Política desavergonhada

Por Maria Lucia Victor Barbosa

Se no Brasil o voto fosse facultativo, como o é na maioria dos países, possivelmente muita gente se absteria de votar. Não que as pessoas não gostem de política, gostam e muito, mas o fato é que elas andam profundamente desgostosas com os políticos. Este desgosto vem aumentando com a eclosão de escândalos que têm no seu cerne a corrupção que, diga-se de
passagem, é velha companheira da sociedade brasileira desde seus primórdios.

A novidade é que a corrupção existente no meio político nunca foi tãonoticiada nem tão punida como agora, se bem que ainda que de forma insuficiente, pois uma enorme quantidade de ladrões da coisa pública estão livres, leves e soltos, aproveitando a doce vida que os frutos do seu patrimonialismo desenfreado lhes proporciona.Se a maioria desses larápios permanece sempre em altos cargos ou consegue se reeleger com grande facilidade, por outro lado pode-se dizer que os eleitores estão mais atentos e críticos. Na verdade o País tem sido varrido por uma onda de moralidade cívica. Tal fenômeno proporcionou ao PT inúmeras
vitórias, justamente por ser este partido considerado a vestal de pureza imaculada em meio às raposas peludas e os lobos vorazes da esfera política.

No poder o PT tornou-se um partido igual aos outros mas, mesmo assim, conseguiu manter a máscara da virtude. Afinal, tudo que o PT faz é alardeado com justo, ético, voltado para os pobres e oprimidos mesmo que aja de forma idêntica aos que antes condenava. E como o PT condena! É implacável com os
que não rezam por sua cartilha, processa a torto e a direito, intimida, patrulha. O PT é um partido inquisidor por excelência e por mais que agora queira exibir uma face amena, não consegue ocultar por muito tempo seu vezostalinista.

Mas terá mudado mesmo o PT, que hoje busca alianças com o PL e o PMDB de Orestes Quércia na sua quarta tentativa de chegar à presidência da República?

Em 2 de maio de 1994, participei do programa “Fogo Cruzado”, da TV Gazeta, em São Paulo. Fui convidada para debater com os professores do PT, Maria Vitória Benevides e Marco Aurélio Garcia e o filósofo José Arthur Giannotti. O tema central da discussão era a aliança PSDB/PFL, execrada pelos petistas.

Naquela ocasião, pude observar de perto a segurança com que os fervorosos adeptos da estrela barbuda discutiam temas polêmicos, certos que seu líder já estava eleito. Eles não hesitaram em utilizar a crítica contundente e de caráter populista, que tenta acender as paixões eleitorais e oferece a
desforra dos pobres contra os ricos. Cientes de sua força, brandindo do alto do triunfo previsto o fogo sagrado de sua pureza, os professores do PT execraram a união do PSDB com o PFL em apoio ao então candidato Fernando Henrique Cardoso. O mínimo que disse Marco Aurélio Garcia, foi que o PFL
representava os grotões e o coronelismo ainda existente no Brasil.

O que dirão agora sobre as aproximações do seu partido com o PL e o PMDB de Orestes Quércia, os professores Marco Aurélio e Maria Vitória? Como Aloizio Mercadante, certamente dirão que as circunstâncias são outras. Provavelmente, também pedirão para que todos esqueçam o que o PT disse ou
foi. Aliás, ensinaram ao candidato Lula dizer que as pesadas denúncias sobre Quércia nunca foram comprovadas e, portanto, nada de mais um acerto entre ambos. Em 1994, quando Quércia afirmou que “o PT nunca dirigiu um carrinho de pipoca”, e que “o PT é fascista (…) o problema do Lula é sua orígem e não adianta ele querer mascará-la”, Lula retrucou: “Só respondo ao Quércia quando ele estiver com o prontuário limpo”.

A questão que se coloca, então, não é a flexibilização do PT face as naturais alianças políticas, mas o tipo de política desavergonhada que adotou depois de pregar moralismo como se fosse a UDN da esquerda. Isso em termo mais amplos, esmaece ainda mais os valores em uma sociedade como a
nossa, onde a moralidade sempre foi dúbia e a lei pouco cumprida.

Parafraseando o grande jornalista H.L. Mencken, se o PT achar que converter-se ao canibalismo pode lhe render votos, mandará engordar um bispo da Igreja Universal no quintal da casa do Lula.

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