O revolucionário aburguesado

Olavo de Carvalho

Diário do Comércio (editorial), 13 de dezembro de 2007

Quando um topos — um argumento padronizado ou lugar-comum — é vazio e idiota o bastante para poder ser usado igualmente pelo discurso da esquerda e pelo da direita, ele tem tudo para se consagrar como dogma inabalável do credo público. Deixem-no circular um pouco, e em breve ele se tornará premissa fundante e supremo critério de prova para a aferição de milhares de opiniões em circulação.

O exemplo mais comum, na mídia brasileira, é o do revolucionário aburguesado. Pelo menos uma vez por semana aparecem opinadores iluminados proclamando que tal ou qual político, tal ou qual partido, tal ou qual grupo militante era de esquerda mas já não é mais: continua na luta só por dinheiro, por desejo de poder, por interesse egoísta.

A direita utiliza esse giro de linguagem para as seguintes finalidades: (a) queimar a reputação de algum esquerdista perante seus próprios companheiros, apelando maliciosamente aos valores que lhes são caros; (b) tentar dividir as hostes esquerdistas, semeando suspeitas quanto à lealdade mútua entre os vários grupos que a compõem: (c) minar a autoconfiança do movimento esquerdista, insinuando que é um culto esvaziado pela descrença e pela apostasia; (d) enaltecer o capitalismo por meio de uma retórica invertida e satânica, atribuindo-lhe o poder atrativo de uma tentação irresistível e, desta forma, buscando transmutar o aburguesamento dos revolucionários numa profecia auto-realizável.

Não é preciso dizer que, nas quatro hipóteses, o que se obtém é no máximo alguma vantagem tática menor em troca de uma perda estratégica irreparável: quanto mais as crenças e valores nominais de um grupo político são usados como arma de chantagem moral contra o mesmo grupo, mais esses valores saem engrandecidos e essas crenças fortalecidas. Quando a direita apela a esse truque de retórica chinfrim, acreditando ser muito esperta por isso, o que ela consegue é servir de instrumento à propaganda ideológica esquerdista.

A esquerda, não raro aproveitando-se dessa mesma circunstância, emprega a figura do revolucionário aburguesado de maneira menos variada, porém um pouco mais eficiente: serve-se dela para limpar-se de seus crimes, atribuindo-os a traidores que teriam abandonado os belos ideais da revolução e passado a delinqüir em benefício próprio. Esse topos foi fartamente usado a propósito do primeiro escalão petista quando se tornou impossível ocultar a magnitude de seus feitos ilícitos, em comparação com os quais os Anões do Orçamento se tornavam gigantes de moralidade e civismo. Não por coincidência, aqueles que bradavam contra os corruptos do Planalto nas páginas da mídia burguesa omitiam-se de fazê-lo no círculo mais íntimo do Foro de São Paulo, provando destarte que, em família, ainda tinham por aqueles alegados desertores a consideração devida a companheiros fiéis.

O mesmo artifício serviu para atenuar o vexame do seqüesto do publicitário Washington Olivetto, quando, em peso, a elite esquerdista chique de São Paulo se mobilizou para apresentar o autor principal do crime, Maurício Norambuena, como um desertor do MIR chileno ( Movimiento de la Izquierda Revolucionaria ), empenhado em enriquecer a si próprio mediante o uso indevido dos truques de guerrilha urbana aprendidos nos anos dourados da sua militância idealista. Como ao mesmo tempo aquelas pessoas maravilhosas reivindicassem a libertação do prisioneiro, a impressão que ficava na retina do público era profunda e indelével: a esquerda era uma facção política tão bondosa, tão generosa, que não hesitava em lutar até mesmo pelos direitos humanos de um traidor e apóstata. Liberto e enviado de volta ao Chile, logo depois Norambuena posava para uma fotografia com os líderes do MIR, todos abraçadinhos, ostantando disciplinadamente a bandeira do movimento.

Nos último dias, o estereótipo do revolucionário aburguesado voltou à cena, desta vez para limpar a imagem da revolução latino-americana inteira, poluída temporariamente pelas notícias a respeito de Ingrid Bettancourt e de outros reféns mantidos em cativeiro pelas Farc, sob condições inumanas. Por toda parte ecoa o mesmo refrão: aqueles desavergonhados colombianos fazem essas maldades porque se aburguesaram, só pensam em dinheiro e nem se lembram mais de seus ideais de juventude. Mas, novamente, a acusação só será alardeada na imprensa burguesa. Nem uma palavra contra os supostos traidores se ouvirá nas reuniões do Foro de São Paulo, o tribunal supremo da pureza revolucionária. Ali, num ambiente de camaradagem íntima, eles continuarão a ser tratados com deferência, respeito e tapinhas fraternais nas costas. O fingimento é tão visível como se nos tempos da Inquisição um bispo católico, acusando de heresia um sacerdote, insistisse em fazê-lo só diante de uma assembléia de ateus, sem dar ao Santo Ofício a mínima ciência do ocorrido e continuando a aceitar o dito herege como seu confessor e guia espiritual.

Mas muitos séculos, talvez, ainda hão de decorrer antes de a direita nacional perceber que o topos do revolucionário aburguesado não lhe serve para enganar a ninguém, mas só para torná-la ainda mais vulnerável ao mesmo truque quando usado pela esquerda.

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