Sapientiam Autem Non Vincit Malitia - Foto da águia: Donald Mathis Mande um e-mail para o Olavo Links Textos Informações Página principal

 

Falsos amigos


Olavo de Carvalho
Bravo!, abril de 2004

 

A primeira vez que vi no cinema uma assembléia de judeus condenar Cristo à morte não foi em A Paixão de Cristo . Foi em Barrabás , dirigido em 1962 por Richard Fleischer. Embora os defensores de Barrabás fossem ali apresentados como uma corja de bandidos, o filme não suscitou nenhum escândalo.

A imagem dos judeus em A Paixão não é pior do que em Barrabás . Caifás, por exemplo, aparece como juiz duro mas consciencioso, ralhando com os apressados que lhe trazem acusações sem provas e só se enfurecendo ante o que julga sinceramente ser uma blasfêmia.

A diferença é que o filme de Fleischer era um espetáculo neutro -- “nem cristão nem anticristão”, escreveu o crítico Bernard Gratadour --, ao passo que o de Mel Gibson exige uma tomada de posição radical: ou você é pró-cristão ou é anticristão. Se é cristão ou pró-cristão, sua reação será provavelmente a do diácono Keith Fournier:

A Paixão evocou em mim mais profunda reflexão, compunção e reação emocional do que qualquer coisa desde meu casamento, minha ordenação ou o nascimento de meus filhos. Francamente: nunca mais serei o mesmo.”

Se você é anticristão, o núcleo espiritual do filme lhe escapará por completo e, transpondo algum elemento marginal para o centro do quadro, você entenderá a narrativa por um viés subjetivista deformante. Em qualquer obra de arte, o sentido das partes só se elucida na estrutura do todo. Desligados do sentido geral, os fragmentos isolados são matrizes de falsas interpretações, não só do conjunto como também deles próprios. É aí que o filme se torna o que o espectador quiser: apologia do anti-semitismo, culto da violência ou até, na cabeça do dr. Jacob Pinheiro Goldberg, cine-pornô.

É por isso que a polêmica em torno do espetáculo não opõe pró-judeus a antijudeus, como ocorreria num caso de anti-semitismo inequívoco, e sim, de um lado, materialistas, secularistas, marxistas, etc. (tanto judeus quanto não-judeus), e, de outro, cristãos e judeus pró-cristãos. Umas poucas exceções em ambos os lados confirmam a linha divisória geral, análoga àquela que, no Evangelho, divide inimigos e amigos de Jesus. A perspectiva do primeiro partido é torta por definição, já que seus membros, odiando a espiritualidade cristã, não querem enxergá-la no filme. Desprezando a emoção religiosa que ele infunde na platéia cristã, chegam a proclamar, com o dr. Goldberg, que “é um filme anticristão”, como se a eles e não aos fiéis da Igreja coubesse decidir o que é e o que não é da sua fé.

O rabino Shmuley Boteach, autor de best sellers , confessa que sua opinião hostil nasceu de uma fantasia subjetiva:

“O filme terminou e a platéia caminhou lentamente para fora do cinema, num silêncio de pedra. Todo mundo parecia um tanto meditativo e contemplativo, isto é, todo mundo menos eu. Eu estava muito ocupado me escondendo dentro do meu paletó, paranoicamente fixado na minha semelhança com os rabinos deicidas retratados no filme. ‘Rapaz', pensei eu comigo mesmo, ‘seguramente essas pessoas vão pensar que fui eu quem fez isso.'”

Com esse viés, ele não podia mesmo perceber que, à luz do cristianismo, seus temores eram vãos, já que o próprio Cristo na cruz intercedera pelo perdão de seus algozes e, afinal, “tudo o que pedirdes em Meu nome vos será dado”. Quem quer que tenha perseguido os descendentes dos tais “rabinos deicidas” fez isso contra a ordem de Cristo e cometeu um pecado tão grande quanto o deles. O Holocausto foi uma segunda Paixão -- e tão judeus quanto aqueles rabinos eram o próprio Cristo, Sua família e Seus discípulos, bem como os homens que O defenderam no tribunal, as mulheres que gritaram de horror ante a crueldade romana e o rapaz valente que O ajudou a carregar a cruz. Este último, aliás, é o único personagem que, no filme, é chamado depreciativamente de “judeu”, o que já basta para mostrar acima de qualquer possibilidade de dúvida o que Mel Gibson pensa do anti-semitismo.

Não querendo entender isso, o rabino viu na platéia cristã uma assembléia de nazistas em potencial, prontos para crucificar Shmuley Boteach na primeira esquina.

Não consta, no entanto, que até agora um único espectador de A Paixão de Cristo tenha sido induzido pelo filme a manifestar sentimentos anti-semitas. Fanáticos insuflados pela campanha anti-Gibson é que já começaram a expressar abertamente seu ódio a qualquer cristianismo que lhes pareça politicamente incorreto. Jean Cazeviel e outros atores do filme, não podendo sair à rua sem ser xingados por grupos de manifestantes enragés , tiveram de contratar guarda-costas.

Isso era mais que previsível.

O alegado potencial anti-semita do filme, se existe, é sutil e evanescente até à completa invisibilidade, pois não foi percebido nem pelos atores judeus que participaram da produção (Olek Mincer e Maia Morgenstern), nem por centenas de intelectuais judeus que, como David Horowitz, Don Feder, Burt Prelutsky ou James Hirsen, defendem o trabalho de Gibson.

Mas, na imprensa bem-pensante, a expressão coletiva de ódio aos cristãos conservadores -- e mesmo ao cristianismo tout court -- não é sutil nem disfarçada. A resenhista do New York Times , Jami Bernard, por exemplo, reconhecendo que A Paixão é traslado correto da narrativa evangélica, proclama que “é o filme mais anti-semita desde os tempos da propaganda nazista”. O sentido do raciocínio é claro: anti-semita é o Evangelho. Tão anti-semita quanto qualquer produção do Ministério da Propaganda do III Reich.

É verdade que, muitas vezes, o episódio do julgamento foi interpretado em sentido anti-semita. Mas todas as igrejas cristãs impugnaram essa interpretação. Por que, então, a polêmica contra um filme que não faz senão reproduzir a cena tal como descrita no Evangelho? Bernard et caterva não ocultam seu objetivo: querem que a Igreja risque a cena mesma, impugne a narrativa evangélica, abjure de capítulos inteiros do texto sacro, contrita e genuflexa ante a pressão da mídia e do mundo.

Aí torna-se claro por que tantos detratores não precisaram nem ver o filme para condená-lo. O assalto geral ao cristianismo já vinha num crescendo aterrador desde muitas décadas, e recentemente passou a uma etapa superior: quer adquirir o estatuto de norma oficial, criminalizando o cristianismo. No ano passado, trechos dos Evangelhos foram condenados por um tribunal canadense como “literatura de ódio”, enquanto no ensino público dos EUA toda mensagem cristã está formalmente proibida.

Se o anti-semitismo intelectual espalhado na cultura do Ocidente ao longo dos séculos carrega a culpa de ter preparado a barbárie nazista, o anticristianismo também não ficou no céu das idéias puras mas se exteriorizou em perseguições genocidas que não fizeram, pelo mais modesto dos cálculos, menos de dez milhões de vítimas. A matança organizada de judeus cessou depois da II Guerra, mas a de cristãos continua, e em doses crescentes. Segundo o historiador (judeu) Michael Horowitz, na década de 90 ela chegou a 150 mil mortos por ano.

A guerra de extermínio contra o cristianismo, que vem desde o século XVIII, mudou de estilo e redobrou de intensidade a partir dos anos 60, quando a indústria cinematográfica passou a produzir filmes anticristãos em massa, ao mesmo tempo que, nas universidades, o anticristianismo militante se tornava prática acadêmica regulamentar por meio de teses e livros soi disant científicos, publicados em quantidade tal que nenhum grupo cristão teria, na mídia que os aplaude, o espaço necessário para contestá-los.

Se hoje em dia nenhum anti-semitismo pode escapar de responder pelo crime de incitação ao genocídio, por que o anticristianismo continua livre de acusação idêntica? Como dizia Richard Weaver, “as idéias têm conseqüências” -- e as da guerra anticristã já se tornaram visíveis desde que a Revolução Francesa, em poucos meses, matou dez vezes mais gente do que a tão falada Inquisição matara em quatro séculos. Não obstante, o anticristianismo é ainda aceito na sociedade como opinião decente, até mesmo charmosa.

Boteach diz que achou o filme “uma grosseira difamação, não só dos judeus mas sobretudo do Cristianismo, que é mostrado como uma religião de sangue, chacina e morte em vez de bênção, amor e vida”. Não sei se é loucura ou cinismo. Se mostrar os romanos torturando Cristo é acusar Cristo de violência e crueldade, mostrar judeus sendo assassinados pelos nazistas é acusar os judeus de genocídio. Ou isso, ou Boteach é o Bilinguis maledictus de que fala a Biblia, jogando contra os cristãos uma insinuação diabolicamente venenosa e ainda se fazendo de amigo deles.

Nos EUA, as igrejas católicas e protestantes recomendaram o filme a seus fiéis. Mas decerto elas não entendem nada de cristianismo. Quem entende é Shmuley Boteach, é o dr. Goldberg, é a srta. Bernard. São eles e o exército de materialistas, secularistas e anticristãos militantes que os apóia. Tão arrogante é a pretensão da confraria, que se permite até excomungar os cristãos tradicionalistas, tratando-os pejorativamente como “uma seita” e desprezando a autoridade da Igreja que os recebe como filhos e lhes reconhece o direito de freqüentar a missa pré-conciliar. No dia em que as igrejas cristãs se curvarem a esse tipo de “fiscalização externa” da sua ortodoxia, o cristianismo terá desaparecido da face da Terra, exatamente como Lênin queria.

Aliás, como perguntou Barbara Simpson, apresentadora de um talk-show de grande sucesso , onde estava o zelo pró-cristão desses fiscais quando um crucifixo imerso em urina foi premiado como arte? Onde estava quando uma imagem da Virgem coberta de cocô de elefante foi celebrada como obra de gênio? Onde estava quando filmes incensados pela mídia mostravam um Cristo homossexual ou promíscuo?

Não há sinceridade nem honradez numa campanha que, alegando zelo e amizade, exige que as igrejas cristãs se prosternem ante a opinião mundana.

Tenho sido, na mídia brasileira, o único colunista persistentemente pró-judeu, o que já me valeu ser chamado até de “agente do Mossad”. Mas tudo tem um limite. Estou com Israel, mas não estou com a srta. Bernard, o rabino Boteach, o dr. Goldberg e sua quadrilha de intrigantes empenhados em humilhar a Igreja sob o manto da falsa amizade. Sua afetação de zelo judaico também não me convence. Na mesma semana em que se reuniam para destruir um inocente, o beautiful people de Hollywood prestava homenagem a Leni Riefensthal, cineasta oficial do III Reich, e eles não disseram uma palavra contra. Por que? Porque o beautiful people não é cristão, e aqueles zelotes não têm coragem bastante para comprar uma briga contra o secularismo moderno. Mais prudente, no entender deles, era voltar a ira da assembléia contra o cristão Mel Gibson.

O que não mediram foi o preço de colocar em risco, por uma suspeita fingida, a aliança entre cristãos e judeus, da qual depende hoje a segurança do mundo.