipótese a atenção tranqüila e sem prevenções que concedeu à hipótese oposta? Já buscou argumentos em favor da possibilidade que mais o desagrada no momento, já buscou imaginar as coisas como as imaginam os que acreditam nela? Já tentou se transportar em pensamento para dentro da alma dessas pessoas, sentir como elas, ver o mundo como elas vêem, como se você fosse representar o papel de uma delas no teatro e tivesse de fazê-lo com o máximo realismo interior ao seu alcance e, pior ainda, despertar a simpatia da platéia pelo personagem?

2. Antes de criticar o cristianismo, você tentou ler literatura cristã pelo tempo e com a atenção que você concedeu a Ayn Rand, Voltaire e Karl Popper, digamos? Leu The Cloud of Unknowing, os Relatos de um Peregrino Russo, os livros de Thomas Merton, Louis Lavelle, Bernard Lonergan, Wolfgang Smith, ou, para ficar mais perto, A Descoberta do Outro, do nosso Gustavo Corção? Leu-os sem prevenção, com isenção, concedendo-lhes a mesma credibilidade inicial que concedeu a outros livros, da sua preferência?

3. Por que não experimenta? Digo isso porque experimentei. Aos quinze anos, eu era tão admirador de Voltaire quanto você é hoje. E era tão entusiasta do evolucionismo que tinha quadros de dinossauros nas paredes do meu quarto, junto com um retrato de Darwin. Felizmente dei uma longa volta pelo marxismo depois disso e, quando percebi que o marxismo estava errado (o que afinal de contas não é tão difícil), me ocorreu a singular idéia de que eu podia estar errado também em tudo o mais. Decidi então inverter o rumo das minhas leituras. Isso me pôs de início numa grande confusão. Eu tinha então vinte e poucos anos. Passaram-se outros vinte antes que eu chegasse a algumas conclusões que me parecessem dignas de ser expostas em letra de forma.

Enquanto não concedemos às idéias que nos repugnam a mesma chance que concedemos àquelas que nos agradam, estamos em plena fé cega, ainda que essa fé seja em algo a que chamamos “razão”.

Atenciosamente,

Olavo de Carvalho

3 de março de 2007