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Alencastro, o sábio da Veja Olavo de Carvalho
Luiz Felipe de Alencastro, nome fidalgo digno de personagem de Eça ou Camilo, é reconhecidamente um sábio. Tão vasto é o seu cabedal de conhecimentos, que foi convidado a reparti-lo nas páginas de Veja , onde é colunista, no recinto milenar da Universidade de Paris, onde leciona História do Brasil, e até no mais poderoso think tank dos EUA, o Council on Foreign Relations (CFR), uma ante-sala da presidência americana. Em lá estando, e consultado sobre o Foro de São Paulo, o referido saiu-se com estas palavras: “Nunca ouvimos nada a respeito no Brasil. Não sabemos nada disso, e é maluco como essa coisa cresceu – foi um jornalista conhecido como sujeito muito conservador e de extrema direita, que escreve num jornal no Rio, quem começou com toda essa coisa. Nunca ouvimos nada a respeito.” [link] Sendo eu o único jornalista que escreve sobre o assunto num jornal do Rio, não é difícil perceber para quem foi confeccionada a carapuça. Envergo-a, pois, e passo a analisar a declaração. Encontram-se nela duas camadas de significado, uma exotérica ou popular, outra esotérica para uso dos happy few . Na primeira, Alencastro insinua que, se nada ouviu sobre o Foro de São Paulo, a entidade decerto não existe e é pura invencionice de um extremista. Já tive a ocasião de observar que, na mídia e no meio acadêmico deste país, o argumentum ad ignorantiam , que apela à ignorância de alguma coisa como prova da inexistência da coisa, não constitui motivo para demissão por justa causa como o poderia presumir o são entendimento humano, mas, ao contrário, é aceito como sólida evidência científica. Sua maior virtude é tornar a presunção do ignorante a fonte suprema de autoridade intelectual, permitindo que esta seja repartida democraticamente entre os que não sabem nada e trazendo destarte benefícios sociais incalculáveis. Mas seria injusto dizer que Alencastro nada fez além de apelar a esse argumento, aproveitando a ocasião para impugnar a credibilidade da fonte por meio de uma rotulagem infamante. Na verdade ele apenas se serviu desse expediente para distrair a parte ingênua do auditório e poder transmitir aos iniciados a verdadeira substância da sua mensagem, a qual pode ser decodificada assim: se ele testemunhou o crescimento do falatório sobre o Foro de São Paulo ao ponto de surpreender-se com as dimensões que essa “coisa maluca” acabou tomando, como pode jurar, em seguida, que nunca ouviu nada a respeito? É claro que ouviu tudo, e por isso mesmo diz que não ouviu nada. A mentira tem pernas curtas, mas no caso presente elas são tão curtas que não agüentam chegar ao fim da frase sem denunciar-se pateticamente. Se, diante do muito que ouviu, Alencastro cumpriu ou não seu dever elementar de historiador, consultando as atas e resoluções do Foro de São Paulo, documentos de domínio público, para averiguar se o suposto extremista de direita dizia a verdade ou delirava, é coisa que ignoro. Se ele não o fez, então sua declaração é apenas aquilo que parece: uma orgulhosa confissão de inépcia e leviandade, reforçada por uma mentirinha para fins de desconversa. Se, ao contrário, ele leu os documentos, então o que fez no CFR foi fingir-se de bobo para ludibriar a platéia, numa tentativa desesperada de bloquear o acesso da elite pensante americana a informações que arriscariam chegar ao presidente Bush, acelerar a mudança na política dos EUA para com a América Latina e abortar os planos do Foro de São Paulo. Se, pois, o colunista de Veja é um idiota a serviço de si próprio ou um espertalhão a serviço de criaturas bem mais sinistras, é questão que escapa ao meu tirocínio diagnóstico neste momento. O que sei é que em qualquer dos dois casos ele tem todas as condições para ser considerado no Brasil um modelo de intelectual respeitável: é ignorante, mentiroso, manipulador e útil ao establishment pró-comunista. Aproveito aliás a ocasião para dar ao distinto um recado pessoal: extremista de direita é a vó, é a mãe, é a tia – é qualquer pessoa da sua parentela, à sua escolha, que lhe conceda o direito de insultá-la e ser sempre perdoado como queridinho-do-papai. Comigo, a regra é diferente. Comporte-se ou agüente o tranco. |