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Aviso 3
Como, sob a pressão de viagens, trabalhos e doenças, eu demorasse pouco mais de um mês para lhe responder, o sr. Orlando Fedelli se sentiu autorizado a cantar vitória, anunciando que meu “silêncio atrapalhado” (sic) era uma virtual confissão de heresia. Essa dupla presunção – a de merecer resposta e a de poder fixar a seu bel-prazer o prazo para recebê-la – mostra apenas que ele se conhece muito mal e me conhece menos ainda. Respondi às suas acusações, de fato, não por mérito delas ou de seu autor, mas apenas em atenção a dois ou três garotos que, sendo alunos dele, também são meus, e que enquanto o forem terão o direito de obter de mim, na medida em que eu possa dá-las, as explicações necessárias a tirá-los do estado de perplexidade e confusão em que tipos como o sr. Fedeli os jogam para dominá-los. Nada que o sr. Fedeli escreva sobre o assunto terá, doravante, o mínimo interesse para mim, a não ser que ele prove, para meu espanto, que as quatro teses essenciais da heresia gnóstica resumidas no Aviso 2 são a minha filosofia e não, como julgo, o contrário dela. Como não sou apressado, dou-lhe não apenas os 42 dias que ele estatuiu como limite máximo da sua paciência, mas o quádruplo desse prazo. Dou-lhe 168 dias, sr. Fedeli, para provar que minha filosofia ecoa, reproduz, reflete ou endossa as teses gnósticas. Dou-lhe mais, até. Dou-lhe um ano inteiro. Dar-lhe-ia a eternidade, se pudesse. E ela não bastaria para o senhor provar que minha filosofia diz o contrário do que diz. Se, em vez de tentar prová-lo por meios filosoficamente admissíveis, o senhor continuar ciscando frases soltas, alusões remotas, “influências” e outras picuinhas do gênero, sobrepondo seus métodos míopes de bibliotecário uspiano ou de inspetor Clouzot à compreensão estrutural e hierárquica que se exige do intérprete de uma filosofia, então terei apenas confirmado minha suspeita de que o senhor é mesmo uma alma gêmea de Bouvard e Pécuchet. Se, porém, acrescentando a esses labores vãos de erudito doido uma dose de malícia totalmente estranha à personalidade desses dois simpáticos imbecis, o senhor resolver ampliar ad hoc o conceito de heresia gnóstica para fazer caber nele o que nele nunca esteve, então não me restará alternativa senão concluir que o senhor é, irremediavelmente, um impostor. Olavo de Carvalho 21/4/01 |