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Para que serve a direita?

Olavo de Carvalho
Dirio do Comrcio, 6 de fevereiro de 2013

          


       Os dados da situao so bastante claros. Quando o mesmo governo que prepara, estimula e financia arruaas emite um decreto que lhe permite usar as Foras Armadaspara reprimi-las, e quando, ao mesmo tempo, as autoridades e os arruaceiros se acusam mutuamente de “direitistas”, est na hora de o cidado avisado lembrar-se, caso j os conhea, dos versos de Antonio Machado:
         “A distinguir me paro
         las voces de los ecos,
         y escucho solamente,
         entre las voces, una.”
         Essa voz nica a da esquerda nacional – o nico movimento poltico que existe, o nico que tem um projeto, ainda que confuso, e os meios de ao paraexecut-lo. A “direita”, de tanto esvaziar-se ideologicamente, de tanto renunciar a toda identidade prpria, de tanto se amoldar servilmente aos valores, critrios e convenincias de seus inimigos, parece ter alcanado finalmente o seu ideal: desmaterializou-se  por completo e hoje no tem mais substancialidade que a de um mero nome feio, um xingamento usado nas discusses internas da esquerda.
         Essa condio s no equivale perfeita inexistncia porque esse nome feio tem uma funo histrica a cumprir, e a tem cumprido de maneira exemplar. Sem ele, a esquerda, que domina praticamente sem oposio o Estado, a cultura, a mdia, a educao e a mente da sociedade, tendo mesmo a seus ps todos os antigos oligarcas regionais que um dia personificaram a “direita”, no teria como explicar para si mesma e para a opinio pblica por que ainda no conseguiu, com tantos recursos e defrontando-se com to pouca ou nula resistncia organizada, criar neste pas o paraso de paz e prosperidade socialistas que ela promete h sete dcadas. No teria como explicar os setenta mil homicdios anuais, a distribuio orgistica de favores milionrios aos altos funcionrios e amigos do governo, a corrupo ampliada at escala do indescritvel, o crescimento galopante do consumo de drogas, a desordem e o medo generalizados, os horrores e abjees da educao nacional e o endividamento-monstro de um povo a quem todos os dias se diz que no deve se preocupar, porque tem todas as contas pagas (ver aqui).
         Eis a funo histrica que cabe palavra “direita”. Direi que a de um bode expiatrio? No, porque parasacrificar um bode expiatrio preciso um bode, no apenas a palavra que o designa. Na medida em que xingam uma outra de direitistas, a esquerda “de cima” e a esquerda “de baixo” -- personificadas simbolicamente pela presidente Dilma e pelos Black Blocks --, sem sacrificar nada mais que um verbete de dicionrio, se absolvem e se isentam da obrigao de enxergar a misria e a vergonhaque, em nome de um socialismo que nem sabem dizer qual seja, tm espalhado por toda parte. O que quer que ambas faam de errado, de torpe, de criminoso, vai para a conta de uma “direita” que, no existindo, tambm nada paga pelos crimes que lhe imputam.
         Mas o apelo a essa prestidigitao vocabular no funcionaria, no teria credibilidade nem mesmo para esses artistas do auto-engano que so os militantes de esquerda, se no houvesse no quadro nacional algumas coisas que, sem ser a direita poltica, podem fazer as vezes dela ad hoc.
         A primeira dessas coisas a burguesia. Ela existe e, como dizia Marx, tem interesses objetivos a defender. O fato de que essa classe s se relacione com as autoridades na base dos afagos e beijinhos, de que portanto veja com horror a mera sugesto de combat-lo no campo poltico, deve, nesse quadro, ser negligenciado para que se possa proclamar, com o sr. Leonardo Boff, que “os atores dadireita esto bem posicionados institucionalmente e politicamente” e que para desaloj-los preciso dar todo apoio sra. Dilma Rousseff, ou, com o deputado psolista Ivan Valente, que pela mesmssima razo preciso denunciar a presidente como uma reencarnao do general Mdici. As duas hipteses funcionam igualmente bem: a nica fora poltica existente se absolve dos seus pecados, e a inexistente, claro, tambm nada paga por eles.
         A segunda coisa que se parece vagamente com umadireita poltica so os jornalistas e blogueiros que criticam ao mesmo tempo o governo e os arruaceiros, a esquerda oficial e a oficiosa. Sem nenhuma conexo partidria, sem subsdios de qualquer espcie e sem nenhum plano nem mesmo hipottico de tomada do poder, eles so uma oposio meramente cultural sem meios nem desejo de ao poltica. Mas, como dizem o que pensam, e o quepensam ecoa alguma insatisfao popular difusa, claroque as duas esquerdas apontam neles a arma polmica do interesse capitalista e advertem que so “uma ameaa s liberdades civis”. Dessa maneira a esquerda governante dispensada de explicar sua aliana promscua com a burguesia, a esquerda arruaceira dispensada de explicar sua aliana promiscua com o governo, e a burguesia assegurada de que tudo o que faa de ruim em parceria com o governo ser debitado na conta de jornalistas sem um tosto furado no bolso, que desprezam tanto a ela quanto ao governo. Ficam assim tranqilizadas as conscincias esquerdistas de cima e de baixo, bem como as de seus aliados burgueses, felizes de que aqueles que no a representam de maneira alguma sejam apontados como seus representantes e castigados no lugar dela sob esse pretexto. Esse o nico papel histrico da “direita” hoje em dia: ser o nome do mal e isentar de culpas aqueles queo praticam. A indstria brasileira de alucingenos verbais uma das maravilhas da tecnologia moderna.

 


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