Sepultando um cadáver intelectual

Olavo de Carvalho

6 de março de 2003

Singela homenagem deste site ao natimorto Dr. Emir Sader

Monumenta vitae Saderis
(extraídos de O Imbecil Coletivo)

I – Por uma esquerda melhorzinha
II – Resposta a Emir Sader, Prêmio Imbecil Coletivo 1996
III – Resposta aos fanfarrões amedrontados
IV – Opera Omnia Emiris Saderis

Singela homenagem deste site ao natimorto Dr. Emir Sader

— Sua polêmica com Olavo de Carvalho está encerrada?

— Eu nunca polemizei com ele, ele fez uma resposta a um artigo meu, eu nem me dei ao trabalho de responder. Ele é um tipo que merece a chacota nos meios intelectuais. Trabalha numa universidade privada, de propriedade do Levinson, um tipo do escândalo Delfim, da época da ditadura, uma arapuca, cheia de grana, que compra espaços para esse cara escrever nos jornais. Nunca, nenhuma universidade pública ou privada de nível o contratou.

Só agora vi no site www.terra.com.br esse interessante diálogo entre o entrevistador local e um nosso já velho conhecido.

Emir Sader tenta aí fingir superioridade por uns segundos, mas não se contém e logo cai de volta nas intrigas de galinheiro que são o seu elemento natural. É a nostalgie de la boue, que em alguns seres se manifesta após dias ou semanas de afastamento de sua pocilga originária, mas em outros é de eclosão quase imediata, de tal modo lhes dói a saudade de si mesmos quando forçados a comportar-se como gente.

Imagino-o treinando pose de dignidade diante do espelho, meses a fio, para no fim só conseguir aquela inconfundível cara de ostra com que todos o conhecemos, aquela casca de impessoalidade postiça laboriosamente construída em torno de um pouco de meleca que desejaria fazer-se passar por pérola.

A indescritível miséria humana dessa criatura é um espetáculo patético, que quase me arranca lágrimas, não sei se de comiseração por ele ou de dó de um país onde um vigarista de bosta é aceito como professor universitário.

Ele diz, desde logo, que nunca polemizou comigo. É mentira, obviamente. Polemizou sim. Polemizou várias vezes, perdeu feio em todas elas e saiu desfeito em cacos, só lhe restando agora varrer-se a si próprio para baixo do tapete para que ninguém veja o estado deplorável em que ficou.

Defrontamo-nos, por exemplo, no Jornal do Brasil de 25 de outubro de 1997, num debate sobre as conclusões de oitenta anos de experiência comunista. Ele aí tentou provar que cem milhões de mortos eram um miúdo acidente de percurso que em nada comprometia a santidade dos ideais socialistas (um argumento que se poderia aplicar quase ipsis litteris ao nazismo ou à Inquisição Espanhola). Eu, da minha parte, limitei-me a fazer as contas e verificar que o comunismo, tendo matado mais gente que duas guerras mundiais somadas a todos os terremotos e epidemias do século (e mais às vítimas de todas as ditaduras direitistas), tinha constituído, nada mais, nada menos, o acontecimento mais mortífero da história universal, estando abaixo da racionalidade dos símios superiores a sugestão de que valesse a pena tentar a experiência de novo, e sendo menos insensato propor uma reprise da Peste Negra ou das invasões mongóis. Meu argumento, que eu julgava tão engenhoso, fracassou por completo ante a obstinada recusa do dr. Sader de arcar com as responsabilidades intelectuais de um símio superior ou mesmo inferior. Passados cinco anos, ele ainda acha que seria bom começar novamente a Revolução Russa, noutro lugar e com outro nome. Persuadiu-se apenas de que não devia tentar discutir o assunto comigo, chegando mesmo a acreditar que jamais o fizera. Só assim se explica sua estranha declaração ao chat de terra.com.br.

Defrontamo-nos, ainda, em O Globo de 23 de setembro de 2000, num debate a propósito do então recém-publicado Dicionário Crítico do Pensamento da Direita (Mauad Editora) — ele babando-se de admiração devota ante aquele pedaço de cocô editorial, eu demonstrando em poucas linhas que se tratava de uma fraude publicitária ridícula, capaz de enganar somente a seus próprios autores.

O confronto foi tão desigual, intelectualmente, que chegaram a me acusar de agredir um menor de idade.

Antes disso já havíamos trocado umas palavras impressas a propósito do meu livro O Imbecil Coletivo, ele preenchendo servilmente o “Formulário Padrão Para a Redação de Críticas a Este Livro” anteposto à primeira edição, eu apenas anotando que ele fizera exatamente isso, como era de se esperar da sua inteligência formidavelmente criativa.

Como o jornal que o publicara me negasse o direito de resposta, pedi à Academia Brasileira de Filosofia e à Faculdade da Cidade, co-editoras do livro e portanto diretamente interessadas na sua defesa, que me abrissem espaço em matéria paga para uma réplica a meus detratores (v., adiante, “Por uma esquerda melhorzinha”). Sader aproveita-se desse episódio para lançar no ar uma fofoca bem ao estilo da sua moralidade suína, dando a entender que os artigos que anos depois disso passei a publicar semanalmente em O Globo são espaços comprados pelo diretor da Faculdade e não trabalhos profissionais remunerados pelo próprio jornal…

Se isso já não bastasse para demonstrar com que tipo de intrujão estamos lidando, resta o fato de que, num escrito seu que anda circulando pela internet sob o título “Olavo de Carvalho não existe”, o merdinha, com o maior ar de inocência, se refere a essa fofoca como se viesse de fontes impessoais e anônimas e não dele próprio: “Disseram até…” etc. e tal. Não chega a ser maravilhoso que, para dar maior credibilidade ao que diz, ele tenha de atribui-lo a outrem, confessando que o que sai de sua boca não merece confiança? Ele sabe que não presta.

Quanto às considerações pejorativas que ele tece em torno da moralidade do Dr. Levinsohn, imaginando poder-me atingir por tabela, temo que sejam bastante injustas, mas rigorosamente não são da minha conta, já que ignoro tudo das finanças do referido e não me beneficio delas no mais mínimo que seja, para grande decepção de quem julgasse dever-me invejar nesse ponto, como parece ser o caso do dr. Sader. Apenas me pergunto se este se entrega a semelhantes vituperações conjeturais por inveja autêntica ou para esconder de si mesmo os favores — estes sim, reais e comprovados — que recebe da corporação Ford, cuja história, manchada de anti-semitismo e de colaboração com os nazistas, é decerto bem mais rica de episódios torpes do que mil escândalos financeiros de Terceiro Mundo.

Mas depois desse dia ainda tive a ocasião de comentar um artigo dele, no qual, bem ao seu estilo de intrigante poltrão, ele aludia ao meu livro sem citar nominalmente o autor. É esse comentário que ele se gaba de não ter respondido, como se o silêncio que então opôs a meus argumentos não fosse uma admissão de sua completa impotência e sim prova de superioridade olímpica. Leiam o artigo (“Resposta a Emir Sader”, logo adiante) e verão se, à cabal demostração de sua inépcia e incultura, o coitado podia mesmo responder alguma coisa.

Falando em incultura, no rodapé desta página vocês encontrarão a bibliografia completa de Emir Sader. Verão que não contém trabalhos científicos de espécie alguma e se compõe exclusivamente de livros de propaganda esquerdista (a maior parte deles simples coletâneas de textos alheios), que num país normal habilitariam talvez o autor a um cargo de repórter num jornalzinho de partido, mas que no Brasil bastam para fazer dele um professor e até coordenador de departamento.

Não é de espantar que, com obra tão majestosamente insubstancial, ele jamais ostente como prova de sua alegada superioridade os livros que escreveu, mas sim os cargos que ocupou, com os quais, de fato, não posso competir, visto nunca ter-me interessado viver, como ele, do milagre de produzir tamanho efeito empregatício com tão nula bagagem de realizações intelectuais.

É nesse sentido que ele enfatiza que “nenhuma universidade de nível” jamais me contratou. Devo nisso concordar com ele: nenhuma jamais o fez e jamais eu permitiria que o fizesse, porque, a julgar pela amostragem dos 104 autores do supramencionado Dicionário, todos eles professores dessas instituições, aí eu teria de conviver com gente da mais baixa espécie, prostituindo e sufocando minha inteligência em troca de favores vis e remuneração humilhante. Também não fui contratado pela universidade privada da qual Sader fala tão mal. Não sou seu funcionário, nem membro do seu corpo docente, nem recebo dela remuneração alguma. Apenas pertenço ali a um Instituto de Estudos Interdisciplinares que congrega trinta intelectuais do porte de um Bruno Tolentino, de um Jacob Gorender e de um Oliveiros da Silva Ferreira (todos eles igualmente não remunerados), e em cujas instalações me foi permitido dar um curso livre em troca de serviços editoriais prestados esporadicamente à instituição (como por exemplo a edição dos Ensaios Reunidos de Otto Maria Carpeaux). Isso é toda a minha relação com a entidade e, de modo geral, com a classe acadêmica brasileira, à qual não pertenço nem penso em pertencer jamais, ao menos enquanto o destino me preservar de semelhante flagelo. Que aí eu seja objeto de chacota, é coisa que admito sem hesitação, dada a total impossibilidade de qualquer coisa mais inteligente que chacotas pueris brotar jamais desse ambiente. O próprio Dicionário Crítico é uma chacota — e chacotas, no estrito sentido da palavra — são a vida e a obra inteiras de Emir Sader.

Mal acabo de escrever essas palavras, porém, e já sinto um certo arrependimento pela leviandade de ter ocupado o meu tempo e o dos visitantes deste site com um personagem miúdo e desprezível como o dr. Sader, que desde nosso último entrevero público no ano de 2000 vinha ininterruptamente espalhando as coisas mais escabrosas a meu respeito sem que eu caísse na tentação de reparar no que ele dizia. Agora ele passou dos limites e, confesso, não resisti. Cedi vergonhosamente ao impulso de fazer de conta que o dr. Sader existe, como ele fez de conta que não existo eu.

Sei que não me justifico, mas ao menos me explico, ao admitir que no fundo encontro um certo prazer nesses exercícios de entomologia intelectual, em que, desventrando cadáveres literários de piolhos e expondo a anatomia mental das moscas, descanso de afazeres incomparavelmente mais extenuantes. Pode haver nisso um quanto de sadismo, mas o sadismo jamais chegará a ser tão perverso quanto o saderismo.

Olavo de Carvalho

6 de março de 2003

Monumenta vitae Saderis

Extraídos de O Imbecil Coletivo

I – Por uma esquerda melhorzinha (1) 

Jornal do Brasil do dia 4 concedeu uma página inteira para que os incomodados pelo livro O Imbecil Coletivo tentassem remeter seu autor à lata de lixo do irrelevante por meio de frases do seguinte teor:

Seu discurso é de direita” ( Leandro Konder ).

É de direita” ( Emir Sader ).

É filósofo auto-intitulado” ( André Luiz Barros ).

Não é nem homem” ( Muniz Sodré ).

Nos anos cinqüenta, ou sessenta, o sujeito que acreditasse poder fulminar um livro mediante a mera catalogação ideológica de seu autor ¾mesmo não acompanhada de juízos divinatórios sobre sua sexualidade ou de sentenças pejorativas quanto à sua condição profissional, coisas que na época eram inconcebíveis ¾ seria imediatamente rebaixado do estatuto de intelectual para o de demagogo barato. E a própria esquerda faria isso, como se vê por esta advertência contida num editorial do jornal do Partido Comunista, Novos Rumos, de abril de 1962, que cito logo no início do meu livro:

“Cabe-nos rever uma outra atitude comple­tamente enraizada entre nós, e que evidencia uma ver­dadeira letargia mental. Trata-se do hábito de raciocinar den­tro de esquemas fixos. Este ‘mé­todo’ de raciocínio se limita a apanhar os fatos e a en­quadrá-los dentro do esquema pré-de­terminado. Exemplo é o esquema ‘revolucio­nário x reacioná­rio’. Segundo este esquema, tudo o que temos de fazer é classificar as pes­soas, os atos e os fatos em ‘revolucionários’ ou ‘reacionários’. Feito isto, está concluída a ‘tare­fa’. Como poderemos compreen­der a reali­dade, mantendo esta atitude?”

         Hoje em dia, professores universitários, jornalistas e escritores praticam descaradamente esse gênero de rotulações sumárias, acrescentando-lhes ainda insultos espumantes de ódio, de inveja, de ressentimento, e, feito isto, julgam que está, como diz o editorial, “concluída a tarefa”. Tarefa que supõem dar-lhes o direito de posar como “intelectuais de esquerda”.

Ao permitir que esses insensatos falem em seu nome, sem exigir deles o mínimo de compostura intelectual que se requer do ofício letrado, os movimentos de esquerda só afundam mais e mais no lamaçal da desmoralização.

Quando os pseudo-intelectuais cujos erros primários denuncio em meu livro tentam desviar a discussão para o terreno do maniqueísmo ideológico, o que eles fazem é usar os partidos de esquerda para esconder por trás deles suas fulgurantes inépcias pessoais. Com isto, mostram não ter o mínimo respeito pela dignidade de milhares de militantes que, ao lhes confiar uma tarefa intelectual, esperavam vê-la cumprida, no mínimo, no nível exigido por Novos Rumos.

É muito confortável para esses intrujões fingirem, ante o público, que os critiquei desde o ponto de vista ideológico, como inimigo direitista. Mas jamais critiquei ninguém por ser de esquerda, e sim por não saber sê-lo com alguma dignidade. Falo contra a impostura daqueles que, no fundo, só estão na esquerda porque aí podem proteger-se de toda crítica sob o manto da solidariedade ideológica. Discutir ideologia com essa gente seria conceder-lhes uma honra que não merecem. Não discuti com eles em meu livro nem vou fazê-lo agora, porque vigarice ( intelectual ou qualquer outra ) é coisa que não se discute: vigarice se denuncia, e pronto.

Vejam só, leitores, se é possível discutir ideologia no nível desses sujeitos: Emir Sader acha que a melhor maneira de defender a sua é alegar em favor dela mentirinhas tolas, que o mais breve exame desmente. Leandro Konder crê ser fiel ao espírito esquerdista ao proclamar que a veracidade de uma idéia vale menos que seu número de adeptos, quando isto não é marxismo nem esquerdismo, é Goebbels puro e simples. Muniz Sodré acha que piadinhas insultuosas sobre a sexualidade de alguém que ele nunca viu são crítica literária marxista, quando são apenas a manifestação da vaidade insana e preconceituosa de um machista papudo e simiesco. André Luiz Barros acha que é jornalismo cultural de esquerda declarar “auto-atribuída” a denominação de filósofo que o próprio jornal onde escreve me atribui há três anos. Já o editor do Caderno B entende que é jornalismo tout courtgastar uma página inteira a cores, com chamada na capa, para dizer que o objeto da reportagem é um sujeito sem importância nenhuma…

É este tipo de intrujice que tenho combatido, e não a opção ideológica de quem quer que seja, que é um direito constitucional dos mais óbvios, se bem que escandalize a certos indivíduos quando o vêem exercido pelos outros. Ao fingirem que os combato por serem intelectuais de esquerda, Muniz, Sader e tutti quanti não apenas massageiam com uma falsa lisonja seus respectivos egos, mas prostituem sua opção ideológica, colocando-a a serviço de um interesse pessoal de natureza vil, que é o de poderem continuar a desfrutar de um prestígio intelectual para o qual estão absolutamente desqualificados.

Sou do tempo em que existiam intelectuais de esquerda, sei reconhecer um quando o vejo e por isto mesmo sei que é coisa que hoje em dia não existe mais. Intelectual de esquerda era José Honório Rodrigues, era Ênio Silveira, era Caio Prado Jr., era Otto Maria Carpeaux. Remanescentes vivos dessa raça em extinção, só Alfredo Bosi e Franklin de Oliveira. Não têm similares. Pretender nos impingir Emir Sader e Muniz Sodré como intelectuais de esquerda é simplesmente um caso para a Delegacia do Consumidor. Imagino se Ênio ou José Honório, criticados justa ou injustamente, iriam se fazer de donzelas ofendidas e responder com chavões idiotas, em vez de analisar com meticulosa honestidade as afirmações do crítico, para impugná-las no campo da lógica e da argumentação culturalmente relevante, exatamente como fiz com as opiniões de Paulo Roberto Pires e de Sader. Imagino se Caio, ou Otto, em vez de se defender sozinhos como os bravos homens que eram, iriam correr como pintainhos assustados para se abrigar sob as asas da solidariedade corporativa, como hoje o fazem esses pobres coitados. Não, não censuro um Sader, um Muniz Sodré, por serem intelectuais de esquerda, mas por serem apenas as tristes caricaturas de uma família cultural que já teve entre seus membros algumas das mais altas expressões da inteligência pátria. Para cúmulo de ironia, alguém me diz que o editorial acima citado, assinado pelo pseudônimo J. Miglioli, foi escrito pelo próprio Leandro Konder. Não sei se isto é verdade, mas, se é, o que se conclui é que Konder, como tudo na esquerda, decaiu muito desde 1962.

Em tudo o que essas criaturas falaram não se viu enfim a menor referência a um só de meus argumentos, muito menos qualquer tentativa de refutá-los, empreendimento que estaria realmente acima da capacidade dos entrevistados. Só rotulação grosseira adornada de insultos em linguagem de leão-de-chácara. Só urros de gorilas que batem no peito se fazendo de heróis quando, reunidos em bando armado de paus e pedras, cercam o inimigo solitário e ainda o chamam de covarde. Mas, se imaginam que essas coisas podem me intimidar no mais mínimo que seja, é porque me medem pela sua própria estatura. Se imaginam que, rebaixando meu livro ao nível de suas cabeças, podem dissuadir o leitor de tentar averiguar por si mesmo o teor de meus argumentos, é porque olham o povo brasileiro no espelho de seu próprio auto-engano. E se crêem poder sepultar a reputação alheia sob toneladas de lama, é porque sob a mesma lama enterram suas cabeças de avestruzes, para não tomar consciência de que sua hora chegou. Mas todo esse subterfúgio é inútil: desde a publicação de O Imbecil Coletivo, essa gente já está em julgamento ¾ e o julgamento prosseguirá implacavelmente, ante os olhos do povo, até a condenação final dos usurpadores e corporativistas que, em benefício próprio, bloqueiam o progresso cultural deste país.                

II – Resposta a Emir Sader, 
Prêmio Imbecil Coletivo 1996 (2)

Estimulado talvez pela onda de fanfarronice revolucionária que vem crescendo desde o encontro de Chiapas, o prof. Emir Sader decidiu partir para a propaganda esquerdista mais direta e rasteira, usando para este fim as páginas de uma imprensa que ele mesmo, surpreendentemente, afirma estar a serviço da direita. A massa compacta de mentiras, tolices e grosserias que ele fez publicar na edição de ontem do JB não pode ficar sem resposta, se é que o leitor brasileiro ainda tem direito à informação correta.

  1. Sader acusa de hipócritas todos os que fazem críticas à esquerda sem assumir um compromisso político com a direita. O pressuposto implícito é que só se pode criticar um bloco ideológico em nome de outro bloco ideológico, nunca em nome da moral, da lógica, da ciência ou do puro e simples bom senso. Todas as categorias do conhecimento humano estão submetidas aos critérios absolutos da guerra ideológica. Antes de decidir se dois mais dois são quatro ou cinco, o prof. Sader tem de perguntar se quem o disse foi o mocinho esquerdista ou o bandido direitista. Não existe realidade fora do palquinho maniqueu que constitui o máximo horizonte mental de um perfeito idiota latino-americano.
  2. Ele assegura, com a cara mais bisonha do mundo, que “a esquerda abrigou ao longo do século o que de melhor a inteligência humana produziu”, e que por esta razão “a direita tem complexo de inferioridade no plano da inteligência”. Isto bem mostra o nível das leituras desse pretensioso semiletrado. A intelectualidade de esquerda é vasta, mas nunca éhighbrow. Ela não tem um Eliot, não tem um Yeats, um Claudel, um Valéry, um Pound, um Rilke, um Husserl, um Scheler, um Hartmann, um Jaspers, um Heidegger, um Popper, um Whitehead, um Lavelle, um Berdiaeff, um Bergson, um Cassirer, um Croce, um Mircea Eliade, um Jung, um Thomas Mann, um Weber, um Toynbee, um Jaeger, um Spengler, um Guénon, um Schuon, um Voegelin, um Weil, mas tem uma multidão de pequenos jean-paul-sartres que falam pelos cotovelos tentando fazer a quantidade passar por qualidade. Essa arraia-miúda embevecida pela própria retórica domina as universidades, a imprensa e o movimento editorial, onde penetrou desde a década de 30 ajudada pelas verbas culturais da KGB ( uma história que Sader provavelmente ignora ) e onde reina até hoje pelo boicote sistemático aos adversários superiores em inteligência, cultura e honestidade. A esquerda não tem nada, intelectualmente, exceto dois ou três pensadores medianos como Lukács e Horkheimer ( sempre patrulhados pela própria esquerda ), e exceto, naturalmente, aquilo que rouba: nosso descarado professor contabiliza no patrimônio esquerdista até mesmo Freud, um moralista conservador ( v. Philip Rieff, Freud: The Mind of a Moralist ) e Bertrand Russell, que só aderiu à esquerda em plena senilidade e que na época do seu maior esplendor intelectual propunha nada menos que uma guerra atômica preventiva contra a URSS. Se há um motivo sério para alguém sem preconceitos políticos perder toda a confiança na esquerda é justamente a constatação da manifesta inferioridade intelectual da horda esquerdista, que monopoliza as instituições culturais e aí estabelece o socialismo do QI, nivelando tudo por baixo e declarando inexistente o que quer que esteja para além de seu horizonte de sapo no fundo do poço. Ela tem o monopólio da patifaria cultural, com que ilude a massa dos desprivilegiados da inteligência. Ao acreditar no mito de sua superioridade, ela mostra que é apenas vítima de sua própria intrujice.
  3. Sader afirma que “quase ninguém se assume como neoliberal” – mentirinha boba que não resiste sequer a um confronto com a lista de membros do Instituto Liberal, que o prof. Sader cuidadosamente se esquivou de consultar para poder preservar intacta sua crença de que os homens inteligentes são de esquerda.
  4. Ele diz que a direita arca com o ônus de ter possuído Mussolini, Hitler, Franco, Salazar, Pinochet, Videla e Médici, mas prudentemente se omite de acrescentar que as vítimas desses todos, somadas ( e incluindo mortos, presos, torturados e simplesmente incomodados ), não chegam à metade da cifra de pessoas assassinadas por ordem de um só governante esquerdista na URSS em apenas duas décadas. O número total de vítimas da tirania esquerdista, entre China, Rússia, Polônia, Cuba, etc., sobe aliás a 150 milhões de pessoas – quase quatro vezes o total dos mortos da II Guerra Mundial. É preciso ser realmente um perfeito idiota para supor que todo esse morticínio foi apenas um amontoado de desvios acidentais sem qualquer conexão com a ideologia socialista, e que esta se conservou pura e imaculada no céu das essências platônicas, a salvo de toda contaminação da História, tendo agora cacife bastante para se apresentar ao mundo como expressão do mais elevado humanitarismo combatido pelos malvados direitistas.
  5. Sader mente ao dizer que a direita monopoliza os espaços nos meios de comunicação. A verdade é precisamente o contrário: é muito difícil hoje em dia varar a barreira com que o esquerdismo dominante nas redações protege os seus ídolos contra qualquer crítica mais séria que alguém pretenda lhes fazer. Mesmo homens de grande prestígio, na direita, encontram enorme dificuldade para fazer publicar suas palavras. E na TV, quando se organiza um debate, ou simulacro de debate, a esquerda tem sempre direito a pelo menos dois terços das vozes, exceto no canal dos evangélicos. Na imprensa cultural, então, está ainda em pé o Muro de Berlim. Será que Sader já viu, em algum suplemento, resenha de algum livro publicado pela Biblioteca do Exército, pelo Instituto Liberal ou por editora evangélica? E como explicar o silêncio total de que a imprensa cerca os notáveis congressos de filosofia dirigidos em São Paulo por Miguel Reale, no Rio por Tarcísio Padilha, comparado à ruidosa festividade com que celebra oshappenings pseudoculturais em que os srs. Adauto Novaes, Marilena Chauí e tutti quanti gastam com futilidades o dinheiro público? Todo esse policiamento da opinião será obra da direita?
  6. Mais falso ainda é dizer que a direita possui editoras milionárias para divulgar o pensamento neoliberal. É só ler os catálogos das principais editoras – e sobretudo das mais ricas – para ver que o esquerdismo é senhor quase absoluto do mercado editorial, onde defende seu monopólio a dentadas. Obras neoliberais, em geral, só são aceitas para edição quando financiadas pelos autores. E obras propriamente conservadoras – na acepção correta da palavra – simplesmente não existem no mercado editorial brasileiro, o que permite que a esquerda, desinformando o público, explore à vontade a confusão entre neoliberalismo e conservadorismo. O Sr. Sader já viu alguma tradução de Roger Scruton, de Rama K. Coomaraswamy ou de Martin Lings, se é que já ouviu falar deles? Quanto ao aparato editorial do Estado, a única voz divergente no coro unanimitário do esquerdismo que o domina foi a Editora da Universidade de Brasília no tempo do reitor José Carlos de Azevedo. E malgrado o fato de que a série de livros ali publicada fosse celebrada por um Karl Deutsch como uma das melhores coleções de obras políticas já produzidas neste mundo, a coleção foi extinta logo após a saída de Azevedo, o qual até hoje sofre os efeitos do rancor esquerdista nem um pouquinho disfarçado.

O prof. Sader, em suma, junta à completa falta de informação a total carência do desejo de adquiri-la. Ele imagina que com suas leiturinhas vulgares pode julgar a cultura de todo um século, mas é muita areia para o seu caminhãozinho. Ele é como a “España miserable” de Antonio Machado, que “envuelta en sus andrajos desprecia cuanto ignora”. Pretensioso, arrogante, semiculto como em geral o são os membros da intelligentziaesquerdista brasileira, ele só engana a quem deseja ser enganado. Decididamente, ele não veio para explicar, mas para confundir. E, pretendendo contestar o Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, só o que ele consegue é mostrar aos aspirantes o caminho da perfeição.

6 de agosto de 1996

III – Resposta aos fanfarrões amedrontados (3)

Ante a coragem e o heroísmo daqueles que convocam um exército inteiro para atacar um “franco-atirador” e ainda o chamam de covarde, devo observar que os gorilas também batem no peito quando, armados de paus e pedras, reúnem a tribo para cercar um leopardo solitário.

Eu já contava com esse tipo de reação simiesca, por saber perfeitamente com quem estou falando. No prólogo de O Imbecil Coletivo já lhes respondi antecipadamente: “Não tenho a menor dúvida de que este livro terá, numa boa fatia dos ambientes letrados, a recepção-padrão dada a outros tantos livros brasileiros: o completo silêncio quanto ao conteúdo, uma floração majestosa de fofocas e calúnias quanto à pessoa do autor.”

A fúria irracional e o terror pânico mal disfarçados com que essa gente, incapaz de qualquer argumentação séria, busca socorro no velho arsenal dos chavões e frases feitas, é um show de baixeza que não mereceria resposta, se não fosse pelo respeito que é devido ao leitores do JB. É a eles exclusivamente que me dirijo nas linhas seguintes, e não a meus antagonistas. A estes, o tempo responderá: um dia, desejarão antes esconder-se debaixo da terra do que reconhecer a autoria das palavras levianas e insensatas que, sob a inspiração repentina do medo e do ódio, fizeram publicar. Mas será tarde: elas ficarão coladas indelevelmente às suas reputações, como provas daquilo que foi talvez o momento mais infame e obscuro de toda a história da intelligentzia brasileira. Suas declarações, com efeito, constituem um striptease moral: elas revelam ante os olhos escandalizados dos leitores o baixo nível, o fanatismo grosseiro, a completa inépcia e a desonestidade maciça daqueles que são pagos pelo Estado para supostamente desempenhar tarefas de ensino, e que procuram ludibriar o público vendendo como altas obras de inteligência as expressões mal disfarçadas de seus baixos instintos.

Como essa gente pode sempre contar com espaços ilimitados na imprensa, que mal deixa ao direito de resposta cinco linhas de defesa para cada centena concedida ao ataque, quem quer que seja objeto de sua ira coletiva tem de comprar o espaço para defender-se; e quando não tem recursos próprios para fazê-lo e recorre à ajuda de amigos generosos, ainda é acusado perfidamente de “apoiar-se no poder econômico” ¾ para usar a expressão do mais cínico dentre meus detratores ¾, como se o poder de comprar um anúncio pudesse comparar-se ao de desfrutar de jornais inteiros.

Para tentar remediar com algum esclarecimento o esforço conjugado de obscurantismo com que esses militantes do nada emporcalharam a edição de ontem do JB, passo a analisar, com a brevidade requerida pela natureza do caso, as palavras de cada um.

O primeiro que deve ser desmascarado é o editor da página, que, permanecendo confortavelmente anônimo, é no entanto o principal responsável pelo enfoque geral da matéria. É dele, e não de algum dos entrevistados, que provém a rotulação “filósofo auto-intitulado”. Rotulação triplamente mentirosa. Primeiro, porque até 1994 eu me apresentava apenas como “escritor e jornalista”, por força do mero  hábito profissional, e a primeira instituição a me atribuir publicamente a condição de filósofo foi o próprio Jornal do Brasil, nos créditos de um artigo meu publicado no dia 20 de dezembro desse ano. Mais tarde, em artigo assinado por Antônio Fernando Borges no caderno Idéias em 6 de janeiro de 1996, a propósito de meu livro O Jardim das Aflições, o JB voltou a me apresentar como filósofo, ressaltando aliás minha superioridade em relação àqueles que denominava “philosophes de plantão” ( referência óbvia e pejorativa àquela mesma classe de pessoas que agora o jornal trata como divindades intangíveis ) e destacando minhas qualidades de “erudição generosa e busca permanente de clareza e honestidade intelectual”. Deste modo, se agora o JB pretende fingir que são auto-atribuídos o estatuto profissional e os méritos que ele mesmo me atribuiu, isto só demonstra a sua falta de memória e a volubilidade de suas opiniões, apressando a queda vertiginosa de seu crédito ante os leitores.

Em segundo lugar, a rotulação é falsa, porque nas páginas do mesmo Jornal do Brasil de anteontem, respondendo ao jornalista Paulo Roberto Pires, que atribuía a meu livro frases que nele não constavam, eu já havia explicado: “Não me autodenomino coisa nenhuma, nem poderá o Pires assinalar uma única página d’O Imbecil Coletivo onde eu o tenha feito. Sou assim denominado pela Academia Brasileira de Filosofia ¾ onde acabo de ser publicamente homenageado nessa condição ¾, pelo Instituto Brasileiro de Filosofia, pela Faculdade da Cidade, pela Universidade Católica do Salvador.” O JB tinha evidentemente o direito de averiguar, em consulta a essas instituições, a procedência de minha afirmativa, mas não o direito de dá-la arbitrariamente como falsa e repetir a rotulação caluniosa como se jamais tivesse sido desmentida.

Em terceiro lugar, a rotulação é falsa porque a condição de filósofo não se adquire nem por auto-atribuição nem por nomeação de terceiros, muito menos por decreto do Estado, mas pela natureza mesma da atividade que se desempenha, a qual, no meu caso, pode ser comprovada mediante simples consulta a meus livros publicados, principalmente Uma Filosofia Aristotélica da Cultura ( a ser brevemente reeditado pela Topbooks ) e O Jardim das Aflições ( Rio, Diadorim, 1996 ). Sendo assim, minha condição de filósofo é simplesmente um fato, não um valor a ser afirmado ou negado com nuanças emocionais de um patetismo ridículo. Se sou mau ou bom filósofo, grande ou pequeno, o tempo dirá. Mas não é preciso esperar pela passagem do tempo para perceber que a denominação de filósofo é injusta e absurda quando aplicada a autores de meros livros de divulgação, como Leandro Konder. Pois filósofo, por definição, é quem filosofa, é quem elabora, bem ou mal, uma resposta pessoal a questões filosóficas, ou pelo menos uma interpretação original de filosofias antigas ( como fiz no meu livro sobre Aristóteles ), e não quem simplesmente escreve sobre esta ou aquela filosofia, repetindo ou trocando em miúdos o que seus filósofos prediletos disseram, coisa que no máximo daria direito à condição de historiador, de ensaísta, de professor ou de jornalista cultural. Só para estabelecer uma comparação didática, o estatuto de um Konder ou o de um Adauto Novaes não é o mesmo, nesse sentido, que o de um José Arthur Gianotti, que pode não ser um bom filósofo mas é inegavelmente um filósofo, pois desde seu primeiro livro mostra um esforço de elaboração pessoal, original, que caracteriza de maneira inequívoca a atividade filosófica. Esta distinção é elementar, é óbvia e é universalmente reconhecida, e por isto dá uma mistura de pena e vergonha ter de repeti-la, com paciência de professor primário, a pessoas que são pagas pelo Estado justamente para ensinar esse gênero de coisas, bem como a um jornalista que, no cargo de editor, teria a obrigação de saber escrever e de usar as palavras no seu justo sentido.

A rotulação infamante, reproduzida na primeira página, revela um intuito bastante desonesto da parte dos responsáveis pela matéria. E tão perverso foi o espírito que a produziu, que até mesmo minha condição de jornalista autônomo, que é a simples definição legal do meu estatuto profissional ante o INPS e ante o trono do Altíssimo, teve de vir relativizada e posta em dúvida por irônicas aspas. Nada, mas absolutamente nada na ética jornalística justifica esse tipo de abuso, que menos ofende a mim do que desrespeita o leitor.

Para completar, o jornal mente da maneira mais escandalosa ao dizer que publiquei um anúncio pago com minha resposta a Paulo Roberto Pires. Sou um homem pobre, não teria dinheiro para um anúncio de carro usado, quanto mais para um tijolaço em seis colunas. Quem publicou o anúncio foi a Academia Brasileira de Filosofia, renovando seu reconhecimento público de minha condição de filósofo e acrescentando-lhe a homenagem de tomar a iniciativa de minha defesa, coisa que muito me honra e que torna ainda mais despropositado o uso que o jornal fez da expressão “auto-intitulado”. O JB, novamente, poderia ter verificado a procedência do anúncio mediante simples consulta aos arquivos de sua própria contabilidade. Mas, diante de certos jornalistas que da profissão não conhecem nem o bê-a-bá, seria pedir demasiado esperar que tivessem essa elementar precaução de honestidade. E a um editor que tem preguiça até mesmo de consultar o arquivo da redação para ver as matérias de 1994 seria demasiado esforço descer mais um andar para ir até a contabilidade, não é mesmo?

Mas o editor não é o único responsável pela porcaria. Os repórteres também entram nisso. Nada tenho a reclamar de Polyanna Torres, que me entrevistou por telefone e reproduziu oralmente minhas declarações de maneira fidedigna, só para vê-las depois brutalmente cortadas por um editor e reduzidas a frases soltas e sem qualquer encadeamento. É o destino de todos os repórteres. Dou só um exemplo de frase perversamente editada. Tendo Polyanna me perguntado, segundo a pauta que recebera, com base em que direito eu criticava os figurões do establishment intelectual local, respondi: “Com base num direito constitucional elementar. Não cabe a mim explicar com que direito os critico, mas eles é que têm de explicar de onde tiraram a idéia de que têm o direito de não ser criticados nunca.” Polyanna releu esta frase em voz alta e eu a confirmei. Nas mãos do editor, ela se tornou: “Eu não tenho que explicar por que critico tanta gente, eles é que têm de explicar por que não podem ser criticados.” É coisa substancialmente diferente: procura dar a impressão de que me dispenso de justificar minhas críticas, quando eu disse apenas que o direito de criticar é óbvio e que pô-lo em dúvida é arrogar-se um estatuto divino ( coisa aliás bem ao feitio dos manipanços intelectuais que já Lima Barreto, em seu tempo, satirizava ). Isso não é editar: é, manifestamente, distorcer.

Quanto a Cristiane Costa, não digo nada, pois não sei o que fez ou o que não fez no presente caso.

Mas o Sr. André Luiz Barros, que também assina a matéria, foi extremamente desonesto ao posar de mero relator da contenda, sem informar ao público que era também personagem e parte interessada na disputa, tendo aproveitado a ocasião para dar-me um tapa com mão alheia, escondendo-se covardemente atrás dos nomes dos entrevistados. Pois ele é objeto de uma grave denúncia feita em O Imbecil Coletivo:  relatando uma conferência que diz ter ouvido do prof. Gerd Bornheim, ele escreveu, na edição do JB de  28 de setembro de 1995, que Michel de Montaigne influenciou grandemente o pensamento do século 15 ( Montaigne nasceu no século seguinte ) e que as viagens de exploração colonialista terminaram ( em vez de começar ) no século 16. Em artigo publicado em O Globo, depois reproduzido no livro, exigi de Bornheim e do repórter que explicassem ao público qual dos dois era responsável por tamanhos disparates, inaceitáveis num aluno de ginásio, quanto mais num catedrático e num ( direi auto-intitulado? creio que nem isso ) jornalista cultural. Barros, escondido no seu canto, não deu um pio, e Bornheim fingiu indignação para não ter de descer do pedestal aonde supunha ter-se elevado por não sei quais glórias, e prestar satisfações ao público que o sustenta. Mas vejo que Barros guardou seu rancor, aguardando a oportunidade, que agora lhe sorriu, de usar novamente o nome de Bornheim, acompanhado de alguns outros, para através deles obter uma vingancinha tardia que só revela a mesquinhez do seu espírito. Não sei se Bornheim, tendo preferido uma vez acusar o cobrador para não ter de pagar uma dívida ou de desmascarar o intrujão que a contraíra em seu nome, vai permitir que a farsa se repita.

Como se não bastasse a malevolência do editor, o time dos entrevistados, todo ele constituído, com uma única exceção, de pessoas criticadas no meu livro, entrou em campo em ordem unida, para repetir em coro fielmente, letra por letra, aquelas rotulações de praxe que, na primeira página do meu livro, são satirizadas no “Formulário-padrão para a redação de críticas a O Imbecil Coletivo”. Nem seria de esperar que cérebros tão mecanizados produzissem respostas mais inventivas. O livro foi escrito justamente para mostrar que essas pessoas pensam assim, se é que isso é pensar, e elas se apressaram a dar à tese de O Imbecil Coletivo uma prova mais patente do que ela poderia desejar. Os tópicos mais votados, nos quadradinhos da múltipla escolha, foram que sou um reacionário, que desejo aparecer e que estou a serviço de interesses empresariais.

Mas vamos por partes. Na matéria consta que ataquei o prof. Emir Sader, na edição de anteontem, “por suas posições de esquerda”. É falso: não ataco ninguém pela sua adesão a esta ou àquela ideologia, mas por sua maneira desonesta de defendê-la. Emir Sader tinha dito que a esquerda era autora do que de melhor produziu a inteligência humana no século XX, e uma simples relação dos nomes célebres das artes, da ciência e da filosofia nesse período basta para demonstrar a absurdidade completa dessa pretensão.

É uma maneira torta e doente de ver as coisas afirmar que critico as pessoas por serem intelectuais de esquerda. Sou do tempo em que existiam intelectuais de esquerda, sei reconhecer um quando o vejo e por isto mesmo sei que é coisa que hoje em dia não existe mais. Intelectual de esquerda era José Honório Rodrigues, era Ênio Silveira, era Caio Prado Jr., era Otto Maria Carpeaux. Hoje o único sobrevivente dessa espécie em extinção é Alfredo Bosi ( Antônio Cândido está desativado, parece ). Pretender nos impingir Emir Sader e Muniz Sodré como intelectuais de esquerda é simplesmente um caso para a Delegacia do Consumidor. Imagino se Ênio, ou José Honório, criticados justa ou injustamente, iriam se fazer de donzelas ofendidas e responder com chavões idiotas, em vez de analisar com meticulosa honestidade as afirmações do crítico, para impugná-las, se cabível, no campo da lógica e da argumentação culturalmente relevante, exatamente como fiz com as opiniões de Pires e de Sader. Imagino se Caio, ou Otto, em vez de se defender sozinhos como os bravos homens que eram, iriam correr como pintainhos assustados para se abrigar sob as asas da solidariedade corporativa, como hoje o fazem esses pobres coitados. Não, não censuro um Sader, um Muniz Sodré, por serem intelectuais de esquerda, mas justamente por não o serem; por serem apenas as tristes caricaturas de uma família cultural que já teve entre seus membros algumas das mais altas expressões da inteligência pátria.

Mas o prof. Sader, apelando ao direito de não responder, responde. É mais uma expressão da lógica singular que o caracteriza. “A direita usa o discurso da ordem, da nova ordem mundial”, diz ele. Bem, pergunto: E eu com isso? Puxando a discussão para esse campo e dando por pressuposto, com o automatismo intelectual de um mongolóide, que quem quer que o critique deve ser um apologista da nova ordem mundial ( como se ele mesmo fosse a máxima encarnação viva da tendência contrária ), Sader vai parar muitos metros longe do alvo que visava. O que eu tinha a dizer contraa nova ordem mundial, e que é bem mais interessante do que tudo que uma esquerda de miolo mole vem repetindo, está dito nos capítulos finais de O Jardim das Aflições, que uma esquerda sensata leria com atenção, porque lhe fariam bem. Mas o prof. Sader ignora isso, como ignora quase tudo o mais sobre o que fala. Quem quer que lhe pareça antipático ele manda imediatamente para a direita, e estamos conversados. “É de direita” é o argumento terminal em qualquer debate, e na verdade é o único que o prof. Sader conhece para resolver todas as questões, seja de ordem sociológica, aritmética ou sentimental.

Leandro Konder, que retransmite fielmente a mesma estação, só precisou apertar o botão do gravador para ficar repetindo: É de direita, é de direita, é de direita. Isto parece, de fato, responder a tudo.

Mas Leandro, também, não foi criticado no meu livro por ser de esquerda, e sim por ter escrito, com todas as letras, que a veracidade de uma idéia vale menos do que o número de seus adeptos, opinião que não é em si essencialmente de esquerda ( já que é tradução de Goebbels ), mas é de uma estupidez de rachar. Falar contra a direita, genericamente, para não ter de responder a críticas rigorosamente exatas sobre pontos determinados, é pura manobra diversionista. Mas também de Leandro nunca esperei outra coisa.

Sabonete por sabonete, no entanto, ninguém foi mais escorregadio do que o prof. Muniz Sodré, que, após terem seus colegas puxado a discussão do campo da ética intelectual para o das generalidades ideológicas, deu um giro ainda mais espetacular e desviou o debate do terreno da ideologia para o da sexologia, questionando a masculinidade de seu crítico, com a frase memorável: “Ele não deve ser nem homem”. Confesso não ter entendido bem o vínculo de implicação recíproca que esse machista enragé enxerga entre a virilidade papuda e as opiniões corretas, ficando os pobres gays e lésbicas ( entre os quais até eu, porca miséria ) com o monopólio do erro. Mas, em todo caso, a prova de masculinidade que sua sentença me exige é coisa que não posso lhe fornecer em público, porque não ficaria bem nem para mim nem para ele, por mais que ele a deseje. Em conclusão, mudemos de assunto, a bem da moralidade, enquanto fica no ar a dúvida sobre o que terá querido dizer esse sujeito quando, após ter em público essa reação patentemente hidrófoba, declara, com a maior inocência fingida, que o raivoso sou eu.

Mas se a questão da masculinidade relativa dos contendores é de interesse antes da Justiça Penal do que do jornalismo, o que o prof. Sodré diz de José Guilherme Merquior deve, sim, ser desmascarado aqui mesmo: é uma pouca vergonha que a classe unida dos pretensos intelectuais de esquerda, que em vida de Merquior fez o diabo para enlamear a reputação do grande ensaísta, procure usá-la como arma retórica contra mim, agora que ele está morto e já não pode denunciar, como certamente haveria de fazê-lo, essa descarada apropriação indébita do seu prestígio.

Foi ainda uma safadeza do jornal publicar que ataquei Muniz num capítulo “sobre uma tal ciência das galinhas pretas”, dando a entender que sou o inventor dessa ciência, quando é público e notório que, de nós dois, é Muniz e não eu o pai-de-santo e, logo, o especialista em galinhas pretas, embora possa recorrer também às brancas ou carijós, conforme o exu de que se trate no caso, segundo suponho na minha ignorância desses assuntos. Que fique portanto por conta do Muniz o trato ritual com os galináceos, enquanto eu me limito ao método, muito mais econômico, de solicitar apenas a proteção da graça de N. S. Jesus Cristo.

Também devo fazer uma nota de rodapé à afirmativa de Muniz de que sou um covarde porque me apoio no poder econômico. Sou um covarde que enfrenta sozinho uma classe unida, disciplinada e fortemente escorada na mídia, como se vê pelo próprio teor da reportagem aqui discutida. E enxergar por trás de mim um poder econômico é paranóia de adolescente esquerdista hipnotizado por histórias de investigações espetaculares tipo O Caso Mattei. Se a prova do misterioso poder econômico a que se refere Muniz consiste no anúncio acima referido, já disse que eu não teria jamais dinheiro para pagá-lo e estou muito grato à Academia, que tornou menos desigual a luta entre um “franco atirador” e o exército inteiro de uma classe solidamente amparada no apoio da imprensa inteira. Se Muniz se refere aos anúncios de meus cursos, publicados pela Faculdade da Cidade, ele teria o dever de saber, e talvez saiba mesmo embora finja que ignora, que a Faculdade anuncia todos os cursos que lá se realizam e faria o mesmo se o curso fosse de Muniz Sodré ou de qualquer outro. Movido pela inveja e pelo rancor, Muniz supõe que a galinha do vizinho é sempre mais gorda ( as galinhas, sempre as galinhas! ), e sua imaginação infla a pobre ave até transformá-la numa conspiração do capitalismo internacional. Se fica feio fazer em público uma demonstração de masculinidade, posso no entanto fazer uma de pobreza, mediante simples exibição de minhas declarações de rendimentos, onde, garanto, Muniz não terá nada a invejar.

Quanto ao prof. Dória, confessou não ter lido O Imbecil Coletivo, e quem o entrevistou se omitiu de lhe informar que o livro trazia, em doses proporcionais, tanto críticas quanto elogios ao seu trabalho. Enganado por um truque sujo, supôs-se atacado e defendeu-se de maneira até mesmo elegante, pela qual o parabenizo, como já o parabenizei pelo seu estudo sobre as famílias poderosas. Não, prof. Dória, o senhor não é um “ninguém”, como diz. Ao contrário de tantos de seus colegas de academia, o senhor é alguém e se tornará maior ainda se prosseguir naquela linha de humildade do homem que se supera pelo esforço científico, como já afirmei no meu livro. Quanto ao destino que o senhor daria ao dinheiro do anúncio, isto fica entre o senhor e a Academia Brasileira de Filosofia, pois, repito, não paguei o anúncio. Mas que tal comprar um pacote de exemplares d’O Imbecil Coletivo e distribuí-lo às pessoas que já opinaram a respeito?

Bruno Tolentino, por fim, tentou falar algo em meu favor, sem prever, naturalmente, que o jornal poderia dar a suas palavras um sentido muito diverso do que ele pretendia. O que Bruno diz, o que ele tem repetido a quantas orelhas o escutem, é que até 1994 prossegui meu trabalho de maneira discreta, retirado da agitação da mídia e sem procurar obter o menor reconhecimento público, por ser um homem indiferente a essas coisas e totalmente envolvido nas minhas ocupações de escritor, professor e ( com o perdão da palavra ) filósofo; ele diz, ademais, que foi ele quem me convenceu a sair da toca e publicar O Jardim das Aflições, que até então circulava só internamente em meus cursos como apostila, e sobretudo as notas que vieram a formar O Imbecil Coletivo. Ele diz essas coisas há tempos e elas são a pura verdade. Reconheci isso explicitamente no prólogo de O Jardim das Aflições. Mas as afirmativas de Tolentino mostram o óbvio: que sou tão indiferente à publicidade do meu nome que permaneci escrevendo somente para meus alunos por duas décadas e só saí da toca por instigação de um amigo. Ora, o JB conseguiu torcer suas palavras ao ponto de lhes dar um sentido perverso como denunciadoras de minha suposta “estratégia” de criar barulho em torno do meu nome, quando o que Tolentino está dizendo, com razão, é que quem começou o barulho foi ele.  Eis como, na mão de certos profissionais da imprensa, cada fato se transforma no seu contrário.

Não vejo por que corrigir outras inexatidões e perversidades menores, de que a matéria do JB está cheia. Examiná-las todas seria longo, fastidioso e desnecessário, pois uma reportagem que tem tão pouca credibilidade no conjunto não há de tê-la maior nos detalhes.

Fica apenas a pergunta, para mim profundamente enigmática: por que se concede uma capa inteira de segundo caderno, com chamada na primeira página do jornal, só para dizer que um sujeito é um bobalhão sem importância nenhuma? 

IV – Opera Omnia Emiris Saderis

  1.  Nelson Mandela (organization) – Ed. Revan
    2.       A opção brasileira – (colaborador) – Ed. Contraponto – Rio de Janeiro
    3.       Vozes do Século (organization) – Ed. Paz e Terra – São Paulo
    4.       Poder, cadê o poder? – Ed. Boitempo – São Paulo
    5.       Cartas a Che Guevara – O mundo trinta anos depois – Ed. Paz e Terra, São Paulo
    6.       Anjo torto – Esquerda (e direita) no Brasil – Ed. Brasiliense – São Paulo
    7.       Pós-neoliberalismo – As políticas sociais no Brasil – (organization) – Ed. Paz e Terra – São Paulo
    8.       O mundo depois da queda (organization) – Ed. Paz e Terra – São Paulo
    9.       Karl Marx – Bibliografia (organization) – Programa de Pös-graduação do Departamento de Sociologia – FFLCH – USP – São Paulo
    10.   Estado e política em Marx – Cortez Editora – São Paulo
    11.   Idéias para uma alternativa de esquerda à crise brasileira (organization) – Ed. Relume-Dumará – Rio de Janeiro
    12.   Cuba, Chile, Nicarágua – O socialismo na América Latina – Ed. Atual, São Paulo
    13.   Governar para todos – Ed. Brasil Urgente – São Paulo
    14.   Por que Cuba? (organization) – Ed. Revan – Rio de Janeiro
    15.   A transição no Brasil: da ditadura à democracia – Ed. Atual – São Paulo
    16.   Without Fear of Being Happy – Ed Verso – Londres
    17.   Chile (1818-1990) – Da independência à redemocratização – Ed. Brasiliense – São Paulo
    18.   Socialismo humanista do Che (organization et introduction) – Ed. Vozes – Petrópolis
    19.   Gramsci: poder, política e partido – (organization et introduction) – Ed. Brasiliense – São Paulo
    20.   Fogo no Pavilhão – Ed. Brasiliense – São Paulo
    21.   Movimentos sociais na transição democrática (organization) – Cortez Editora – São Paulo
    22.   E agora, PT? (organization) – Ed. Brasiliense – São Paulo
    23.   Fidel Castro (selection et introduction) – Ed. Atica – São Paulo
    24.   A revolução cubana – Ed. Moderna – São Paulo
    25.   Constituinte e democracia no Brasil hoje (organization) – Ed. Brasiliense – São Paulo
    26.   Democracia e ditadura no Chile – Ed. Brasiliense – São Paulo

 

Notas

(1) Publicado como matéria paga pela Academia Brasileira de Filosofia no Jornal do Brasil de 7 de setembro de 1996.

(2) Publicado no Jornal do Brasil de 2 de setembro de 1996.

(3) Carta enviada ao Jornal do Brasil, que, até o momento em que este livro entrava em impressão, não deu o menor sinal de desejar publicá-la.

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