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O olho direito Olavo de Carvalho
John Duns Scot (c.1266-1308) dizia que a verdade, o bem e a unidade (portanto também a beleza, tradução sensível da unidade) eram no fundo a mesma coisa. Seus contemporâneos chamavam-no o Doutor Sutil, mas com o tempo ele deve ter ficado mais sutil ainda, porque hoje essa fórmula, Unum, Verum, Bonum, se tornou coisa incompreensível e supremamente esquisita para a maioria dos intelectuais. Afinal, a experiência mais geral e constante sob a qual nasceram e cresceram todas as gerações pensantes desde a metade do século XIX foi, precisamente, a daquilo que Max Weber diagnosticou como ruptura entre as esferas de valor: o bem podia ser falso, a beleza podia ser má, e assim por diante. Do satanismo explícito de alguns dos versos mais perfeitos de Baudelaire até a mentira estetizada do cinema nazista e comunista, tudo parecia dar razão a Weber e sugerir que o Doutor Sutil tinha exagerado na sutileza. Tal foi o sentimento inconfundível que corroeu o otimismo progressista da modernidade e acabou por se consagrar como um dogma da pós-modernidade. Não há valores eternos, muito menos coerência entre eles. John Duns Scot tornou-se estranho e deslocado entre nós como um megatério numa espaçonave. No entanto, resta o fato de que, se nada apreendêssemos de comum entre os valores supremos, não poderíamos sequer perceber os conflitos que os separam na experiência real. Acostumados à amoralidade do belo, nada veríamos de chocante no fato de que as apologias cinematográficas de Hitler e Lênin, construídas por Leni Riefenstahl e Serguei Eisenstein, nos induzem a adorar como se fossem arquétipos celestes dois psicopatas assassinos. Ao emergir do sonho, não nos sentiríamos vagamente deprimidos, como na ressaca de um gozo ilícito. E o fato é que nos sentimos exatamente assim sempre que percebemos o abismo entre os valores morais que proclamamos e o inegável prazer que experimentamos ante a sua destruição artística. No caso de Eisenstein, essa depressão "post coitum" é atenuada pelo fato de que a mentira comunista, embora desmoralizada em teoria, ainda está em circulação no mercado dos analgésicos da consciência. Mas que fazer diante de Leni Riefenstahl? Nenhum floreio dialético, nenhum lobby jornalístico, nenhuma mitologia convencional vem em nosso socorro. Nada, nada pode nos fazer esquecer a brutalidade da ideologia nazista. Não obstante, as imagens de O Triunfo da Vontade desativam, num instante, nossas precauções morais, e nos arrastam irresistivelmente para uma deleitação que, enquanto dura, não nos parece obscena de maneira alguma. Só quando a tela se apaga e as luzes da sala nos devolvem à pesada tridimensionalidade da vida de todos os dias é que nos ocorre lembrar que também o Maníaco do Parque, no clímax de suas ações homicidas, não sentia estar fazendo mal nenhum... Nesse instante, o abismo entre o delicioso e o certo se abre diante da nossa consciência como dado da experiência - direto, evidente, inegável. No entanto, se no fundo de nós algo não resistisse tenazmente a essa evidência, ela não nos doeria. Aceitaríamos a beleza do mal como se fosse a coisa mais natural do mundo. Mas neste caso a atração mesma que exerce sobre nós o cinema de Eisenstein ou de Leni Riefenstahl seria bastante atenuada. Sem a tensão entre a moral e a estética, a estética perderia muito de seu interesse. Ela seria apenas a manifestação sensível de valores óbvios, dissolvidos num hábito corriqueiro. Essa tensão, ao que parece, é inextinguível. Tão inextinguível quanto o conflito weberiano do bem e do belo e de ambos com o verdadeiro. O fato mesmo de estarmos discutindo o problema neste número de Bravo! comprova que é um problema. De nada adianta o cinismo pós-moderno tentar anestesiar nossa percepção do conflito, fazendo do abismo entre os valores uma banalidade, um dado inócuo do cotidiano. Podemos até achar essa teoria interessante, discuti-la em círculos universitários, conquistar aplausos escrevendo sobre ela. Mas não podemos viver dela. Não podemos crer nela. Sabemos que ela só vale no ambiente postiço da intelectualidade acadêmica, não na vida real. Pois na vida real ela equivaleria a achar Auschwitz e o Gulag coisas irrelevantes, indignas do mínimo espanto. E por essa lógica acabaríamos elegendo o Maníaco do Parque presidente da República. Não, não podemos abdicar da tensão entre os valores. Vemos que o conflito está aí, mas não o aceitamos. Não o aceitamos, mas não conseguimos sair dele. Porém, se a tensão é inextinguível, então provavelmente é ela o dado constante por trás do acordo ou desacordo, acidentais e transitórios, entre as esferas de valor. Sim, às vezes a verdade é bela, às vezes é feia; às vezes o belo é bom, às vezes mau. Não conseguimos estabilizar-nos em nenhuma das duas pontas da alternativa, nem reduzi-las a uma terceira fórmula, dialeticamente apaziguadora. Vivemos na tensão entre os extremos: entre a divisão inextinguível e a unidade indispensável. Entre Weber e Duns Scot. Tentar anestesiar a consciência dessa tensão é eliminar o sentido do conflito e, com ele, os perfis mesmos dos valores conflitantes. É buscar num torpor imbecil o refúgio contra um sofrimento que nos enobrece e vivifica nossa inteligência. Aceitar a tensão entre a unidade e a divisão é a condição essencial para uma vida que mereça o título de "humana". Mas o humano, se é definido por essa tensão, não tem existência por si e fora dos termos que a balizam. Ser humano é estar entre o sub-humano e o supra-humano, entre a divisão irrecorrível e a unidade inalcançável. Só que, nesse par, os termos não estão no mesmo plano. Sem a unidade, a divisão mesma seria inconcebível, mas a recíproca não é verdadeira. Se o bom, o belo e o verdadeiro não se atraíssem eternamente, não poderiam repelir-se de vez em quando. Mas não precisam repelir-se de vez em quando para atrair-se desde sempre. A alternativa entre Weber e Duns Scot resolve-se, assim, numa distinção de planos. Weber fala da história, dos fatos que vão e vêm. Scot fala da moldura eterna sem a qual esses fatos não poderiam nem mesmo ser percebidos. Podemos enxergar o conflito histórico do bem, do belo e do verdadeiro porque sabemos que há algo para além da dimensão histórica. História sem meta-história é um buraco na água. Se aderimos ao "historicismo absoluto" do maldito Antonio Gramsci, a percepção mesma do conflito entre as esferas de valores some. Resta apenas uma agitação de piolhos em luta por dinheiro, por sexo, por um cargo público. E aí já não há mais nada de errado com o cinema de Eisenstein e Leni Riefenstahl. Muitos brincam, hoje, com essa hipótese, mas fazem-no apenas porque sabem que, se ela se realizar, não estarão vivos e conscientes para percebê-la. São apóstolos da extinção, neoniilistas. Por isto, diante da glorificação cinematográfica do mal, o abismo entre moral e estética já não lhes dói na consciência, mas lhes infunde um estranho prazer redobrado. A ruptura definitiva entre os valores, a dissolução no mar do esquecimento, a abolição do conflito "por baixo" é o seu ideal. "Non raggionam di lor, ma guarda e passa." Mas há também uma saída "por cima". Está na Bíblia, em Mateus 5:29: "Se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti." O olho corporal é a visão dos fatos no seu vaivém, em oposição complementar ao "olho do coração" voltado para o essencial e eterno. Portanto, se algum dia a consciência da oposição entre o histórico e o supra-histórico, esticada até o limite, se tornar dolorosa demais, insuportável, superior às suas forças, escolha resolutamente o supra-histórico. Entre Weber e Scot, fique com Scot. Antes ignorar o que se passa do que se tornar eternamente cego para o que não passa.
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