O PT e a violência

Maria Lucia Victor Barbosa


25 de janeiro de 2002

Analisar em profundidade a violência num curto artigo seria impossível. Essa característica inerente ao ser humano demanda abordagens variadas que vão das filosóficas às sociológicas, das psicológicas às antropológicas. A violência pode ser estudada sob o ângulo da história, do direito, da economia e para combatê-la o Estado se utiliza da lei e de várias de suas instituições.

No Brasil as causas da violência são bastante variadas e as opiniões sobre elas também. Há aqueles, por exemplo, que apontam apenas a pobreza como fator desencadeante de atitudes violentas que se desfecham na criminalidade. Porém é necessário dizer que, se o meio em que o pobre vive pode ser propício ao banditismo, tanto não procede o entendimento de que ele é um criminoso nato quanto a tendência de absolvê-lo a priori das penas previstas na lei quando comete um crime por considerá-lo vítima da própria sociedade.

Justamente comiserações deste tipo têm contribuído para estimular a violência no país, assim como a excessiva benevolência para com os bandidos e seus direitos humanos em detrimento dos direitos do cidadão comum. E isso, naturalmente, tem tudo a ver com a falha  da mais importante função do Estado e em nome da qual esta instituição foi criada: a segurança.

Poderia expor também análises referentes à urbanização, desemprego, baixos níveis educacionais e tantos outros fatores que possuem ligação com a violência. Isto seria importante para uma compreensão mais aprofundada do fenômeno, mas aqui vou apenas comentar a questão do PT e da violência, por conta do brutal assassinato do prefeito petista de Santo André Celso Daniel, lembrando que antes dele Antônio da Costa Santos, o Toninho do PT,  prefeito deste partido em Campinas, também foi morto recentemente.

Em artigo publicado nesta semana no O Estado de S. Paulo, Frei Beto colocou Celso Daniel na “galeria dos “mártires da justiça” que abriga “Jesus, Tiradentes, Gandhi. Guevara  Luther King, etc.”. O bondoso frei não mencionou o prefeito de  Campinas, nem aquela mulher que nesta mesma cidade foi seqüestrada e executada em frente a sua casa, nem a incalculável multidão de brasileiros que têm sucumbido pelas armas de assassinos impunes e muito mais bem armados, treinados e motivados do que a polícia. Aliás, o PT nunca se levantou a clamar em defesa das vítimas comuns, mas já fez muito força para a soltura dos seqüestradores canadenses do empresário Abílio Dinís. Naquele episódio lamentável havia também um membro do PT e o partido preferiu dizer que presença do seu militante era apenas uma trama para inviabilizar a vitória de Lula, então em trânsito  por sua eterna carreira de candidato à presidência da República.

Quanto a José Genoíno (SP) e a senadora Marina Silva (AC), agora se apressam a pedir a prisão perpétua para seqüestradores sem saber ainda se o prefeito foi realmente seqüestrado. Na verdade o caso continua nebuloso, especialmente por conta das versões contraditórias de Sérgio Gomes da Silva que dirigia o Mistsubishi Pajero de onde Celso Daniel foi retirado para ser morto, sem que houvesse sido feito pedido de resgate.

Recorde-se também que num primeiro momento o PT e seu líder Lula, apressaram-se a dizer que tudo não passava de crime político, insinuando que a responsabilidade seria de uma organização de direita. Mas haveria uma organização de direita tão burra  a ponto de fornecer a um partido de esquerda, em plena largada de uma campanha eleitoral, o mártir, a bandeira ensangüentada (recorde-se Volta Redonda) que garantiria a vitória emocional do adversário ideológico? É de se duvidar. E para complicar aparece agora uma fantasmagórica entidade de extrema esquerda denominada Frente de Ação Revolucionária Brasileira (Farb), suposta co-irmã da sangüinária Farc colombiana que o PT tanto exalta, e que se responsabiliza pelos crimes além de ameaçar políticos petistas.

Mas o fato é que se o PT não pode ser responsabilizado diretamente pelas causas da violência no Brasil ou pelas mortes dos seus prefeitos, não deveria esse partido deixar de fazer uma mea culpa para avaliar o resultado do seu estímulo à violência. Afinal, em junho de 1994, o candidato Lula declarou que não lhe interessava a lei mas o que ele considerava como justo e legítimo. Esse discurso de tribunal de exceção foi repetido por lideranças petistas, inclusive, por seu problemático vice José Paulo Bisol, que afirmou: “Quando o Estado não tem condição de coibir a violência, o povo tem direito a ela”. O problema é que a fração do povo que agora tem direito à violência diante da ausência da lei, é aquela composta por facínoras de toda espécie que estão oprimindo o povo.

Há tempos o PT através da CUT – seu braço sindical – e do MST –seu braço armado no campo – tem desencadeando a violência que é colocada como legitima e se sobrepõe à lei. Tudo recheado com uma ideologia socialista que no mundo inteiro não deu certo.

Agora o PT sente os efeitos de um tipo de terrorismo depois de ter declarado que é contra o terrorismo, mas tê-lo justificado quando os seguidores do fanático Bin Laden atacaram os Estados Unidos.

Portanto, é hora do PT fazer seu ato de contrição e de se perguntar qual é sua parcela de culpa diante da morte dos seus próprios companheiros. Conforme o ditado popular: “quem semeia ventos, colhe tempestades”.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga, escritora e professora universitária.

E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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