Sociedade e mercado

Por José Nivaldo Cordeiro


8 de Junho de 2002

O meu amigo Nelson Lehmann, do Instituto Liberal de Brasília, mandou-me umdos mais brilhantes textos que li nos últimos tempos (“O mercado ou a teoriados três verbos”), no qual ele lança luz sobre a suspeita que os socialistasde todos os matizes lançam sobre o que se chama de mercado, a economia de produção em massa destinada ao processo de trocas. Ele demonstra que os socialistas querem é um retorno à forma familiar de organização, anterior à Polis, algo impossível depois de certo estágio de desenvolvimento. O verbo doar (registre-se: compulsoriamente, via Estado) é o que está por trás de todo o argumento socialista e daí ser essa proposta política ntrinsecamente totalitária, pois doação compulsória não obedece a critério racional algum, exceto à vontade do governante. A doação compulsória será sempre precedida pelo ato de tomar, algo bastante primitivo e injusto, bárbaro, próprio das relações pré-civilizadas.

O fato objetivo é que não consigo ver oposição entre o conceito de mercado e o de sociedade. São sinônimos. Pela palavra mercado designa-se o conjunto de relações econômicas que interligam indivíduos isolados que, por laços invisíveis do processo de trocas, interagem e cooperam para o bem-estar
coletivo. É o que poderíamos chamar de a própria construção do social. As tentativas que o Estado tem feito para se substituir a esse processo podem ser consideradas um redondo fracasso, na medida em que não resolve os supostos males que visa a combater e ainda pratica a injustiça de forma arbitrária.

O único campo da ação humana onde sociedade e mercado não se equivalem nos tempos modernos está no âmbito das relações familiares, como bem demonstrou Nelson Lehmann. Aqui o verbo doar se sobrepõe aos dois outros, o tomar e o trocar. Há uma outra lógica. Quando enxergamos o convívio de milhões de
seres que se desconhecem e ainda assim cooperam de forma racional para a sobrevivência coletiva, é que percebemos o quanto a liberdade de iniciativa e a busca dos interesses individuais, dentro das regras civilizadas, são a melhor forma de se alcançar a prosperidade coletiva e a paz social.

O verbo tomar, abstraindo os chamados grupos criminosos, passou a ser conjugado apenas pelos governantes (sim, eles praticam o roubo consentido, legal), que acham que podem se substituir ao mercado. Estão enganados. Eles apenas praticam a injustiça de forma arbitrária contra pessoas indefesas e que praticam as virtudes necessárias para que haja o processo produtivo, a diligência, o trabalho diuturno como valor em si, a competência, a organização, a cooperação.

Outro dia, conversando com uma filha adolescente, travei um diálogo que me lembrou um dito de Adam Smith, o de que o nosso almoço não depende da caridade do açougueiro, mas da sua busca por seus próprios interesses. Como todo adolescente generoso, a menina me disse que quer fazer um curso de nível superior que lhe possa permitir ajudar às pessoas. Qual?
Perguntei-lhe. Medicina. Perguntei-lhe em seguida: você não acha que o agricultor que nos colocou a comida à mesa (estávamos jantando), a pessoa que fabricou a roupa que você veste, aqueles que produziram o automóvel, etc, também não lhe estão ajudando e ajudando a todos? Ela me olhou espantada, pois jamais haviam lhe ocorrido que esses bens, tão necessários à vida, não caem do céu e nem nos chegam pelo ato de doação. Em troca deles, os membros produtivos da nossa família dão o melhor de si, o que acaba beneficiando toda a coletividade, até mesmo indivíduos que podem estar no lado oposto do Planeta, no extremo mais longínquo.

O texto do Nelson Lehmann não nos diz outra coisa, cercado de toda erudição e rigor expositivo, como lhe é próprio. Quem sabe tem que louvar o mercado. Só quem é ignorante e está possuído de má fé para não reconhecer essa obviedade.

 

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