|
Não sei se a lei portuguesa, como a brasileira, assegura o direito de resposta, automaticamente, ao cidadão insultado por um órgão de imprensa. Em todo caso, os leitores do Diário de Notícias merecem informação exata, mesmo sobre o que se passa num longínquo país de ultramar, e não é isso o que estão a obter do sr. Sérgio Barreto Motta, correspondente do jornal no Rio de Janeiro. Na edição do dia 2 de setembro de 2002 esse senhor classificou-me como “um dos representantes da extrema-direita brasileira”. Não contente com isso, ainda acrescentou à mentira o insulto, afirmando que “Olavo de Carvalho mantém posições radicais de direita e, por isso, não é visto como um analista isento”. Alertado por um leitor lisboeta, que conhece minhas idéias e por isto se sentiu escandalizado diante de afirmativas tão estúpidas e difamatórias, concedo ao sr. Barreto Motta o prazo de um mês, a contar da data de hoje, para que investigue e localize nos meus escritos, se puder, uma única palavra em favor de qualquer partido, organização ou doutrina política de extrema-direita. Para isso coloco à sua disposição os meus doze livros publicados e mais todos os escritos de minha autoria transcritos no meu website (1). Por enquanto não chamarei ao sr. Barreto mentiroso, embusteiro ou salafrário. Esperarei para fazê-lo quando e se, examinado esse material com o devido rigor, ele não vier a admitir que errou. Enquanto isso, esclareço aos leitores do DN os seguintes pontos: Militante do Partido Comunista na juventude, abandonei essa organização aos 23 anos e passei duas décadas examinando com a máxima isenção possível, sem nenhum intuito de alardear conclusões, os prós e contras dessa ideologia e das práticas políticas a ela associadas. Esses estudos tomaram impulso ainda maior depois de 1990, quando a abertura parcial dos Arquivos de Moscou trouxe ao conhecimento do mundo, junto com um retrato mais completo dos horrores do regime, as provas cabais da ação subterrânea do comunismo soviético na Europa Ocidental e nas Américas. Em 1996, vendo que a ascensão de comunistas e pró-comunistas ao domínio quase completo sobre o establishment universitário e os órgãos da mídia havia provocado um rebaixamento sem precedentes do nível de qualidade da produção intelectual brasileira, publiquei um livro, O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras, que, satirizando o estado de coisas, embora o fizesse desde um ponto de vista mais cultural que político, despertou naturalmente contra mim o ódio da elite esquerdista, a qual não soube o que responder às críticas que eu lhe fazia, pela simples razão de que eram verdadeiras. Mais furiosos ainda ficaram os luminares do esquerdismo nacional quando, em suas tentativas de me difamar na imprensa, receberam, do ilustre desconhecido que os desafiava, respostas que os demoralizaram por completo e os expuseram ao escárnio de milhões de leitores. A partir de então ganhei a reputação de polemista temível e, até o momento, invicto. Note-se que isso aconteceu após um período de quinze anos durante o qual essas pessoas gozaram da admiração beata da imprensa, sem que mesmo uma leve crítica contra elas encontrasse lugar nas páginas de jornais e revistas. Escrevi também outras obras, de cunho mais puramente filosófico e acadêmico, que, fartamente elogiadas em altos círculos intelectuais do Brasil e do Exterior, tiveram sua divulgação completamente boicotada pela mídia brasileira, fiel às suas velhas lealdades e idolatrias. Em resultado do sucesso do meu primeiro livro, que teve seis edições esgotadas em dois meses, fui convidado, para grande escândalo de muitos, a escrever artigos com periodicidade regular em O Globo (Rio de Janeiro), Jornal da Tarde (São Paulo) e Zero Hora (Porto Alegre). Nesses artigos fui descarregando as informações que colhera ao longo de vinte anos de pesquisas e as idéias que formara no exame desse material. Se esses escritos faziam críticas implacáveis ao totalitarismo comunista e às suas ramificações atuais, nunca expressaram uma tomada de posição em favor de qualquer corrente política determinada, primeiro porque realmente não me identifico muito com nenhuma (nem vejo por que devesse fazê-lo), segundo porque estou convicto de que o comunismo deve ser rejeitado por razões morais, religiosas e filosóficas gerais, que não subentendem nenhuma preferência ideológica em particular. É claro que, pessoalmente, prefiro a velha democracia liberal, mas nem isso levo em conta nas minhas análises. Não vejo o menor sentido em criticar uma ideologia em nome de outra, e o argumento de que não existe conhecimento supra-ideológico é ele mesmo pura propaganda ideológica. Para que se compreenda o impacto devastador que meus artigos vêm tendo nos meios de esquerda, ao ponto de nunca serem respondidos senão com insultos e intrigas de uma baixeza sem par que revelam a total impotência argumentativa de meus detratores, é necessário estar informado de algumas peculiaridades da vida brasileira. Na década de 60, a esquerda brasileira dividiu-se em duas alas. Uma aventurou-se nas guerrilhas. Outra recolheu-se a uma ação discreta, profunda e de longo prazo, baseada na estratégia da “revolução cultural” de Antonio Gramsci. A primeira foi facilmente derrotada pelos militares. A segunda teve campo livre para se expandir à vontade, porque o governo, já temeroso de desagradar à opinião pública com a truculência das ações que vinha empreendendo contra os guerrilheiros e terroristas, preferiu fazer vistas grossas ao crescimento da chamada “esquerda pacífica”. Coerente com a estratégia gramsciana, esse crescimento deu-se sobretudo para dentro da mídia e das entidades estatais de educação e cultura, onde se desenvolveu uma intensa e obsessiva atividade arregimentadora, da qual aliás fui colaborador e cúmplice durante algum tempo. No fim da ditadura, o domínio que a esquerda exercia nesses meios já era completo e inquestionável. Em meados da década de 70, o Partido Comunista e organizações afins já controlavam a totalidade das vagas no jornalismo de São Paulo e do Rio. Uma publicação oficial comemorativa de 60 anos de existência do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, Jornalistas: 1937-1997 (2), mostra a progressiva e enfim total identificação entre jornalismo e militância pró-comunista no maior Estado brasileiro. Já a partir dos anos 80 toda possibilidade de disputa ideológica havia desaparecido nos meios jornalísticos, onde a hegemonia esquerdista se tornara tão avassaladora que não restavam jornalistas suficientes para compor, nas eleições sindicais, uma única chapa que não fosse de esquerda. O mesmo sucedia em todas as universidades. A única discussão política que restava era entre as várias facções de esquerda, que divergiam apenas em torno de detalhes estratégicos e ambições pessoais -- uma situação que, progressivamente ampliada desde os círculos formadores de opinião até abranger a nação inteira, acabou por se repetir idêntica nestas eleições presidenciais de 2002, em que todos os candidatos são de esquerda. Em resultado, há duas décadas todas as notícias que possam prejudicar gravemente a imagem do socialismo estão excluídas da imprensa brasileira. Para fazer uma idéia da extensão do bloqueio, até hoje não foram divulgadas na mídia nacional as atas do Foro de São Paulo, congresso convocado por Fidel Castro e pelo atual candidato presidencial brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que em 1990 lançou as bases da rearticulação comunista e produziu o recrudescimento das ações terroristas no continente. Dez reuniões do Foro já se realizaram, a última delas em Havana, em 2001, todas elas articulando a ação dos partidos esquerdistas legais com a narcoguerrilha, e praticamente nada disso se publica no Brasil. Qualquer menção às ligações entre banditismo e política de esquerda tornou-se tabu, mesmo quando essa ligação é confessada pelos próprios agentes criminosos presos, como aconteceu com o traficante Fernando Beira-Mar e com os seqüestradores de Abílio Diniz e de Washington Olivetto. Também nada se publica sobre o genocídio comunista no Tibete (embora haja milhões de budistas no Brasil), sobre as perseguições a cristãos no mundo comunista e islâmico (150 mil mortos por ano, segundo o cálculo de Michael Horowitz) e, sobretudo, nada quanto às revelações dos Arquivos de Moscou. O “cordon sanitaire” estendeu-se também aos livros. Obras fundamentais como as de Jean-François Revel, Jean Sévillia, Christopher Andrew, Bernard Goldberg, Arthur Herman, que hoje dão a milhões de leitores uma medida mais exata do que foi e do que é a ação comunista no mundo, estão completamente fora do alcance do público brasileiro, e quem quer que as mencione, falando sozinho no deserto, dá a impressão de ser um louco ou um extremista a inventar histórias. É verdade que, nos meios jornalísticos e editoriais, há muitas pessoas que já deixaram de ser militantes comunistas -- mas, envolvidas pelas relações de amizade e de lealdade grupal, obedecem por automatismo à voz da elite organizada, e por nada deste mundo arriscariam sua reputação num confronto. O meu próprio caso mostra que basta muito pouco para receber um rótulo de “extremista de direita” -- coisa que a maioria teme como à peste. Mas a fidelidade residual de ex-militantes não é tudo. Em 5 de maio de 1993, em declarações ao Jornal do Brasil, a CUT, Central Única dos Trabalhadores, federação dos sindicatos comunistas e pró-comunistas, deu com a língua nos dentes e admitiu ter a seu soldo nada menos de oitocentos jornalistas, mais que o total das redações somadas dos dois maiores jornais brasileiros, O Globo e Folha de S. Paulo. Isso configurava talvez a maior compra de consciências já registrada na história do jornalismo mundial e, junto com a ação arregimentadora já mencionada, bastava para explicar a amplitude do bloqueio. Porém, o que acontece é mais que um bloqueio. É a utilização ativa da imprensa para a destruição de todas as oposições que possam oferecer resistência à ascensão da esquerda. Os senhores sabem, por exemplo, que o ex-presidente Collor de Mello, destituído do cargo sob acusação de corrupção, foi, ainda que tardiamente, absolvido na Justiça de todas as acusações? Sabiam que contra ele já nada mais resta de substantivo, exceto o ódio que lhe votavam os interesses corporativistas (intimamente associados aos partidos de esquerda) que ele feriu com suas medidas administrativas? Não, certamente não o sabem. Também não o sabe o povo brasileiro, pois a notícia, que não se podia omitir por completo, foi publicada com a discrição necessária para não desmoralizar retroativamente a própria mídia, responsável principal pela destruição política do ex-presidente (do qual, aliás, não fui um dos eleitores nem o seria jamais, pois não gosto nada do tipo). Assim como Collor, muitos outros foram destruídos. Sua posterior absolvição ou é omitida ou é escondida num canto de página, para evitar que os politicamente indesejáveis voltem à cena. Sob as aparências de “combate à corrupção”, o que se criou foi uma ditadura da mídia esquerdista, apta a destruir num relance qualquer reputação. Líderes das famosas CPIs, Comissões Parlamentares de Inquérito, chegaram a admitir que nada investigavam por si mesmos, que se limitavam a ratificar, por medo e servilismo, o que se publicava na imprensa. Mais ainda, graças à inter-solidariedade dos grupos de esquerda formal e informal, o Ministério Público -- nova promotoria federal, infestada de simpatizantes da esquerda e hoje dotada de poderes comparáveis aos do próprio Presidente da República -- age em estreita colaboração com a mídia. Quando se trata de remover da política algum tipo inconveniente, o promotor chama um repórter seu amigo, pede-lhe que faça alguma denúncia conjetural contra o sujeito, e em seguida o recorte da notícia é usado como “elemento de prova” para justificar a abertura de inquérito contra o infeliz. O inquérito é alardeado na mídia como prova do crime e, se no fim o acusado vem a ser absolvido (pois muitos juízes ainda estão fora do esquema esquerdista), isto não tem importância, pois o público não fica sabendo de nada e o resultado político desejado já foi obtido. Mas a obra de destruição não se volta apenas contra políticos individuais. Os mesmos jornais que noticiam a presença de agentes da CUT, dos Sem-Terra e da espionagem esquerdista em geral dentro da polícia federal e dos serviços secretos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica tratam esse fato como se fosse coisa inocente e sem importância. Mas, em contrapartida, denunciam como escândalo e conspiração direitista qualquer simples vigilância discreta que as Forças Armadas ou policiais federais exerçam sobre políticos de esquerda suspeitos de ligação com o narcotráfico. Nessa curiosa e geral inversão, o crime torna-se legal, e a manutenção da legalidade, crime. Recentemente, um grupo de promotores, de conluio com jornalistas, logrou arrebatar das Forças Armadas uma pilha de documentos sobre a ligação entre partidos de esquerda, narcotráfico e seqüestros. Recorrendo à Justiça, os militares obtiveram a devolução dos documentos, mas não antes que cópias circulassem nas redações de jornais e fossem parar nas mãos dos próprios suspeitos. Estes últimos, por seu lado, estão muito bem organizados em matéria de infiltração e espionagem. Notícias sobre a existência de uma rede de espionagem a serviço do PT (Partido dos Trabalhadores) apareceram em 1993, graças a uma denúncia do governador do Estado de Santa Catarina, Esperidião Amin, mas logo foram abafadas e o assunto jamais voltou aos jornais. O que dava ainda maior credibilidade a essas denúncias era que o próprio presidente do partido, deputado José Dirceu de Oliveira e Silva, tinha trabalhado durante muitos anos como agente do serviço secreto cubano, um fato reconhecido publicamente por seus companheiros de militância esquerdista. (2) Como o deputado negasse a existência daquilo que humoristicamente o governador Amin chamara de PTpol, travamos uma polêmica de imprensa da qual S. Excia. saiu com o rabo entre as pernas, calada e decidida a abafar o assunto. Ao longo dos anos, multiplicaram-se os episódios que configuram nitidamente uma tentativa de usurpar das Forças Armadas as funções dos serviços de inteligência, transferindo-as à militância organizada nas redações de jornais e no Ministério Público. Os efeitos políticos desse estado de coisas são portentosos. Um deles é que já não há no Brasil um só político de destaque ou partido importante que se aventure a assumir em público a defesa da economia de mercado e da democracia liberal. Todos os que o faziam estão hoje acovardados, acossados, recolhidos à política regional, com medo de tudo. Muitos já mostram uma nítida disposição de tentar sobreviver politicamente rebaixando-se a criados e servos da esquerda em ascensão. Um segundo efeito é o deslocamento global do eixo dos debates para a esquerda. Desaparecida a direita, passa-se a chamar pelo seu nome a ala mais moderada da esquerda, isto é, os social-democratas, e tudo o que esteja um pouquinho à direita destes é instantaneamente rotulado de “extrema-direita”. Esse termo, na Europa, reserva-se aos Le Pens e aos neonazistas. Usado no Brasil para designar pessoas e idéias totalmente diferentes deles, vem no entanto com a mesma carga de conotações odiosas associadas ao termo no contexto europeu e produz no leitor a mesma reação imediata de repulsa que o tornará surdo, daí por diante, a tudo o que venha da boca do acusado. É evidente que, em tal ambiente de confusionismo proposital, eu mesmo acabo entrando nessa classificação. O que não se espera é que um observador europeu, como o sr. Barreto Motta, se preste tão docilmente a servir de peão nesse jogo pérfido de transposições semânticas difamatórias. Na verdade, as únicas três organizações de extrema-direita em ação no Brasil -- o Movimento de Solidariedade Latino-Americana do dr. Enéas Carneiro (filial do movimento internacional do sr. Lyndon LaRouche), a TFP, Tradição, Família e Propriedade, e a Associação Monfort de São Paulo -- me odeiam tanto quanto os esquerdistas e competem com eles na produção de escritos difamatórios contra mim. Para cúmulo de ironia, sou na imprensa brasileira o único -- sem exagero: o único -- articulista que se opõe à nova moda de anti-semitismo que, impulsionada pela aliança entre a esquerda internacional e os radicais islâmicos, vem se espalhando no mundo e no Brasil. Em artigos recentes, contei ao público o que sabia das origens do sr. Yasser Arafat, discípulo devoto do líder pró-nazista Hajj Amin Al-Husseini, que antes da fundação do Estado de Israel foi pedir a Hitler que estendesse a “Solução Final” aos judeus da Palestina. Isso, obviamente, era completamente desconhecido do público brasileiro. Também o era o fato de que, no atentado de Munique em 1980, os terroristas palestinos agiram de parceria com os neonazistas do bando de Karl Hoffman. Porém, mais que isso, mostrei também ao público brasileiro a perfeita sintonia entre o novo discurso anti-israelense da esquerda e a pregação dos movimentos neonazistas. Que fazer com um importuno que sabe dessas coisas e, em enorme prejuízo da santa aliança selada no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, as divulga para o público brasileiro? Contra um sujeito desses, só resta uma providência radical: carimbá-lo com o epíteto infamante de “extremista de direita”, para que perca a respeitabilidade e as pessoas parem de lhe dar ouvidos. Trabalhado por décadas de “revolução cultural” gramsciana, o ambiente mental brasileiro já está maduro para aceitar, como verdade banal e inquestionável, que “liberalismo é fascismo” -- uma sentença cuja absurdidade dispensa comentários, mas que hoje é repetida diariamente na mídia e em cátedras acadêmicas como o nec plus ultra do pensamento humano. Nesse ambiente, a simples defesa da economia de mercado, da democracia liberal ou do direito de Israel à existência já basta para colocar um jornalista na “extrema-direita”, atraindo contra ele a suspeita de todas as pessoas de bem. Uma vez estabelecido que a única forma de democracia admissível é a competição entre partidos de esquerda, que é precisamente o que temos no Brasil de hoje, evidentemente quem quer que se volte contra isso deve ser um extremista de direita, um fascista, um nazista, um malvado e um bebedor de sangue humano. Ninguém compreenderá nada da situação política nacional se não levar em conta que o Brasil foi o único país do mundo onde a aplicação pertinaz e contínua da estratégia gramsciana da “revolução cultural”, da “ocupação de espaços” e da “longa marcha para dentro do aparelho de Estado”, ao longo de quarenta anos, obteve pleno sucesso, transformando a mídia inteira em agente da revolução socialista. O fato de que setores da esquerda se ataquem uns aos outros por meio dos jornais -- e na própria campanha eleitoral -- é usado como prova cabal de pluralismo e normalidade democrática, mas a realidade é que nenhuma oposição frontal se consente, que a defesa aberta da economia de mercado e da democracia liberal está virtualmente proibida exceto nas páginas especializadas de economia e que, no máximo, há espaço para um confronto entre socialistas radicais e socialistas moderados, com exclusão de tudo o mais. É nesse ambiente compressivo e enlouquecedor que mesmo os liberais e conservadores mais apegados às instituições democráticas são facilmente difamados como “extremistas de direita”, sem que o público -- principalmente o estrangeiro -- se dê conta imediatamente da sutil e perversa mutação de sentido que o termo sofreu, mudando de objeto material sem perder sua conotação negativa. Tão completa e meticulosamente foi excluída do cenário toda oposição frontal ao esquerdismo, que, não tendo mais uma direita politicamente organizada à qual perseguir, e só encontrando contra si a voz de um homem isolado e sem partido, pobre, sem recursos e sem apoio partidário de espécie alguma, decidiu fazer dele o espantalho direitista, o porta-voz e o “representante” de correntes e poderes com os quais ele não tem nada a ver e que, na sua modesta opinião, são tão desprezíveis quanto a própria esquerda. A opinião pública de um país precisa ter chegado ao último estágio da estupidificação coletiva se adaptar passivamente a uma situação dessas. Mas grande parte da nossa chegou. É claro que homens cultos e esclarecidos não caem em qualquer engodo. Eles sabem pelo menos a diferença entre extremismo de direita e conservadorismo democrático, entre Goebbels e Tocqueville, entre Mussolini e Churchill, entre Le Pen e Ronald Reagan. Mas mencionar essa diferença, no Brasil, tornou-se proibido: é prova de “fascismo”. Tal é o estado de estupidez a que chegamos. E nada mais eficaz do que a estupidez. Tanto a coisa funciona, que o sr. Barreto Motta, admitindo que ao menos em parte meus diagnósticos da situação brasileira possam ser exatos, dá como pressuposto, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, que minha opinião, se digna de “análise atenta”, não pode ser merecedora de “respeito”. Minhas palavras, diz ele, “passaram a ser ouvidas se não com respeito, pelo menos a merecerem uma análise atenta”. Ora, que diabo é isso? Haverá algo mais digno de respeito que a verdade? Ou a rotulação prévia de quem a proferiu vale mais? E por acaso “análises atentas”, se revelarem que eu disse a verdade, hão de torná-la indigna de respeito? Ademais, de onde tirou esse senhor a idéia de que não sou ouvido com respeito? Os maiores escritores brasileiros, um Josué Montello, um Herberto Sales, um Jorge Amado, um Antônio Olinto, um Bruno Tolentino, um Carlos Heitor Cony já declararam que me ouvem não apenas com respeito, mas com admiração. Pensadores da envergadura de um Miguel Reale, de um Paulo Mercadante, de um Vamireh Chacon já disseram exatamente o mesmo, assim como homens de governo, entre os quais dois ex-presidentes da República -- Itamar Franco e José Sarney -- e vários ex-ministros, como Jerônimo Moscardo, Delfim Netto e Karlos Rieschbieter. Na própria esquerda nacional, os melhores homens, como o historiador Carlos Guilherme Motta, o histórico líder comunista Jacob Gorender e o próprio candidato presidencial Ciro Gomes, já expressaram mais respeito por mim do que a mais insana vaidade poderia exigir. No Exterior, recebi as maiores manifestações de apreço de intelectuais da França, da Romênia e dos EUA. E será que o sr. Barreto Motta me imagina tão desconhecido em Portugal ao ponto de poder falar de mim como se sua opinião, ocupando um vazio, devesse imperar sozinha no espaço em torno? Pois saiba que ao menos dois intelectuais portugueses de primeira grandeza, J. Pinharanda Gomes e Mendo Castro Henriques, conhecem muito bem a minha obra e a têm no mais alto conceito. O prof. Pinharanda, no prefácio à edição portuguesa de A Coerência das Incertezas, de Paulo Mercadante, refere-se a mim nos termos mais lisonjeiros, e o prof. Henriques, comentando meu Aristóteles em Nova Perspectiva, diz nada menos que o seguinte: “Desde Giambattista Vico que não surgia uma interpretação tão luminosa para acabar com a mistificação das ‘duas culturas’.” Depois disso, de quem me faltaria a audição respeitosa? De algum Barreto Motta? Pois não preciso dela de maneira alguma. Passo, pois, por cima dela, e me dirijo sem intermediários ao povo português, povo de meus antepassados, ao qual amo acima de qualquer outro no mundo, e lhe peço que não consinta em ser induzido, por palavras maliciosas, a pensar mal de mim. Não sou extremista de coisa nenhuma, não “represento” coisa nenhuma além de minha própria opinião pessoal, não sou ligado de perto ou de longe a movimento algum e, acima de tudo, prezo minha independência de pensamento. Adotei por divisa os versos de Antonio Machado,
e não tenho satisfações a prestar a nenhuma corrente ou organização política deste mundo ou, se as há, do outro. Petrópolis, RJ, 20 de setembro de 2002 Olavo de Carvalho
Notas (1) O endereço é http://www.olavodecarvalho.org. Também há escritos meus no jornal eletrônico que publico no endereço http://www.midiasemmascara.org. (2) José Hamilton Ribeiro, Jornalistas: 1937 a 1997. Sessenta Anos da Fundação do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado, 1998. (Em entrevista à TV Cultura, o autor, com aparente orgulho, confessou que, quando correspondente de guerra no Vietnã, quase tudo o que retransmitia aos jornais era pura propaganda vietcongue, e admitiu que o mesmo faziam, consciente e deliberadamente, muitos outros correspondentes estrangeiros.) (3) V. Luís Mir, A Revolução Impossível. A Esquerda Armada no Brasil, São Paulo, Best-Seller, 1988.
|