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Deformidades mentais

Olavo de Carvalho
Dirio do Comrcio, 31 de dezembro de 2014

          


Pelo menos desde os estudos de Franois Furet, que datam de duas dcadas atrs (especialmente Le Pass d’une Illusion, 1995), j no permitido a nenhuma pessoa intelectualmente responsvel ignorar que a formao comunista no introduz apenas algumas crenas falsas na mente humana, mas deforma gravemente a sua percepo da realidade em geral, nas grandes como nas pequenas coisas, na esfera da poltica e da Histria como na da moral e dos sentimentos.
Isso transparece em praticamente qualquer atitude pblica de um lder ou militante comunista, mas com diferentes graus de nitidez. Em certos casos preciso escavar fundo, em outros a deformidade se evidencia logo ao primeiro exame, s permanecendo invisvel ao prprio indivduo que a ostenta e aos membros do seu crculo que padecem do mesmo handicap.
Como regra geral entre psicopatas, bem como entre os histricos que os imitam, os comunistas no revelam suas verdadeiras intenes quando esto com medo, mas quando se sentem seguros contra um inimigo minoritrio que lhes parece indefeso o bastante para ser estraalhado sem grande dificuldade. Encorajados pela vantagem numrica, passam da desconversa escorregadia ostentao do dio mais descarado e inumano, sem medo de ser felizes com a desgraa alheia.
Por isso, entendo que a amostra mais reveladora da poltica brasileira nos ltimos tempos no o Petrolo, mas o caso Bolsonaro. A prpria diferena de propores entre um escndalo mundial e uma intriga de galinheiro j implica que num deles os sintomas apaream com mais clareza. Se no primeiro o que se observa uma corrida desperada aos subterfgios, s desculpinhas e ao confusionismo mais alucinante, no segundo cada novo assanhadinho  que acrescenta sua voz ao coro dos decapitadores se esmera em exibir, no s com despudor, mas com orgulho obsceno, toda a feira e sujeira da sua alma.
O mais recente deles foi o comentarista de futebol e poltica, Juca Kfouri, que, no intuito de criminalizar per fas et per nefas o deputado da direita, modificou a frase ofensiva dita deputada Maria do Rosrio e bem documentada em vdeo, de “Jamais estupraria voc porque voc no merece”, para “S no estupro voc porque voc no merece”, transformando um sarcasmo cruel, mas incuo, numa apologia do estupro, se no numa ameaa de comet-lo. Kfouri, com toda a evidncia, no julga Bolsonaro pelo que este disse, mas pelo que gostaria que ele tivesse dito para mais facilmente poder conden-lo.
Raras vezes a m-f de um caluniador se revelou de maneira to escancarada. Confiram aqui. Se existisse no jornalismo brasileiro um pingo da to propalada “tica”, o autor dessa fraude abjeta, caso no pedisse desculpas ao ofendido, seria expulso da profisso a cusparadas.
Na mesma semana, a deputada federal Manuela D’vila (PCdoB-RS) afirmou que “quando ele (Bolsonaro) diz que Maria do Rosrio no merece ser estuprada, diz subliminarmente que algumas mulheres merecem e que ele sim um potencial estuprador”. Vejam aqui. Como j expliquei aqui, o verbo “merecer” foi usado pelo deputado para insinuar, de maneira canhestra e, a meu ver, com patente injustia, que a ofendida no tem os dotes fsicos requeridos para despertar desejo em estupradores ou em qualquer homem que seja.
A sra. D’Avila transfigura o gracejo de mau gosto numa afirmao literal de que algumas mulheres merecem realmente sofrer violncia sexual. Mas, se foi isso o que o deputado quis dizer, por que excluiria desse destino brutal justamente a mulher que naquele momento ele desejava hostilizar, reservando o “mrito” para as que nada haviam feito contra ele? Isso seria um anti-insulto completamente vazio, um flatus vocis sem nenhum poder de fogo. A interpretao que a sra. D’Avila faz  do episdio revela a mesma sanha kfouriana de forar a semntica para dar s palavras do deputado a acepo de uma ameaa criminosa, no recuando nem mesmo ante o ilogismo mais gritante. A incapacidade de perceber sarcasmo s vezes sintoma de doena mental, s vezes prova de analfabetismo funcional. Em qualquer dos dois casos, como pode a sra. D’Avila estar qualificada para sondar “intenes subliminares” numa frase cujo sentido e cujo tom lhe escapam to completamente? Como aceitar que to ostensiva demonstrao de inpcia lingstica habilite sua autora a bancar a psiquiatra forense?
No a primeira vez que o deputado alvo de ataques desse tipo, to odientos quanto despropositados. Um cartaz do PT, recentemente distribudo pela internet, responsabilizava-o moralmente pelos cinqenta mil estupros registrados no Brasil (nmero que discutirei num artigo vindouro), sem explicar, claro, como os rigores da legislao anti-estupro exigida pelo sr. Bolsonaro poderiam ter produzido to paradoxal resultado.
Fiel a essa lgica invertida, a sra. Jandira Feghali, do PCdoB, no s xingou novamente o deputado de “estuprador”, sem apontar quem diabos ele teria estuprado, como tambm pediu a cassao do seu mandato pelo crime de haver respondido com grosseria agresso intempestiva, sem provocao ou motivo, que sofrera da deputada Maria do Rosrio Nunes.
No vejo por que defender o deputado. Pela ensima vez ele vai provavelmente vencer e humilhar seus perseguidores. A prpria Manuela D’vila reconheceu a inocuidade jurdica do antibolsonarismo organizado, ao declarar que o deputado “se empodera pelas recorrentes absolvies” (sic) – como se absolvies nada valessem face cincia superior de uma mocinha que mal entende o que l. E a exploso caluniosa do sr. Kfouri foi causada pela sua frustrao diante do fato de que s quatro entre os vinte e oito partidos do Congresso aderiram ao pedido de cassao.
No entanto, irresistvel, diante da estranheza do fenmeno, investigar o que poderia t-lo causado. o que farei nos prximos artigos. A coisa muito mais reveladora do que o leitor pode imaginar primeira vista.
P. S. -- Eu seria o ltimo a supor que o sr. Kfouri fingiu conscientemente sua indignao ante o que chamou de “covardia” dos partidos no-aderentes. O fingimento histrico no jamais premeditado: um modo de ser arraigado e constante, uma segunda natureza: a mente deformada pela auto-intoxicao comunista no precisa deformar-se de novo e de novo para cada encenao subseqente – o teatro permanece em funo ininterrupta, no deixando espao para que o ator perceba algum hiato entre o personagem representado e a sua condio real de pessoa humana. por isso que, diante da conduta histrica, falham por completo os critrios usuais de distino entre a sinceridade e a hipocrisia.

 



 

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