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Sonho mau

Olavo de Carvalho
Folha de So Paulo, 30 de junho de 2014

          

Muitas previses, dizia Thomas Mann, so enunciadas no porque vo se realizar, mas na esperana de que no se realizem. Todas as que fiz, especialmente as mais alarmantes, foram assim. Com uma diferena: as previses sempre se realizaram, a esperana nunca.

Nos assuntos humanos, a certeza absoluta geralmente uma utopia. O mximo que se alcana uma probabilidade razovel. E o culto devoto que o homem contemporneo consagra aos nmeros no o levar mais longe: uma probabilidade, calculada at os centsimos de milionsimos, continuar sempre sendo o que -- uma probabilidade, no uma certeza.

No entanto, continua vlido o preceito de que a exatido de uma cincia se mede pela sua capacidade de fazer previses corretas. Nas cincias humanas, e especialmente na cincia poltica, a previso deve sempre assinalar as variveis que podem modific-la no curso do processo. Muitas dessas variveis dependem da criatividade, da iniciativa e da coragem dos personagens envolvidos. Se as previses mais deprimentes se realizam com exatido quase matemtica, isto se deve mais ausncia desses trs fatores do que aos mritos cientficos de quem as enuncia.

Numa apostila j velha, que nunca tive a ocasio de corrigir para publicao, expliquei que a liberdade uma propriedade vital da psique humana, mas que esta no a possui como um dom perfeito e acabado, e sim apenas como uma possibilidade que de certo modo se cria e se amplia a si mesma na medida em que se assume e se exerce. Por isso que a famosa controvrsia de determinismo e livre arbtrio no tem soluo geral terica: esses dois fatores no pesam uniformemente em todas as vidas, mas se distribuem de maneira desigual conforme um jogo dialtico muito sutil que varia de indivduo para indivduo, de situao para situao, de caso para caso. No h como provar a liberdade seno exercendo-a, mas coloc-la em dvida j abster-se de exerc-la, provando portanto sua inexistncia mediante uma profecia auto-realizvel.

Inversa e complementarmente, a prpria psique se torna rala e evanescente quando, por abdicao voluntria ou sob a presso de condies adversas, a liberdade cede o passo interveno de fatores “externos”: a pura fisiologia, os hbitos inconscientes, o jogo das influncias ambientais, o acaso, etc. Numa situao extrema, j no h mais atividade psquica livre: a psique torna-se o reflexo passivo e mecnico de tudo quanto lhe estranho.

Essa distino aplica-se aos indivduos como s sociedades. Em qualquer grupo social pode-se avaliar sem muita dificuldade se ali predominam a percepo alerta, a presteza e criatividade das reaes, ou o apego indolente a chaves e frases feitas que se repetem como mantras enquanto a realidade vai correndo, mudando e passando como um trator sobre a multido de sonsos.

Depreciando instintivamente as mudanas e diferenas, a mente letrgica apega-se “heurstica disponvel”, que o manual de psicologia forense de Curtis R. Bartol, muito usado nos EUA, define como um atalho mental construdo com os fatos mais vulgares e acessveis – em geral os fatos repetidos pela mdia --, simulando uma explicao.

assim que os riscos e ameaas mais graves e iminentes passam despercebidos sob uma afetao de segurana tranqilizante. E foi assim que os planos do PT para a implantao do comunismo no Brasil, registrados nas atas de assemblias do partido, repetidos nas do Foro de So Paulo e insistentemente explicados nos meus artigos e conferncias, foram solenemente ignorados como se fossem meras tiradas verbais sem a menor conseqncia, at que agora podem ser postos em prtica diante dos olhos de todos, com a certeza de que a o povo e as elites, degradados e estiolados por dcadas de indolncia mental e repetitividade mecnica, nem sabero como reagir.

No preciso dizer que, deteriorada num grupo humano a capacidade de percepo rpida e reao criativa, o curso das coisas vai se tornando cada vez mais previsvel graas ao imprio geral da passividade mecnica. O que era apenas uma probabilidade, manejvel pela livre vontade humana, torna-se o clculo matemtico de uma fatalidade.

Pela milsima vez: Quando um homem normal diz “sociedade civil”, ele designa com isso a totalidade das pessoas dotadas de direitos civis e polticos. Quando um comunista usa o mesmo termo, ele sabe que os profanos o ouviro exatamente assim, mas que os iniciados sabero perfeitamente que se trata apenas de um reduzido crculo de organizaes e movimentos criados pelo Partido para fazer a parte suja do servio sem compromet-lo diretamente.

Na estratgia comunista, trocar a representao eleitoral pelo governo direto dessas organizaes e movimentos , desde h mais de um sculo, a virada decisiva, o “salto qualitativo” que, aps uma longa acumulao de subverses e corroses, marca a passagem de qualquer regime para uma ditadura socialista.

Para quem quer que conhea a histria do comunismo, isso uma obviedade patente, mas quem est acostumado a pensar segundo a “heurstica disponvel” da mdia usual, quem se recusou por mais de vinte anos a enxergar o que se preparava, talvez no venha a enxerg-lo nem mesmo depois de realizado. Muitos iro para o Gulag ou para o “paredn” jurando que apenas um sonho mau.

 

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