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A direita fujona
Olavo de Carvalho Se há uma coisa digna de consternação, é a diferença, a desproporção abissal entre a multiplicidade de fronts por onde a esquerda ativista lança ataques contra a democracia, e a e a modéstia servil com que os defensores desta última, submetendo-se implicitamente à estratégia geral do adversário, se limitam a críticas pontuais, quando não a detalhes irrelevantes, perdendo terreno até mesmo depois que a História os favoreceu ao provar a superioridade econômica do capitalismo sobre o socialismo. Essa diferença, que já se consolidou até como obrigação jornalística incontornável – infringi-la é correr risco de demissão – é a "guerra assimétrica" transposta ao campo de batalha da cultura e da mídia. As causas imediatas da inferioridade direitista são duas: a) obsessão dos liberais e conservadores com a economia; b) a ignorância pura e simples. A primeira já reflete a subserviência ideológica ao inimigo, na medida em que aceita, sem discussão, a premissa marxista – erradíssima – de que a economia move a História. A segunda é um crime puro e simples – com o único atenuante possível de que o cometem contra si próprios. As duas causas não são independentes entre si: a aceitação passiva da premissa marxista mostra a profunda ignorância do marxismo entre os liberais e conservadores. Desde a morte de José Guilherme Merquior – que fraquejava ante a esquerda não por ignorância, mas por subserviência mental à sua patota de juventude –, não conheço, ao menos no Brasil, um só deles que tenha consagrado tempo suficiente ao exame das obras de Lucaks e Adorno, Korsch, Poulantzas e tutti quanti, isto sem falar nos desenvolvimentos mais recentes do marxismo na Europa e na Ásia, cuja simples existência desconhecem por completo. Embora a superioridade intelectual da esquerda seja um mito no que concerne aos grandes nomes da filosofia, da literatura e das ciências humanas (aí os conservadores reinam soberanos), ela é uma verdade patente quando se refere à média dos porta-vozes da "direita" na mídia e nas classes falantes em geral: estes estão tão monstruosamente mal informados, que levam uma pancada após outra e nem sabem de onde ela vem. E quando tentamos avisá-los com antecedência, com base em estudo sério e aprofundado, eles se sentem feridos nos seus brios intelectuais e batem no carteiro para não ter de receber a mensagem. Isso é verdade quanto ao Brasil, mas, em proporção apenas ligeiramente menor, também o é quanto aos países mais desenvolvidos. Graças a esse fenômeno, não é nenhum exagero dizer que em todo o Ocidente, ao longo de mais de meio século, a única força política historicamente ativa é a esquerda ativista alimentada por fundações bilionárias. Com exceção do breve interregno da era Reagan, onde a mudança temporária da direção dos ventos se deveu exclusivamente a lideranças pessoais sem grande apoio nos círculos da política e dos negócios –, foi o ativismo esquerdista que determinou como bem quis o curso da história do mundo. Que menos de duas décadas depois da queda da URSS, a esquerda viesse a dominar tantos países da Europa, da África, da América Latina, e agora os próprios EUA deveria dar o que pensar aos apologistas do triunfo inevitável do capitalismo. Mas a profundidade e abrangência desse processo vai muito além daquilo que se pode observar nas últimas décadas. É preciso remontar aos anos 60 para formar uma idéia, mesmo aproximada, do controle quase absoluto que o ativismo esquerdista exerce sobre o fluxo de informações no mundo, moldando a seu belprazer e praticamente sem oposição até mesmo a mentalidade dos seus adversários. Invariavelmente, as crenças que o ativismo intelectual e jornalístico consegue impor como verdades globais inabaláveis são totalmente desmascaradas depois de três ou quatro décadas, quando já é tarde demais para neutralizar seus efeitos devastadores. Pior ainda, a mentira se impõe à opinião mundial, no calor da hora, enquanto sua refutação, por mais meticulosa e exata que seja, só chega ao conhecimento de uns quantos estudiosos e a uma fração mínima do público interessado, ficando totalmente desprovida de carga política. Vou dar aqui um breve mostruário de operações de desinformação que lograram impor ao mundo as deformações mais patentes da realidade, determinando inumeráveis escolhas e decisões políticas, seja da opinião pública, seja de governantes, e produzindo efeitos que se propagam até hoje. 1. Já nos anos 50, o esforço conjugado da desinformação soviética e da elite midiática americana conseguiu impor ao mundo o mito da "perseguição macartista", celebrado em inumeráveis filmes de Hollywood ao ponto de imunizar o imaginário popular contra a revelação da verdade. O livro de M. Stanton Evans, Blacklisted by History (2008), repõe as coisas nos seus lugares, com o auxílio inclusive de documentos soviéticos recém-divulgados. Mas como pode um só livro neutralizar décadas de propaganda maciça? Hoje sabe-se que a "perseguição" consistiu em interrogar algumas dezenas de suspeitos – nenhum deles inocente – e mandá-los de volta para casa sob a proteção da 5ª emenda constitucional, enquanto a URSS, no mesmo período, fuzilava nada menos de três milhões de pessoas, com a ajuda daquelas pobres vítimas oprimidas pelo senador Joe McCarthy. O uso universal do termo "macartismo" como sinônimo de histeria persecutória já mostra até que ponto a fantasia laboriosamente construída predominou sobre a realidade. 2. Até hoje, mesmo nos círculos conservadores, acredita-se piamente que os assassinatos de John e Robert Kennedy não provieram de nenhuma conspiração comunista, mas ou de uma trama da CIA ou do efeito espontâneo da "violência social norte-americana", associada à "cultura das armas" e ao "fanatismo religioso" da direita. Como foi possível que esse reacionarismo todo desabasse sobre dois líderes anticomunistas pelas mãos de um militante comunista e de um ativista palestino, é pergunta indecente que não se faz. As provas em favor da autoria comunista de ambos os crimes começam a predominar em círculos de estudiosos, mas sem nenhum alcance fora deles. 3. Embora seja até um lugar-comum que a guerra do Vietnam, perdida pelos comunistas no campo de batalha, foi ganha de volta pela ajuda solícita da mídia americana, do ativismo estudantil e da elite dourada do show business, é proibido sugerir que houve nisso algum crime de traição a ser investigado. A suposta fatalidade impessoal da vitória vietnamita, uma farsa em toda a linha, continua aceita como uma verdade histórica inquestionável. 4. As provas inumeráveis em favor da tese de Ernest Topisch, de que a ascensão do nazismo foi de cabo a rabo uma obra de Stalin, continuam ignoradas ao ponto de que nazismo e comunismo, no vocabulário da mídia e das universidades denotam ainda o mais extremo e irredutível par de opostos. 5. Quando caiu a URSS, era patente, para os poucos observadores qualificados, que, se os crimes da ditadura soviética não fossem investigados e punidos, a liderança comunista simplesmente se rearticularia em novas formas de organização, surpreendendo o adversário em breve tempo, com demonstrações de um poder avassalador e renovado, exatamente como veio a acontecer. Toda a mídia européia americana, sem exceção, reprimiu o quanto pôde a revelação das provas daqueles crimes, que não cessavam de surgir dos arquivos soviéticos, mas que até hoje só são acessíveis aos estudiosos interessados, sem nenhuma repercussão popular. A "morte do comunismo" foi uma farsa em toda a linha. Serviu apenas para camuflar o verdadeiro falecimento: o do anticomunismo. 6. A mais breve comparação entre a propaganda comunista dos anos 50 e o discurso anti-americano da grande mídia na Europa, nos EUA e na América Latina basta para demonstrar que os slogans disseminados pela KGB mais de meio século atrás acabaram se impregnando na mentalidade popular ao ponto de consagrar-se como sabedoria convencional. 7. Qualquer atentado que se possa atribuir a direitistas, mesmo insignificante e sem provas certas da autoria, é brandido e explorado na jornalismo e no cinema, por décadas a fio, com a potência de uma contínua campanha publicitária mundial. Quando vieram as provas cabais de que o atentado contra o Papa João Paulo II fôra obra da KGB, a mídia "burguesa", "reacionária", "imperialista", noticiou isso com a maior discrição e não se ouviu, no Brasil e no resto do mundo, um só discurso de político "liberal" denunciando o crime do século. Todos concederam e concedem à esquerda o monopólio do direito de reabrir feridas. Essas sete amostras bastam para evidenciar que a doutrinação comunista, em pleno surto de triunfalismo capitalista, é a ideologia dominante, hegemônica sob todos os aspectos. Em face desse domínio avassalador, as tímidas apologias da economia de mercado, sem nenhuma ação no campo cultural e psicológico, são de uma impotência patética. No Brasil, o capitalismo vai se transformando cada vez mais numa concessão provisória do Estado, mas o empresariado se empenha mais em reprimir eventuais falhas de etiqueta de seus amigos do que o avanço incoercível de seus inimigos. Não entendem sequer que a violência verbal é a última arma eficaz da minoria acossada. A validade dessa arma foi demonstrada inúmeras vezes pelos próprios comunistas. Mas liberais e conservadores apegam-se a uma polidez forçada só para fingir tranqüilidade e otimismo, quando o inimigo, consciente da desproporção de forças, ri dessas afetações de segurança porque sabe que pode mandá-los para a cadeia no momento em que quiser, não lhe faltando para isso os pretextos fiscais mais apolíticos e inocentes em aparência.
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