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Em louvor de Lula

Olavo de Carvalho
Dirio do Comrcio, 17 de setembro de 2015

          


Um dos mitos preferidos da cultura americana o de que a Reforma protestante foi uma das fontes principais da liberdade religiosa, dos direitos individuais e da proteo contra os abusos de um governo central. Some-se a isso a falsa crena weberiana (ou semiweberiana) de que a “tica protestante” gerou o capitalismo, e a nica concluso possvel que o cidado de hoje em dia deve a Lutero e Calvino, no fim das contas, praticamente todos os benefcios legais, polticos e econmicos de viver numa democracia moderna.
Mas tudo isso propaganda, no Histria.
Desde logo, a supresso da autoridade poltica da Igreja – um dos objetivos declarados da Reforma, que nisso concordava perfeitamente com Maquiavel – liquidava toda mediao espiritual institucionalizada entre o governo e o povo, reduzindo a sociedade a um campo de disputa entre duas foras apenas: de um lado, uma poeira dispersa de conscincias individuais com suas crenas subjetivas infindavelmente variadas e variveis; de outro,  a vontade de ferro do governante, consolidada na doutrina da “Razo de Estado”, necessidade incontroversa qual ningum podia se furtar.
No preciso dizer qual dessas duas foras acabou por prevalecer. O clssico estudo de Bertrand de Jouvenel, Du Pouvoir, Histoire Naturelle de sa Croissance (1949), demonstrou de uma vez por todas que o crescimento do poder do Estado, com a consequente atrofia das liberdades individuais, a mais ntida constante da Histria ocidental moderna, pouco importando se falamos de “democracias” ou de “ditaduras”.
Mesmo na mais louvada das democracias, o Estado hoje o mediador e juiz soberano de todas as aes e relaes humanas, at as mais particulares e ntimas, com uma sanha controladora e uma prepotncia invasiva desconhecidas em todas as sociedades anteriores – com uma nica exceo, a ditadura de Joo Calvino em Genebra, o que no de maneira alguma uma coincidncia.
A experincia tem provado que os direitos e garantias individuais, assegurados verbalmente na Constituio americana e no Bill of Rights, nada podem contra a expanso avassaladora dos controles burocrticos amparados numa complexa tecnologia, mesmo no caso em que estes se voltam patentemente contra os interesses nacionais mais bvios, como o caso de tantas medidas do governo Obama.
No cabe sequer alegar que essa exaltao abusiva do poder estatal foi apenas – para usar a expresso de Weber – um “resultado impremeditado” da Reforma, j que Lutero, a contrapelo da doutrina tomista que proclamava o direito de rebelio contra injustias em geral, advogava ostensivamente a submisso total e incondicional dos cidados ao governante, admitindo a revolta s no caso especfico de o Estado interferir em questes de religio.
Essa dupla exigncia – a submisso integral ao Estado e a abstinncia deste em matria religiosa – forma o perfil claro do “Estado laico” moderno, onde necessariamente o argumento religioso perde toda fora contra a racionalidade “neutra” da vontade estatal e acaba sendo banido do cenrio poltico, quando no de toda a vida pblica.
O processo culmina no “politicamente correto”, onde qualquer desejinho sexual, por mais vulgar e tolo, se cobre da proteo legal de um tremendo aparato repressivo e se coroa de um prestgio intocvel, beatificante, superior aos mais altos valores morais da religio.
Por uma ironia alis bastante compreensvel, as igrejas protestantes sofrem as consequncias disso tanto quanto ou mais que a catlica, qual hoje tm de se juntar num front comum para fazer face a perigos temveis que nunca teriam chegado a existir sem a ajuda solcita de Lutero e Calvino.
Em pginas memorveis da sua History of Political Ideas, vol. IV (22 das Collected Works), Eric Voegelin, alias ele prprio um luterano, explica que nem o monge de Wittemberg nem o doutrinrio genebrino compreendiam as grandes questes polticas nas quais interferiam ousadamente com sua boa conscincia de “eleitos”.
O lado catlico, representado no s pelo Vaticano como mais diretamente pelo polemista antiluterano Johann Eck (1486-1543), no as compreendia tampouco, donde resultou uma herana de confuses inextricveis nas quais at hoje nos debatemos.

 



 

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