Sapientiam Autem Non Vincit Malitia - Foto da águia: Donald Mathis Mande um e-mail para o Olavo Links Textos Informações Página principal

 

Rodericus Constantinus Grammaticus 2

Olavo de Carvalho
13 de fevereiro de 2007

 

TEXTO

4. “Trata-se de uma crítica dura, bastante pesada, que com certeza machuca qualquer crente. Aqui faço um breve resumo do que ele diz, e peço que aqueles não [estão] dispostos a questionar a própria fé sequer leiam o restante do artigo. Afinal, como dizia Carl Sagan, ‘não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências, baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar’.” 

COMENTÁRIO

4.1. Os crentes são aqui descritos como pessoas frágeis, impressionáveis, prontas a ser abaladas e até a sofrer danos psicológicos não só das revelações de Voltaire mas da simples leitura do artigo de Rodrigo Constantino. Menosprezando a capacidade alheia e presumindo das próprias forças, Constantino não apenas canta vitória antecipadamente, mas já faz exibição de piedade pela sorte dos infelizes derrotados. Veremos se o restante do artigo justifica essa exibição inicial de superioridade. Por enquando reservo-me apenas o direito de lembrar a tirada célebre da rainha Vitória: “We are not impressed.”
Qualquer que seja o caso, a jactância constantínica não deixa de ter um precedente no próprio Voltaire, que escreveu: “Jesus precisou de doze apóstolos para construir o cristianismo; provarei que é preciso um só para destruí-lo.”

Na realidade, o livro de Voltaire não provocou nenhuma onda de apostasias, não impressionou a ninguém exceto pela quantidade anormal de generalizações simplistas e falsa informação histórica e acabou sendo esquecido, como aliás todos os seus textos de polêmica anti-religiosa, enquanto o cristianismo não parava e não parou de se expandir pelo mundo (NOTA).

O retrato depreciativo é complementado pela afirmação de Carl Sagan que divide os seres humanos em duas classes: os fracos, que “necessitam acreditar” e os fortes e durões, como ele próprio, que encaram a realidade. A finalidade do parágrafo é puramente intimidatória: quer fazer com que você já entre na leitura prevenido de que, se não concordar com Constantino, será um fracote desprezível, um bobalhão sugestionável.
A citação de Sagan só impressiona pela pobreza do seu diagnóstico psicológico. Imagine um sujeito fraco, solitário, deprimido e com complexo de rejeição. Um dia a garota mais bonita do bairro chega para ele e lhe diz “Eu te amo”. Por mais que ele queira acreditar, por mais que ele necessite acreditar, sua reação imediata não será de crença, mas de dúvida. Quanto mais intensa a “necessidade de acreditar”, menor a dose de confiança e autoconfiança requeridas para crer imediatamente numa boa notícia. Mesmo que a boa notícia seja apenas uma oferta de namoro. Quanto mais se for a boa notícia da vida eterna. Essa notícia é tão auspiciosa e ao mesmo tempo tão inverossímil que o próprio ensinamento cristão diz que acreditar nela à primeira vista é um dom de Deus, não uma reação natural. A pura necessidade de acreditar, ao contrário, mais facilmente se converte em temor da decepção e  na negação a priori que protege contra esse temor.  Fracotes são Constantino, Sagan e Voltaire, defendendo-se por trás de uma falsa lógica e de uma falsa psicologia contra o desafio da fé. Talvez, aliás, o mais fracote dos três fosse Voltaire, que, enquanto alardeava o poder mágico de destruir o cristianismo, mandou construir uma capela no seu castelo em Ferney e rezar missas nela, freqüentando-as principalmente quando sentia que sua vida estava em perigo (v. Louis Dupré, The Enlightenment and The Intellectual Foudations of Modern Culture, New Haven, Yale University Press, 2004, p. 254).

4.2. A fé religiosa não é nenhum tranqüilizante para fracotes amedrontados. É um desafio temível, que implica, no mínimo, a disciplina do autoconhecimento através do exame de consciência. O advento do cristianismo trouxe um aprofundamento da autoconsciência humana ao ponto de gerar a idéia mesma do eu como unidade autônoma responsável, desprovida das garantias da mera conformidade grupal que bastava aos gregos e romanos como supremo teste da moralidade. A idéia do indivíduo solitário, responsável por suas próprias escolhas morais sem nenhum apoio externo, aparece prefigurada na vida de Sócrates e no teatro grego, mas não se impregna de maneira alguma na ética predominante, focada no “cidadão” enquanto membro do grupo e não na individualidade enquanto tal. Inumeráveis estudos, que tomam como material de referência as narrativas autobiográficas, assinalam essa diferença. As Confissões de Sto. Agostinho inauguram o gênero autobiográfico moderno porque nelas pela primeira vez um indivíduo faz o seu próprio julgamento moral não perante a comunidade de seus pares, mas perante sua própria consciência, balizada pelo confronto com o observador onisciente, Deus. Sem esse passo, a própria idéia da “independência de julgamento” teria permanecido em potência, sem efetivação histórica, e é claro que sem ela a pretensão mesma do “livre exame racional” seria inviável. (v. Karl Joachim Weintraub, The Value of the Individual. Self and Circumstance in Autrobiography, Chicago, The University of Chicago Press, 1978, reed. 1982.)

4.3. Não vejo o que possa haver de tranqüilizante e anestésico num jogo onde a maior possibilidade é a de que o jogador termine no inferno, já que “muitos são os chamados e poucos os escolhidos”. A profunda incerteza quanto ao destino eterno de cada qual está no cerne mesmo da vida cristã, e essa experiência é incompatível com a “necessidade de acreditar” da qual fala Carl Sagan. Os relatos de crentes famosos a esse respeito são tantos, mas os Sagans da vida não se dão o trabalho de lê-los: preferem adivinhar tudo de fora. Se lessem os depoimentos de Santa Teresa, Thomas Merton, Léon Bloy, Georges Bernanos, C. S. Lewis, Julien Green, Simone Weil – escolhidos a esmo entre milhares --, entenderiam claramente o óbvio: a fé como tranqüilizante para pessoas inseguras é apenas um slogan difamatório que não tem nada a ver com a realidade da vida cristã.

NOTA ao parágrafo 4.1. - O número de cristãos evangélicos no mundo cresce à base de 8 por cento ao ano, enquanto o de muçulmanos cresce 2 por cento e o de ateístas menos de  1 por cento (v. David B. Barrett & Todd Johnson, World Christian Trends, Ad 30-Ad 2200: Interpreting the Annual Christian Megacensus. William Carey Library, Send the Light Inc., 2003). Estes dados jamais foram divulgados na grande mídia.