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Rodericus Constantinus Grammaticus 2Olavo de Carvalho
TEXTO 4. “Trata-se de uma crítica dura, bastante pesada, que com certeza machuca qualquer crente. Aqui faço um breve resumo do que ele diz, e peço que aqueles não [estão] dispostos a questionar a própria fé sequer leiam o restante do artigo. Afinal, como dizia Carl Sagan, ‘não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências, baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar’.” COMENTÁRIO 4.1. Os crentes são aqui descritos como pessoas frágeis, impressionáveis, prontas a ser abaladas e até a sofrer danos psicológicos não só das revelações de Voltaire mas da simples leitura do artigo de Rodrigo Constantino. Menosprezando a capacidade alheia e presumindo das próprias forças, Constantino não apenas canta vitória antecipadamente, mas já faz exibição de piedade pela sorte dos infelizes derrotados. Veremos se o restante do artigo justifica essa exibição inicial de superioridade. Por enquando reservo-me apenas o direito de lembrar a tirada célebre da rainha Vitória: “We are not impressed.” Na realidade, o livro de Voltaire não provocou nenhuma onda de apostasias, não impressionou a ninguém exceto pela quantidade anormal de generalizações simplistas e falsa informação histórica e acabou sendo esquecido, como aliás todos os seus textos de polêmica anti-religiosa, enquanto o cristianismo não parava e não parou de se expandir pelo mundo (NOTA). O retrato depreciativo é complementado pela afirmação de Carl Sagan que divide os seres humanos em duas classes: os fracos, que “necessitam acreditar” e os fortes e durões, como ele próprio, que encaram a realidade. A finalidade do parágrafo é puramente intimidatória: quer fazer com que você já entre na leitura prevenido de que, se não concordar com Constantino, será um fracote desprezível, um bobalhão sugestionável. 4.2. A fé religiosa não é nenhum tranqüilizante para fracotes amedrontados. É um desafio temível, que implica, no mínimo, a disciplina do autoconhecimento através do exame de consciência. O advento do cristianismo trouxe um aprofundamento da autoconsciência humana ao ponto de gerar a idéia mesma do eu como unidade autônoma responsável, desprovida das garantias da mera conformidade grupal que bastava aos gregos e romanos como supremo teste da moralidade. A idéia do indivíduo solitário, responsável por suas próprias escolhas morais sem nenhum apoio externo, aparece prefigurada na vida de Sócrates e no teatro grego, mas não se impregna de maneira alguma na ética predominante, focada no “cidadão” enquanto membro do grupo e não na individualidade enquanto tal. Inumeráveis estudos, que tomam como material de referência as narrativas autobiográficas, assinalam essa diferença. As Confissões de Sto. Agostinho inauguram o gênero autobiográfico moderno porque nelas pela primeira vez um indivíduo faz o seu próprio julgamento moral não perante a comunidade de seus pares, mas perante sua própria consciência, balizada pelo confronto com o observador onisciente, Deus. Sem esse passo, a própria idéia da “independência de julgamento” teria permanecido em potência, sem efetivação histórica, e é claro que sem ela a pretensão mesma do “livre exame racional” seria inviável. (v. Karl Joachim Weintraub, The Value of the Individual. Self and Circumstance in Autrobiography, Chicago, The University of Chicago Press, 1978, reed. 1982.) 4.3. Não vejo o que possa haver de tranqüilizante e anestésico num jogo onde a maior possibilidade é a de que o jogador termine no inferno, já que “muitos são os chamados e poucos os escolhidos”. A profunda incerteza quanto ao destino eterno de cada qual está no cerne mesmo da vida cristã, e essa experiência é incompatível com a “necessidade de acreditar” da qual fala Carl Sagan. Os relatos de crentes famosos a esse respeito são tantos, mas os Sagans da vida não se dão o trabalho de lê-los: preferem adivinhar tudo de fora. Se lessem os depoimentos de Santa Teresa, Thomas Merton, Léon Bloy, Georges Bernanos, C. S. Lewis, Julien Green, Simone Weil – escolhidos a esmo entre milhares --, entenderiam claramente o óbvio: a fé como tranqüilizante para pessoas inseguras é apenas um slogan difamatório que não tem nada a ver com a realidade da vida cristã. NOTA ao parágrafo 4.1. - O número de cristãos evangélicos no mundo cresce à base de 8 por cento ao ano, enquanto o de muçulmanos cresce 2 por cento e o de ateístas menos de 1 por cento (v. David B. Barrett & Todd Johnson, World Christian Trends, Ad 30-Ad 2200: Interpreting the Annual Christian Megacensus. William Carey Library, Send the Light Inc., 2003). Estes dados jamais foram divulgados na grande mídia.
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