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Rodericus Constantinus Grammaticus - 3. Invervalo: a arte dialética de Rodrigo ConstantinoOlavo de Carvalho
Como Rodrigo Constantino, após clamar por um debate, rejeitou a oferta de uma discussão neste site e pulou fora até mesmo da troca de mensagens no Orkut, preferindo ir falar mal de mim num site lá do Rio Grande do Sul, permito-me abrir parênteses na minha análise do seu artigo “O túmulo do fanatismo” e fazer algumas observações de ordem geral sobre o seu estilo de pensar, prometendo retornar ao comentário linear o mais breve possível. Peço aos leitores que verifiquem por si mesmos: o modus disputandi de Rodrigo Constantino consiste em repetir com obssessividade monomaníaca duas e não mais de duas afirmativas, variando-lhes ligeiramente a forma e tomando-as como premissas autoprobantes desnecessitadas de qualquer justificação. Essas premissas são as seguintes:
Em decorrência da premissa número 1, você não tem o direito de tentar apresentar provas contra o que quer que venha da boca de Rodrigo Constantino. Quanto mais insista em fazê-lo, mais estará provando apenas sua fé irracional e fanática. Não tem também o direito de definir seus próprios termos, que serão interpretados sempre no sentido constantínico originário por mais que você advirta que esse sentido é impróprio. Embutida nessa premissa está a crença -- já de há muito desmoralizada no campo dos estudos lógicos, mas que para Constantino constitui o suprassumo da racionalidade científica -- de que só existem dois tipos de juízos, as afirmações empíricas da ciência natural e as expressões do sentimento e da fé, inteiramente alheias à discussão racional. Todas as asserções de Rodrigo Constantino ou subscritas por ele pertencem ao primeiro tipo e são científicas de pleno direito, inclusive, por exemplo, a afirmação de que os judeus são um povo de ladrões que roubou os infelizes egípcios (e não um povo de escravos que recuperou uma parte do que lhe havia sido roubado). Inversa e complementarmente, todas as afirmações do adversário emanam do puro irracionalismo fanático, incluindo juízos históricos empiricamente comprováveis como por exemplo o de que os liberais girondinos, e não só os radicais jacobinos, pregavam a matança sistemática dos opositores ou o de que a Revolução Francesa matou mais gente em um ano do que a Inquisição espanhola havia matado em quatro séculos. Sendo apenas expressões da fé irracional, esses juízos podem ser descartados mediante a simples denúncia escandalizada de que o adversário – ó horror! – está defendendo a Inquisição, quando toda a humanidade ilustrada sabe que só atacá-la é científico. Essa premissa implica ainda uma definição muito peculiar do que seja “religião”. Uma vez definida a religião como crença, a crença como fé irracional e a fé irracional como fanatismo, segue-se inexoravelmente a conclusão de que todos os crentes de todas as religiões são fanáticos. Embora essa crença tácita perpasse todos os argumentos de Constantino, ele insiste em que não está condenando todos os crentes como fanáticos irracionais, só alguns deles. Outros, no seu entender, são pessoas normais e até um pouco racionais. Quais são eles? São aqueles que admitem que sua fé é uma crença privada sem nenhum direito de argumentar racionalmente em público ou, muito menos, de pretender que o objeto de sua crença exista na realidade objetiva. A fé legítima, no entender de Constantino, é aquela que declara: “Creio em Deus embora saiba que Ele não existe.” Se você consente em admitir que sua religião é um vício privado, um delírio pessoal, você tem todo o direito de praticá-la em casa como se pratica a masturbação ou o sexo anal – jamais o Estado democrático interferirá na sua vida privada. Logo, nem todos os religiosos são fanáticos: só aqueles que acreditam na sua religião e saem argumentando em favor dela. Como, ao mesmo tempo, Constantino desafia esses religiosos a discutir racionalmente com ele, o fato mesmo de que tentem fazê-lo em vez de admitir logo de vez que suas crenças são irracionais e indefensáveis constitui a prova de que são fanáticos que fogem à argumentação racional. Igualmente circular é a definição constantínica de ciência, mas deixarei para explicar isso mais adiante. Da premissa número 2 decorre ainda que, qualquer que seja o ponto em discussão, a ignorância que Constantino tenha do assunto é e será sempre um fator exterior que não interfere em nada no debate, de modo que toda tentativa de evidenciá-la nunca passará de mero ataque pessoal e xingamento. A não ser, é claro, quando a imputação de ignorância, de início rejeitada como ofensa intolerável, possa ser em seguida reaproveitada em favor do próprio Constantino, como por exemplo quando, ao subscrever uma frase ostensivamente anti-semita de Voltaire, ele alegou depois não saber que Voltaire era anti-semita, como se essa frase já não o demonstrasse da maneira mais óbvia. Toda e qualquer afirmativa de Rodrigo Constantino, inclusive essa, é portanto em si e por si um "argumento científico" e, uma vez enunciada, qualquer tentativa de impugná-la só pode ser distorção de suas palavras, ataque pessoal ou puro xingamento, tudo baseado, é claro, em fé irracional e fanatismo. Sendo a encarnação viva da racionalidade e da ciência, Constantino não pode ser medido pelo padrão usual de aferição do valor dos escritores. Quando ele proclama, por exemplo, que “refutou o marxismo” ou que “refutou a mais valia”, em vez de admitir que apenas copiou refutações clássicas e arquiconhecidas feitas por Ludwig von Mises e Eugen von Böhm-Bawerk, chamá-lo de “farsante” e “moleque presunçoso” não é a descrição objetiva de uma palhaçada autoglorificante: é um atentado contra a razão e a ciência. A premissa número 2 implica também que, se Constantino formula seu ponto como pergunta, você deve respondê-la imediatamente e nos termos dele, sendo pura embromação ou ataque difamatório toda veleidade de demonstrar que sua formulação emana de premissas erradas, do desconhecimento do assunto ou de uma tentativa de vestir no adversário, como uma camisa-de-força, uma semântica que não é a dele e nem mesmo a correntemente admitida no universo acadêmico. Daí decorre ainda que, se você responde ao ponto que Constantino acaba de formular naquele momento, você está se prevalecendo de detalhes soltos em vez de fazer uma refutação em ordem e linha por linha. Inversamente, se você é gentil o bastante para começar a fazer um exame linha por linha, você é culpado de não ter respondido as linhas subseqüentes enquanto está ainda respondendo às antecedentes. Se Constantino dispara velozmente perguntas em desordem, até mesmo espalhando-as em diferentes páginas da internet de modo a que sempre alguma delas acabe escapando à atenção do adversário, isso não é de maneira alguma o estratagema número 7 de Schopenhauer, uma tentativa de confundir o opositor, mas é uma prova de que este último se esquiva de responder aos argumentos fulminantes de Rodrigo Constantino. Se, por fim, repetidamente denunciado quanto a esse procedimento, Constantino consente finalmente em concentrar a multiplicidade de perguntas numa só questão central e fundamental e você então se oferece para debater ordenadamente esse ponto, então Constantino chega à conclusão de que está na hora de abandonar a discussão e ir cantar vitória em outro site. O raciocínio de Rodrigo Constantino, em suma, é infernalmente circular, fechado e imune a qualquer possibilidade de discussão racional, sendo por isso mesmo tanto mais levianamente proclamado a epítome da racionalidade científica, já que não tem nenhuma satisfação a prestar ao esclarecimento crítico dos conceitos e termos que emprega nem muito menos ao exame dos critérios estereotipados de veracidade em que confia cegamente. Justamente por ser um obscurantismo total, a cosmovisão constantínica pode imbuir-se daquela integral confiança em si mesma que lhe permite continuar esperneando e cantando vitória mesmo quando, no curso do debate, todos os espectadores em volta já perceberam o ridículo pueril das suas pretensões e sua recusa obstinada ao confronto sistemático de argumentos. Não tenho a menor dúvida de que a forma mentis desse menino, descontada qualquer patologia pessoal, é o produto acabado dessa fábrica de monstrinhos que é a seita de Ayn Rand, uma das mais mesquinhas, fanáticas, estúpidas e cegas que o mundo já conheceu, e que infelizmente continua sendo bem tolerada nos meios liberais pelo simples fato de que aprova a economia de mercado, como se idéias sensatas não pudessem ser defendidas também por motivos absurdos e extravagantes. Como lembrava Spinoza, um louco que em pleno dia sai gritando “É dia!” não se torna só por isso um homem sensato.
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