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Aviso 2. Sobre as acusações de Orlando Fedeli

 

Não sei se algum dia terei tempo ou paciência para conceder às acusações do sr. Orlando Fedeli a atenção meticulosa que ele invasivamente me exige. Um breve esclarecimento preliminar, porém, talvez ajude a acalmar as inquietações que esse santarrão de opereta despertou entre jovens assustadiços, de cuja obediência temerosa e servil, extorquida mediante imitação paródica da autoridade eclesiástica, ele depende para o sucesso de seus extravagantes empreendimentos inquisitoriais.

A heresia gnóstica repetidamente denunciada pelos Santos Padres define-se, em substância, pela sua defesa das seguintes doutrinas:

1.     O dualismo radical, ou oposição insanável entre o reino transcendente do puro espírito e este mundo de matéria grosseira.

2.     O Criador apresentado como uma divindade secundária imperfeita ou má, em contraste com a suprema divindade espiritual.

3.     A oposição irrecorrivel do corpo e da alma; donde, a concepção da alma como prisioneira do corpo material.

4.     Expansão da divindade numa série de potências ou Aeons – um processo que, num ponto qualquer do seu desenvolvimento, teria dado errado, ocasionando a criação deste universo mau.

Desses princípios derivam alguns desenvolvimentos secundários, dos quais os mais notórios são a concepção sexual do pecado original (hoje, por ironia, atribuída pela mídia anticristã à Igreja Católica), o ascetismo destrutivo e o milenarismo revolucionário que originou as ideologias modernas.

Qualquer tentativa de caracterizar como gnóstico-herético o meu pensamento só poderia ser levada em conta se demonstrasse, nele, a vigência desses princípios e a adesão a esses desenvolvimentos.

Mas, da maneira mais clara e manifesta que se poderia exigir, não apenas todos eles -- princípios ou desenvolvimentos – estão ausentes da minha filosofia, mas esta se volta decididamente contra todo dualismo, contra toda rejeição da matéria, contra toda cisão alma-corpo, contra toda rebeldia antinatural e, sobretudo, contra o milenarismo revolucionário e suas derivações ideológicas.

Tudo isso é tão evidente nos meus textos e aliás até na minha conduta pessoal, que a acusação de gnosticismo levantada pelo sr. Orlando Fedeli, no essencial, não pode pretender ao estatuto de coisa séria. Apresentada de improviso, no calor de uma discussão, seria um erro acidental de interpretação. Reiterada obsessivamente, e em tons dramáticos de retórica inquisitorial, denota uma dose de má fé que supera, em muito, aquela que tenho encontrado nos meus adversários materialistas e esquerdistas, e não habilita o sr. Fedeli a receber outra resposta senão uma que o Código Penal me proíbe: um tapa na cara.

Não obstante, é fato que o gnosticismo, ao longo dos tempos, se expressou através de inúmeras criações culturais – ciências, artes, técnicas, estilos, obras, pensamentos —, que, ora de maneira mais isolada, ora de mistura com elementos cristãos e de outras proveniências, ocuparam um espaço na história das idéias e, de um modo ou de outro, se incorporaram no repertório da cultura ocidental. Esses elementos não têm sentido gnóstico ou cristão em si mesmos, variando o seu significado conforme o lugar e a função que recebam nas estruturas de pensamento que os acolhem. Isto é óbvio sobretudo no que se refere às ciências simbólicas da natureza -- astrologia e alquimia --, que, já pelo simples fato de serem simbólicas, não remetem por si mesmas a um sentido unívoco mas recebem o seu sentido do teor geral das concepções doutrinais que os integram e utilizam. Só para dar um exemplo, a mesmíssima teoria da influência dos astros sobre as paixões humanas se encontra, idêntica, em Sto. Tomás de Aquino e em Robert Fludd. É cristã no primeiro e gnóstica no segundo, não porque apresente aí qualquer diferença interna, mas pelo lugar que ocupa nas concepções globais de um e de outro. No estudo dos sistemas de pensamento, como aliás no das artes e no das criações culturais em geral, vigora estritamente o princípio aristotélico do primado da forma sobre a matéria, da estrutura abrangente sobre os elementos singulares.

Uma mente afeita às técnicas da investigação erudita, mas pobre de discernimento filosófico, está sujeita a perder de vista a forma abrangente e a se confundir de tal modo na barafunda dos elementos de procedência gnóstica que, onde quer que os encontre isoladamente, acabe acreditando estar na presença de uma heresia, justamente por incapacidade de atinar com a estrutura geral que lhes dá um sentido completamente diverso.

Produzida de boa fé, essa conclusão elevaria o nosso autor às alturas dos méritos historiográficos de Bouvard e Pécuchet, ou faria dele um daqueles eruditos excêntricos de O Pêndulo de Foucauld que, de mil e um indícios irrelevantes e incongruentes, compõem uma linda teoria da conspiração que acaba por incriminar a eles próprios.

Elaborada com malícia e alardeada nos tons fingidamente heróicos de um soldado da fé, torna-o nada menos que um Iago da teologia, um intrigante de grosso calibre, ansioso de aplacar a fúria do seu demônio interior mediante a incriminação de um inocente.

Que a trama processual urdida para esse fim não chegue a se consumar na realidade, mas se encene apenas no teatro mental de um louco, é decerto reconfortante para o réu, que não será tocado senão pelas chamas imaginárias de uma inquisição virtual. Porém, moralmente, isso não melhora em nada a situação do autor da peça.

Olavo de Carvalho

17/4/01