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La Rebelión de las Masas

Olavo de Carvalho
Primeira Leitura, agosto de 2005

 

José Ortega y Gasset é um monstro literário único e incomparável: o maior prosador da língua espanhola jamais terminou um livro. O título "Obras Completas" na série publicada pela Alianza Editorial (sucessora da Revista de Occidente, fundada pelo próprio filósofo) é uma contradição viva: tudo o que você encontrará nos doze volumes são artigos de jornal, rascunhos, transcrições de cursos e conferências, livros começados - a mais genial coleção de obras incompletas que alguém já produziu.

O autor queixava-se com freqüência das condições anormais que geraram essa maravilha informe: no meio de uma vida alucinante em que acumulava as funções de professor, escritor, jornalista, deputado e depois conferencista itinerante no exílio, separado de seus livros e arquivos, ele suspirava por uma existência aprazível de erudito anglo-saxônico, isolado na paz de um campus, com tempo integral para os estudos.

As circunstâncias, no entanto, não explicam tudo: como todos os filósofos, Ortega buscava a coerência de uma visão organizada, hierárquica, mas, como escritor, produzia por jatos repentinos, onde um determinado aspecto da realidade, apreendido num relance intuitivo, já vinha com sua forma literária pronta e integral, de um brilho fulgurante. A luminosidade de cada um dos fragmentos ocupa o espaço inteiro, encobrindo a unidade do fundo, que o leitor, então, se dispensa de buscar. O mais claro dos prosadores tornou-se o mais incompreendido dos filósofos.

Alguns leitores, e não dos mais burros, foram além da incompreensão: partiram para a difamação pura e simples, inventando o personagem do filósofo a partir de algum traço solto que lhes chamara a atenção e, isolado, os escandalizara. Arnold Hauser, Georg Lukacs e o nosso Alceu Amoroso Lima, entre outros inumeráveis, mentiram alucinadamente contra o pensador espanhol, classificando como teórico fascista o deputado socialista eleito com o apoio da esquerda inteira, logo em seguida um dos primeiros exilados do franquismo. Foi aliás o contraste entre o que eu lia em Ortega e nos seus críticos esquerdistas que pela primeira vez chamou a minha atenção para a mendacidade crônica da esquerda universal.

Particularmente La Rebelión de las Masas, um perfil psicológico certeiro do infantilismo presunçoso que se apossou da sociedade moderna, foi tomado como uma apologia da desigualdade social, quando o autor deixava claro que a diferença entre elite e massas, tal como ele a enxergava, não era econômico-social, mas moral, inspirada na doutrina hindu do dharma e do karma, de modo que o homem-massa podia se encontrar nas famílias ricas e o nobre, o homem de elite, nascer entre indigentes. Num discurso feito em 1912 numa organização sindical, ele indicava que as sementes da elite se encontraram entre os operários espanhóis.

Ortega também foi muito prejudicado pelo fato de que seus cursos universitários, o núcleo da sua atividade intelectual nos anos 30, só foram publicados depois da sua morte. Muito da complexa riqueza do seu pensamento permaneceu invisível durante esse tempo, levando boa parte da crítica a minimizar injustamente sua importância filosófica. Em La Rebelión de las Masas, os fundamentos filosóficos só aparecem em breves alusões, logo diluídas no mar de intuições sociológicas nas quais o leitor redescobre, não raro, as realidades da sua própria vida. Como descrição comparativa do "homem nobre" e do "homem vulgar" e como diagnóstico da degradação moral e intelectual na moderna sociedade de massas, La Rebelión conserva seu lugar de clássico inesquecível. Mas é preciso não julgar o autor só por esse livro, que aliás não é um livro mas uma coleção de artigos publicados no jornal El Sol a partir de 1928. O melhor do Ortega ensaísta está aqui, mas o Ortega filósofo deve ser procurado em La Idea de Principio en Leibniz e nos vários cursos transcritos na edição Alianza.