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Foi um desastre

Olavo de Carvalho
Dirio do Comrcio, 12 de janeiro de 2013

          


      Nenhum historiador, nenhum leitor informado pode conceber a grande literatura da primeira metade do sculo XX sem os nomes de G. K. Chesterton, Lon Bloy, T. S. Eliot, Franois Mauriac, Julien Green, Flannery O’Connor, Georges Bernanos, Paul Claudel, Miguel de Unamuno, Gerard Manley Hopkins, Graham Greene, Evelyn Waugh, Charles Pguy, Hugo von Hoffmansthal, Hermann Broch, Gertrud von Le Fort, Giovanni Papini, Giuseppe Ungaretti, Henrik Sienkiewicz, Jos Maria de Pereda. Que h de comum entre esses autores – e muitos outros que omiti? So todos escritores catlicos, no s porque se assumiam publicamente como membros da Igreja, mas porque suas obras refletem os temas e preocupaes que so mais tipicamente caros alma catlica, especialmente o pecado e a Graa. Por meio de seus livros, esses temas entravam na cultura superior da sua poca e nas conversaes pessoais de milhes de leitores to naturalmente quanto os temas marxistas entravam por meio de Grki ou Brecht, os esotricos de Hermann Hesse e W. B. Yeats, os psicanalticos de Arthur Schnitzler, James Joyce ou Tennessee Williams, e assim por diante.
            No h exagero em dizer que durante esse meio sculo a experincia catlica foi uma das principais, seno a principal fora inspiradora da criatividade literria em todo o mundo Ocidental.
            Esse florescimento da literatura catlica, incomum mesmo em pocas anteriores mais acentuadamente crists, foi possvel porque, alimentado pelo advento da chamada “psicologia profunda”, o interesse crescente das classes letradas pelo conhecimento da alma humana encontrava na disciplina tradicional do exame de conscincia e da confisso um ambiente excepcionalmente favorvel.
            Nada mais indispensvel ao escritor de fico do que a conquista daquela voz prpria, pessoal no mais alto grau, que fala desde as impresses individuais diretas, e que definha instantaneamente to logo o senso da experincia concreta sufocado pela intromisso dos esteretipos e das “idias gerais”.
            A prtica do catolicismo consiste muito menos em aderir intelectualmente a doutrinas do que em buscar, com a ajuda dessas doutrinas, um dilogo direto entre a alma do pecador e a nica fonte possvel da redeno. Todo fiel catlico sabe que s perante Deus a alma alcana aquele patamar de sinceridade perfeita que a convivncia entre os homens busca em vo imitar. Da a vivacidade incomum, o penetrante realismo com que a experincia catlica se transmuta em representao literria da vida.
            Isso explica tambm por que, nas dcadas que se seguiram ao Conclio Vaticano II, a grande literatura catlica desapareceu e a mediana, que continua existindo, j no desempenha nem tem flego para desempenhar nenhum papel de relevo no mundo da alta cultura.
            O Conclio, como se sabe, dividiu a Igreja. De um lado, os entusiastas do “aggiornamento”, ansiosos de conquistar a simpatia do mundo, prostituram-se a um bom-mocismo esquerdista que pode lhes valer algum aplauso da mdia, mas que no reino da criao literria, onde a “guerra contra o clich”, como a chamou Martin Ames, o po de cada dia, s pode resultar na autodestruio de todos os talentos.
            O epitfio do progressismo catlico nas letras foi “Monsignor Quixote” (1982), onde, levado pelo desejo de fazer da mediocridade pomposa de um bispo esquerdista um smbolo de santidade autntica, Graham Greene, que se notabilizara nas suas obras de fico pela veracidade psicolgica dos personagens, s provou aquilo que todo leitor de romances j sabia: que os esteretipos da moda so a criptonita do gnio literrio.
            Do outro lado, os tradicionalistas, marginalizados, perseguidos, rejeitados pela autoridade mesma que professavam obedecer, fecharam-se num estado de esprito combatente e rancoroso, que pode inspirar belas tiradas polmicas, mas seca na raiz a imaginao romanesca. A mais alta personalidade literria dessa faco, o romancista canadense Michael O’Brien, continua produzindo obras dignas de ateno, mas quase sempre debilitadas, em mais ou em menos, por um impulso catequtico demasiado ostensivo, que no catequiza ningum precisamente porque no atrai os leitores no catlicos. O que subsiste de literatura catlica no mundo entra na categoria dos “interesses especiais”, o que o mesmo que dizer: no tem voz no universo da alta cultura. Um raro sobrevivente, Walker Percy, nascido em 1919, falecido em 1990, pertence mais poca anterior.
            verdade que dois dos ficcionistas de maior sucesso nas ltimas dcadas so autores catlicos: J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis. Mas ambos so escritores da primeira metade do sculo XX, apenas descobertos tardiamente pelo pblico geral graas s adaptaes cinematogrficas das suas criaes.
            Examinado na escala menor e local do Brasil, o processo torna-se ainda mais visvel, a queda mais vertiginosa e deprimente. Sem mencionar pensadores e doutrinrios, s na rea de poesia e fico, e contando apenas os maiores, tnhamos Augusto Frederico Schmidt, Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Octavio de Faria, Lcio Cardoso, Cornlio Penna, Alphonsus de Guimaraens Filho. Tudo literatura catlica. E hoje? Desde a morte de Bruno Tolentino, o nada seria infinitamente prefervel ao que circula com esse rtulo.
            Se verdade que “pelos frutos os conhecereis” e que algo do estado de coisas na sociedade se pode apreender pelos altos e baixos da criao literria, ento preciso dar ao menos um pouco de razo aos tradicionalistas e reconhecer: o Conclio Vaticano II foi um desastre.

 


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