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Por linhas tortas

Olavo de Carvalho
Dirio do Comrcio, 30 de abril de 2015

          


Na vasta bibliografia sobre temas nacionais, especialmente a assinada por autores de esquerda, no h tpico mais abundantemente estudado, explorado, revirado de alto a baixo, do que “a revoluo brasileira”. Perdo. com maisculas: Revoluo Brasileira.
Livros com esse ttulo, ou com essa expresso no ttulo, foram produzidos por Nelson Werneck Sodr, Franklin de Oliveira, Octvio Malta, Celso Furtado, Pessoa de Moraes, Guerreiro Ramos, Azevedo do Amaral, Jamil Almansur Haddad, Florestan Fernandes, Moiss Vinhas, Danton Jobim, Hlio Silva, Jos Maria Crispim, Celso Brant e uma infinidade de outros, sem contar aqueles, muito mais numerosos, que trataram do mesmo assunto sem ostent-lo no ttulo. 
Pode parecer estranho o interesse quase obsessivo por esse fenmeno num pas que no atravessou nenhuma experincia comparvel s revolues da Frana, da Amrica, da Rssia, da Espanha ou mesmo do Mxico, limitando-se a nossa sanha revolucionria, a escaramuas locais com derramamento de sangue relativamente modesto no ranking internacional.
No entanto, a referncia naqueles ttulos no a nenhum episdio histrico em particular, grande ou pequeno. “Revoluo brasileira”, na acepo geral que o termo assumiu numa longa tradio de “interpretaes do Brasil”, designa algo como um rio que flui, uma histria inteira, um processo intermitente na superfcie, contnuo no fundo.
Na verdade, no houve um nico grande acontecimento histrico que se pudesse chamar “Revoluo Brasileira”. a srie inteira dos pequenos que leva esse nome, designando uma inteno, uma teleologia simblica subjacente a todos eles: o processo pelo qual o povo, inicialmente um bando de desgarrados e escravos mantidos em obedincia estrita sob o peso de uma clique de altos funcionrios e senhores de terras (mais tarde banqueiros e capites de indstria), vai aos poucos emergindo de um estado de passividade abjeta para tentar se tornar o senhor e autor da sua prpria Histria, sempre com sucesso inferior s suas mais ambiciosas expectativas, e por isso mesmo fadado a repetir a tentativa de novo e de novo, em escala um pouco maior.   
Contra quem se volta precisamente esse processo? Qual a “classe dominante” que se tenta remover de cima para dar espao iniciativa popular? As tentativas de defini-la em termos do marxismo ortodoxo, como “burguesia capitalista exploradora do proletariado”, falharam miseravelmente, tal a mngua de proletrios e burgueses num pas de poucas indstrias, onde a burguesia industrial s conseguiu ela prpria algum espao quando carregada no colo pela ditadura estatista, semifascista, de Getlio Vargas.
Na verdade, os autores marxistas no conseguiram sequer entrar num acordo quanto s etapas iniciais e mais remotas do processo, anteriores Independncia, uns falando de “feudalismo”, outros de “capitalismo rural”, outros, ainda, propondo a teoria de uma formao socioeconmica sui generis, alheia s categorias usuais do marxismo, o “escravismo colonial”.
Quem melhor definiu o vilo da histria, a meu ver, foi Raymundo Faoro, no clssico Os Donos do Poder. Formao do Patronato Poltico Brasileiro (Globo, 1958; ainda prefiro a primeira edio verso reescrita de 1974, mais volumosa).
Partindo de noes obtidas em Max Weber, Faoro redefinia a ndole e os objetivos da Revoluo Brasileira em termos mais adequados realidade do que qualquer marxista teria podido fazer no lugar dele. E eu no conseguiria resumir sua tese com mais exatido do que o fez Fbio Konder Comparato (leia aqui):
            “Para Raymundo Faoro, a sociedade brasileira – tal como a portuguesa, de resto – foi tradicionalmente moldada por um estamento patrimonialista, formado, primeiro, pelos altos funcionrios da Coroa, e depois pelo grupo funcional que sempre cercou o Chefe de Estado, no perodo republicano. Ao contrrio do que se disse erroneamente em crtica a essa interpretao, o estamento funcional governante, posto em evidncia por Faoro, nunca correspondeu quela burocracia moderna, organizada em carreira administrativa, e cujos integrantes agem segundo padres bem assentados de legalidade e racionalidade. No se trata, pois, daquele estamento de funcionrios pblicos encontrvel nas situaes de ‘poderio legal com quadro administrativo burocrtico’ da classificao weberiana, mas de um grupo estamental correspondente ao tipo tradicional de dominao poltica, em que o poder no uma funo pblica, mas sim objeto de apropriao privada. ”
O livro demorou para atrair a ateno pblica, mas a segunda edio apareceu como uma balsa para os nufragos numa poca em que, esfaceladas as guerrilhas, a esquerda brasileira buscava caminhos para a redemocratizao do pas e ansiava por um discurso que no soasse demasiado comunista aos ouvidos do governo militar – um esforo cujo primeiro resultado objetivo veio com a fundao do PT em 1980.
Faoro tornou-se quase espontaneamente o santo padroeiro do novo partido. Sua casa era frequentada assiduamente pelo sr. Lus Incio Lula da Silva, que em 1989 chegou a convid-lo, em vo, para ser candidato vice-presidncia.
Vestindo a camiseta faoriana de inimigo primordial da apropriao privada dos poderes pblicos, o PT fez um sucesso tremendo nos anos 90, como denunciador-mor da corrupo nas altas esferas federais e promotor de uma vasta campanha pela “tica na poltica”, que resultou na quase beatificao do seu lder principal (quando Lula viajava pelas reas mais pobres do Nordeste, doentes vinham lhe pedir que os curasse por imposio de mos, como os reis da Frana).
quela altura, o partido parecia mesmo resumir e encarnar o esprito da “Revoluo Brasileira”, com toda a expectativa messinica embutida nesse smbolo. Da a vitria espetacular de Lula na eleio de 2002.
Aconteceu – sempre acontece alguma coisa – que a liderana esquerdista em geral, e a petista em especial, no lia nem seguia s Raymundo Faoro. Desde os anos 60-70 lia com deleitao crescente os Cadernos do Crcere e as Cartas de Antonio Gramsci, o fundador do Partido Comunista Italiano e criador da estratgia comunista mais sutil e mais calhorda de todos os tempos: a “revoluo cultural” a ser implementada mediante a “ocupao de espaos” em todos os rgos da administrao pblica, da mdia, do ensino etc., para culminar no momento em que todo o povo seria socialista sem saber e o partido se tornaria “um poder onipresente e invisvel”.
Se Faoro forneceu ao PT a sua identidade aparente e a base do seu discurso “tico”, foi Gramsci quem deu agremiao a sua estratgia e as suas tticas substantivas. “Gramscismo sob pretextos faorianos” uma expresso que resume perfeitamente bem a poltica do PT ao longo de toda a sua existncia.
Nunca um partido teve to bela oportunidade de colocar em prtica uma estratgia estritamente comunista sob uma camuflagem weberiana to insuspeita.
Tudo parecia perfeito. Diante de uma plateia sonsa, a quem a sugesto de que houvesse algum comunismo nisso soava como delrio de “saudosistas da Guerra Fria”, o partido foi “ocupando espaos” e concentrando poder at fazer da administrao federal inteira – sem contar o sistema de ensino e a mdia – o instrumento servil dos seus objetivos privados.
Nenhum, nenhum dos seus guias iluminados notou que era impossvel fazer isso sem que o partido se transformasse, ele prprio, no odioso e odiado “estamento burocrtico”, com o formidvel agravante de que, na nsia de concentrar todo o poder em suas mos, e sempre enleado na boa conscincia de servir causa da Revoluo Brasileira, passou a roubar, trapacear e explorar o povo incomparavelmente mais do que todos os estamentos anteriores.
            Faoro morreu em maio de 2003, quatro meses depois de Lula tomar posse no seu primeiro mandato, e no teve tempo de meditar, nem muito menos de alertar o PT, quanto ao desastre que a sntese artificiosa e perversa, o “faorogramscismo”, anunciava como desenvolvimento fatal do processo.
Inevitavelmente, os papis se inverteram: transmutado por obra do gramscismo na encarnao mxima e mais cnica do “tipo tradicional de dominao poltica, em que o poder no uma funo pblica, mas sim objeto de apropriao privada”, o PT, quando por fim a populao em massa se voltou contra ele, revoltada ante os maiores escndalos financeiros de todos os tempos, no fundo dos quais ela enxergava ainda que vagamente a premeditao gramsciana, viu-se perdido, desorientado, atnito, seus lderes ora escondendo-se no palcio como aristocratas assustados na Paris de 1789, ora tentando camuflar o medo mediante bravatas truculentas de um ridculo sem par.
Sim, a Revoluo Brasileira est nas ruas. ela, e no outro personagem qualquer. E veio com mais fora do que nunca, brotando da pura espontaneidade popular, quase sem lderes (ou com tantos que se diluem uns aos outros), sem dinheiro, sem respaldo em partidos – o povo contra o “estamento burocrtico”. Como diria o prprio alvo supremo da ira popular, “nunca nftef na iftria dfte paf” esse povo demonstrou vontade to firme e inabalvel de ser seu prprio mentor e guia, de criar sua prpria Histria, de mandar s favas todos os importantes e de calar de vez as bocas dos mentirosos. A comear pelas da sra. Rousseff e do sr. Lula.
Quem mandou o PT confiar nas falsas espertezas do gramscismo? Deus realmente escreve direito por linhas tortas.

 



 

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