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Mais um golpe de teatro do charlatão Orlando Fedeli
Professando demonstrar que sou um autor que “não merece muita atenção”, o sr. Orlando Fedeli, não obstante, acaba de conceder à minha obra e à minha pessoa a imerecida atenção de um estudo de 160 páginas, o mais extenso que já se fez sobre elas até hoje. Na verdade, não se trata propriamente de um estudo. O sr. Fedeli não “estudou” a minha obra. Estudar uma filosofia é discernir nela os princípios fundamentais e suas aplicações contingentes, os conceitos formais e as figuras de linguagem que os expressam, o objetivo do conjunto e os caminhos, indefinidamente variados e casuais, que a ele conduzem. O sr. Fedeli não fez nada disso com os meus escritos. Apenas ciscou neles – com a acuidade filológica de uma galinha – indícios de gnosticismo que pudessem me incriminar no processo de heresia que ele me move no tribunal eclesiástico da sua imaginação. Não deixa de ser significativo que a acusação e a sentença final do processo fossem anunciadas bem antes de que o autoconstituído inquisidor começasse sequer a juntar os autos. O resultado -- que o autor dirige a seu “muito prezado Felipe”, como fez com alguns de seus escritos anteriores -- divide-se em dez capítulos. Ao fim do primeiro, o sr. Fedeli conclui que sua tese já está demonstrada e sua polêmica contra mim devidamente encerrada. Então seguem-se nove capítulos suplementares, que, destinando-se apenas ao socorro dos leitores menos esclarecidos, nada acrescentam, segundo o sr. Fedeli, à essência da demonstração principal, dada como líquida, certa, provada e definitiva já no começo da obra. Considerando-me ainda mais indigno de atenção do que me julga o sr. Fedeli, abdico, pois, da vaidade de examinar as extensões pedagógicas, e atenho-me ao exame do que ele mesmo declara ser o essencial.
Deduzir, da afirmação da existência de um conhecimento superior à fé, a crença numa “salvação pelo conhecimento”, é um autêntico non sequitur. “Salvação pelo conhecimento” é, aliás, uma expressão autocontraditória, que bem caracteriza a natureza paradoxal da heresia gnóstica. Se conhecer a Deus trouxesse a salvação, o demônio estaria salvo. Pretender que eu tenha apregoado a “salvação pelo conhecimento” é falsear propositadamente os meus textos. A superioridade essencial do conhecimento em relação à fé é coisa auto-evidente, afirmada na definição mesma da fé, e só uma completa falta de discernimento filosófico aliada a uma boa dose de malícia pode deduzir daí que eu esteja afirmando a possibilidade de chegar a esse conhecimento por outra via que não pela fé ou, pior ainda, sem fé. Aqui, como em muitos outros casos, o sr. Fedeli muda o sentido das minhas palavras, dando ares de coisa escandalosa a uma afirmação óbvia e até banal. A “superioridade” a que me refiro é de ordem intrínseca e ontológica e não funcional e metódica: o que digo é simplesmente que saber é mais do que crer, e não que, enquanto método da vida espiritual, o saber tenha mais eficácia salvífica do que a fé. No mínimo, sem fé não se chega sequer à possibilidade do conhecimento espiritual, e por isto este último é “superior” à fé no sentido em que a meta transcende o caminho, assim como a fé é “superior” enquanto caminho sem o qual não se pode chegar à meta, isto é, como exigência metódica que a simples busca do conhecimento pela razão natural – ou por qualquer meio “esotérico” que se possa conceber -- não pode substituir. Também é certo que o conhecimento espiritual é um dom gratuito de Deus ao homem que têm fé, mas por isto mesmo seria loucura proclamar que esse dom vale menos do que a fé que o possibilitou. No limite extremo, essa proclamação equivaleria a dar um sentido blasfematoriamente literal à expressão de Cristo “Tua fé te salvou”, proclamando que quem cura é a fé e não Cristo – e não é preciso dizer que é a isso que leva, em última instância, a afetação fedélica de escândalo ante o que digo sobre a fé. (É verdade que, num dos capítulos suplementares, o sr. fedeli, amputando do seu contexto imediato uma frase que encontrou numa transcrição de fita, aliás não revista pelo autor, fez de um rompante meu contra a idolatria kantiana da fé uma declaração de guerra contra a fé no sentido mais geral e católico do termo. Mas isso nada revela sobre meu pensamento, e sim sobre a canalhice da sua interpretação fedélica, toda fundada no artifício de jogar a letra contra o espírito.)
O sr. fedeli confunde propositadamente o termo gnose, tal como usado genericamente por mim -- e aliás também por Clemente de Alexandria -- com uma de suas acepções em particular, que é a da heresia gnóstica definida pelos Padres. Ademais, de onde esse sujeito extraiu a idéia de que Frithjof Schuon é “um de meus mestres”? Recebi algum ensinamento desse místico suíço durante os anos de 1986-87, mas não sou seu seguidor ou discípulo em sentido nenhum dos termos.
Delirante é o sujeito que não percebe diferença entre a fé religiosa e a visão mística. É absurdo pretender que Sta. Teresa, quando teve Jesus diante de si, não o conhecesse senão “pela fé”. A fé pode tê-la conduzido até lá, mas reduzir sua visão de Cristo a um conteúdo de fé, negando-lhe o estatuto de conhecimento, seria blasfêmia pura e simples. Aqui, novamente, o sr. Orlando fedeli falseia maliciosamente o sentido dos conceitos. Tanta é sua vontade de difamar, que não hesita em se apegar, para isso, mesmo ao absurdo mais patente.
Quanto mais o sr. Fedeli consultar o seu pai, mais razão este me dará. Como se acaba de ver pelos parágrafos acima, o sr. Fedeli abusa da confiança de seus discípulos para induzi-los em erro e torná-los cúmplices ao menos passivos da difamação de um inocente. Mentira, impostura e charlatanismo são termos igualmente apropriados à descrição desse empreendimento.
Sua acusação -- repito -- é apenas um hábil jogo de palavras, destinado a dar a um uso muito genérico do termo gnose o sentido específico e limitado que possui na definição da heresia gnóstica.
Nunca declarei isso, exceto a propósito de um texto em particular, o artigo sobre a Gnose de Princeton publicado em Planeta. Dos demais, afirmei apenas que meus escritos que circulavam em edição restrita ou privada -- sem falar de antigos trabalhos jornalísticos menores e de ocasião -- não expressavam a forma mais estabilizada que tenho dado a meus pensamentos em obras posteriores, de mais ampla circulação; que esses escritos, portanto, deveriam ser postos entre parênteses até que eu tivesse a oportunidade de reexaminá-los e corrigi-los para uma edição maior. Assim, tomá-los como expressão cabal do meu pensamento maduro é usurpar o meu papel de autor e falar indevidamente em meu nome. Até mesmo na pura esfera editorial o critério da “última vontade expressa do autor” impera como regra elementar da confiabilidade científica dos textos. Quanto mais, então, não deve predominar na interpretação que se faça deles, principalmente quando dessa interpretação se pretende tirar conseqüências desfavoráveis ao autor! A violação sistemática e despudorada dessa regra já mostra a intenção perversa e a completa desonestidade intelectual do sr. Fedeli. Como explicar de outra forma a omissão sistemática de toda crítica de fontes, cuja criteriosa observação seria, num historiador de profissão, o primeiro e o mais elementar dos deveres? De fato, todos os documentos, todos os indícios, independentemente de qualquer distinção crítica entre livros publicados, transcrições não revistas e até escritos postos em quarentena pelo autor, são assumidos pelo sr. Fedeli como igualmente probantes, desde que concorram para a confirmação da sua tese, ou igualmente desprezíveis, caso a impugnem. Se esse procedimento não é tolerável nem numa simples pesquisa histórica, sem efeitos práticos na ordem moral, quanto mais abusivo ele não há de ser num “processo” montado para danar a reputação de um homem!
A existência desse núcleo não é uma doutrina: é um simples fato empírico, facílimo de comprovar (cf. Whitall N. Perry, A Treasury of Traditional Wisdom, Pates Manor, Bedfont, Perennial Books, várias edições). Chamá-lo gnose, tradição, sabedoria perene, filosofia perene ou qualquer outra coisa é absolutamente indiferente. Todo homem que, além de conhecer esse fato, admita a veracidade intrínseca e essencial do referido núcleo de princípios é um “gnóstico”, no sentido lato em que porventura caiba chamar-me assim, e por isto mesmo não pode ser um gnóstico no sentido específico em que o sr. Fedeli me acusa de sê-lo, de vez que a heresia gnóstica, por seu dualismo e sua revolta prometéica contra a ordem divina, nega frontalmente esses mesmos princípios. A rigor, os dois sentidos do termo não guardam entre si uma relação de gênero e espécie, pois gnose significa “conhecimento” e a heresia gnóstica não é propriamente conhecimento e sim falso conhecimento; e é para designar esta diferença que alguns autores empregam a distinção de gnose e gnosticismo, se bem que outros a assinalem de outras maneiras.
Novamente, o sr. fedeli manipula as palavras, querendo dar à constatação – aliás auto-evidente – da existência de um conhecimento superior à fé o sentido de uma afirmação da “salvação pelo conhecimento”. O conhecimento pode ser superior à fé pela certeza direta do seu conteúdo, mas isto obviamente não implica – nem eu jamais disse – que ele possa, por si, trazer a “salvação”.
Mais uma manipulação semântica do sr. fedeli. Que Puech use os termos como equivalentes não implica, obviamente, que eu faça o mesmo. Nada autoriza o leitor a interpretar os termos de um autor numa acepção diferente, encontrada em outro autor, principalmente se este não é jamais citado pelo primeiro.
É verdade, mas a generalidade do uso lingüístico de um termo nada prova quanto aos objetos designados por ele.
Os termos “acusado” e “confissão”, obsessivamente repetidos pelo sr. fedeli, denotam apenas o sentido de teatrinho inquisitorial que ele quer dar a esta polêmica, atribuindo a mim o papel de réu e a ele próprio o de inquisidor e defensor fidei. Mediante esse curioso giro estilístico, ele transporta o leitor, por instantes, à atmosfera de um tribunal do Santo Ofício, onde testemunham o drama judicial do qual o réu sairá condenado não somente à danação eterna mas também à penalidade temporal da fogueira. Mas essa atmosfera é, evidentemente, fictícia. Nem o sr. Fedeli tem o poder de condenar ou salvar quem quer que seja, nem eu estou em julgamento. A sentença a ser lavrada no final da encenação não será assinada senão pelo círculo de discípulos do sr. Fedeli, e nenhuma penalidade temporal ou celeste me será imposta exceto na imaginação dessas pessoas, o que não é decerto uma perspectiva especialmente atemorizante. Não existindo nem neste mundo nem perante o Altíssimo, o tribunal ante o qual o sr. Fedeli me acusa só pode adquirir alguma realidade mediante um certo esforço de imaginação dos seus leitores, e é com a finalidade de secundá-los nesse esforço que ele emprega reiteradamente aquelas figuras de linguagem, emprestadas do jargão tribunalício. É evidente que um autor que pretenda investigar a verdade não começa jamais por transportar seus leitores a uma situação de discurso tão distante da situação real, nem muito menos por dar a esse simulacro, mediante truques de estilo, uma espécie de “segunda realidade”, como diria Robert Musil. Também é certo que essa camuflagem geral da situação de discurso não poderia ter a mínima eficácia se, nos detalhes da discussão empreendida, não se sustentasse numa infinidade de falseamentos menores, indefinidamente variados na técnica e no tom, mas, no conteúdo, repetitivos como cacoetes, cujo efeito acumulado produz, no fim, uma falsa impressão de verossimilhança. Desses cacoetes, destaco apenas um. Esse traço surpreendente do estilo fedélico de escrever é sua tendência compulsiva de trocar os sujeitos das minhas frases. Digo, por exemplo, que com tal ou qual argumento ele “cortou seu próprio pescoço” – e ele entende que eu estou ameaçando cortar o seu pescoço. Digo que seus alunos estão assustados e perplexos – e ele entende que o estou acusando, a ele, de assustar os meus alunos. Com a mesma freqüência com que troca o sujeito gramatical das frases, ele troca também o sujeito lógico das relações, como se viu nos exemplos acima. Esses procedimentos lingüísticos anormais denotam aquilo que em psiquiatria se denomina “delírio de interpretação”, um sintoma que, se não comprova doença mental, constitui forte indício daquela deformidade de consciência que se conhece como sociopatia, e que é a marca inconfundível dos líderes pseudo-religiosos milenaristas, dos falsos profetas e dos revolucionários gnósticos. Nenhum homem inspirado pelo amor Dei jamais sairia apregoando acusações de heresia com a pressa indecente e o apetite de escândalo do sr. Fedeli. A própria Inquisição jamais montava um processo público, mesmo contra algum herético notório, sem antes enviar um representante qualificado para conversar longamente com o suspeito, em privado, seja para certificar-se de suas intenções, seja para demovê-lo de suas convicções, se consideradas errôneas. O sr. Fedeli, em vez disso, mantém-se a uma protegida distância, usando seus discípulos jovens e imaturos como espiões para ciscar pedaços de conversas, enquanto ele, na obscuridade da sua toca de serpente, prepara o bote. Não, nada disso pode ser inspirado pelo amor a Deus. É preciso ser totalmente desprovido de discernimento espiritual para não perceber que, desde os tempos em que conspirava para arrebatar a liderança da TFP ao falecido Plínio Correia de Oliveira, o sr. Fedeli é movido por uma única paixão: a superbia, a libido dominandi de um chefe de seita.
De fato não preciso responder-lhe mais nada, Orlando Fedeli, exceto que você é um farsante, um santarrão, um aproveitador da boa fé de seus discípulos e, em toda a linha, uma mentalidade perversa de sectário. Seu intuito declarado de destruir uma reputação e os meios desonestos que põe em ação para esse fim não apenas são indignos de um homem da Igreja mas estão abaixo até do que a moral laica permite a um intelectual mundano.
Olavo de Carvalho
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