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Positivismo inconsciente

Olavo de Carvalho
Dirio do Comrcio, 10 de agosto de 2012

 

Quando escrevi que os militares que governaram o Brasil de 1964 a 1985 erampositivistas, no quis dizer que fossem seguidores conscientes e devotos de uma doutrina, que estudassem dia e noite a filosofia de Augusto Comte ou qualquer das suas modernas verses neopositivistas, analticas, etc. Ao contrrio, se o fizessem acabariam adquirindo uma viso crtica das limitaes dessa escola e talvez at rompendo abertamente com ela, imagem do que aconteceu com tantos intelectuais nas hostes marxistas.

O poder de influncia de uma doutrina no se mede pelo nmero dos que a conhecem a fundo, mas pelo dos que a seguem sem ter a menor idia de que o fazem. medida mesma que uma corrente de pensamento se dilui no “senso comum”, perdendo sua identidade prpria, redobra a fora com que seus smbolos, valores, critrios de julgamento e normas de ao determinam o comportamento dos homens na sociedade. O prprio marxismo no seria nada se tivesse a seu servio somente intelectuais de elite capazes de conhec-lo e medit-lo: a massa dos marxistas inconscientes – aqueles que acreditam no ser comunistas – que lhe d seu tremendo poder de impregnao na sociedade.

O mesmo sucedeu com o positivismo dos militares. Nos ltimos anos do Imprio e nos primeiros da Repblica, o Systme de Politique Positive e o Catchisme Positiviste passavam de mo em mo nas escolas militares como se fossem reedies da Bblia. Pouco a pouco, medida mesma que essas obras deixavam de ser lidas, suas lies se impregnaram nos hbitos mentais da comunidade castrense e a continuaram, com a passagem das dcadas, exercendo uma influncia sem nome, tanto mais penetrante quanto mais despida de qualquer identidade reconhecvel. A “ditadura tecnocrtica” a mais tpica proposta poltica de Augusto Comte. Se sabemos que de Comte, podemos ter a idia maligna de estud-la nos textos do mestre e discuti-la em voz alta, o que terminar por nos levar a analis-la criticamente e relativiz-la, se no a rejeit-la por completo. Se, ao contrrio, ela bia invisivelmente no ar, ela comea a nos parecer a voz direta da realidade, com todo o prestgio do consensual, do bvio e do indiscutvel.

Pior ainda, essa influncia residual veio a se mesclar, numa confuso dos diabos, com outros elementos ideolgicos de origem no conscientizada criticamente, como por exemplo o dogma do marxismo vulgar que institui o primado do econmico. Nossos militares acreditavam piamente que o sucesso da propaganda comunista era fomentado acima de tudo pela misria e pelo subdesenvolvimento. Deram o melhor de si para combater esses dois males. Elevaram consideravelmente o PIB, construram obras pblicas fundamentais e, no conjunto, suas realizaes nada perdem na comparao com as de outros governos criativos, como Getlio Vargas e JK, com a diferena nada desprezvel de que no tempo destes ltimos a corrupo crescia junto com o pas.

Tudo isso excelente em si mesmo, mas no ajudou em nada a deter o avano do esquerdismo revolucionrio. Nem poderia ajudar. O comunismo jamais recrutou o grosso dos seus militantes entre os miserveis, mas entre jovens de classe mdia inconformados de que a instruo que receberam no lhes d a ascenso social e poltica que promete e que imaginam merecer. O progresso econmico dos anos 70-80 espalhou universidades por toda parte e multiplicou ilimitadamente o “proletariado intelectual”, como o chamava Otto Maria Carpeaux, a massa de estudantes semi-instrudos aos quais, ao mesmo tempo, o governo sonegava toda formao poltica conservadora, deixando-os merc dos professores esquerdistas que j naquela poca monopolizavam as ctedras universitrias. A crena no poder mgico do crescimento econmico e a completa ignorncia do fator cultural (que quela altura os prprios comunistas j haviam compreendido ser o mais decisivo) selaram o destino do regime.

Outro elemento ideolgico mesclado veio do cacoete “pragmatista” (entre slidas aspas) segundo o qual as ideologias no fedem nem cheiram e tudo deve ser resolvido “com neutralidade” pela tcnica e pela cincia. Essa idia, posta em circulao sobretudo por interpretaes populares do best seller de Daniel Bell, The End of Ideology, dominou a atmosfera mental de boa parte da direita nos anos 60-80 e, tambm sem exame crtico, contaminou os nossos governantes, reforando consideravelmente sua aposta numa “ditadura tecnocrtica” salvadora. No espanta que nada fizessem para construir um partido de massas, uma militncia popular, e reduzissem a poltica a conchavos de gabinete onde os “tcnicos”, pairando assepticamente acima de discusses ideolgicas, tinham sempre a ltima palavra.

Dizem que a Arena, nesse perodo, chegou a ser “o maior partido do Ocidente”. Chegou, sim, em nmero de votos e de candidatos eleitos. Mas eleitores vo e vm. O que fica, num partido, a militncia organizada, ideologicamente adestrada, espalhada e arraigada no fundo da sociedade civil, capaz de disseminar na opinio pblica um corpo de crenas, valores e atitudes durveis, no meros nomes de candidatos que no dia seguinte sero esquecidos. A Arena no tinha nada disso. Tinha apenas cabos eleitorais. Ao primeiro sopro de um vento contrrio, seus eleitores bandearam-se para o PT e demais partidos de esquerda, sem nem mesmo perceber que haviam mudado de filiao ideolgica. O enigma aparente de um povo conservador que s vota em candidatos de esquerda tem ao menos parte da sua explicao no esforo de esvaziamento ideolgico da sociedade, empreendido pelos governos militares.


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