Minha volta ao segundo grau

Marcello Alves da Silva

22 de maio de 2001

Esta história não reflete uma experiência singular, mas a experiência típica e geral a que se expõe quem quer que se atreva, num ato de suma imprudência, a inscrever-se em qualquer tipo de escola, de qualquer nível, oficial ou privada, no país dos Bruzundangas. Tenho recebido dezenas de depoimentos similares, sem autorização para publicá-los, pois seus remetentes são estudantes que, com razão, temem represálias de seus professores. Mas peço encarecidamente que as pessoas que passaram (ou que viram seus filhos passarem) por experiências semelhantes enviem narrativas detalhadas para esta homepage. A ocupação das cátedras por militantes e propagandistas analfabetos, brutais, grosseiros e arrogantes, dispostos a sacrificar o futuro de seus alunos às ambições de poder do seu partido, é o maior crime que já se praticou contra a cultura neste país. Não podemos deter no ar a mão criminosa antes que o crime seja consumado. Mas podemos ao menos impedir que ele se consume nas trevas, a salvo dos olhares do público. – O. de C.

No ano passado, 2000, aos 32 anos, resolvi tentar o meu segundo vestibular, pra psicologia, na Universidade Federal do Espírito Santo. Me inscrevi em março num cursinho do Colégio Americano Batista de Vitória, que fica a duas ruas de onde eu moro, na Praia do Canto, em Vitória.

Curso noturno, meus colegas de classe eram em sua maioria estudantes do último ano do CEFET, a antiga Escola Técnica Federal, que cumprem uma dupla jornada estudantil, pra tentar entrar na universidade sem ter que ficar mais um ano só fazendo cursinho. O resto da turma composto por muitos jovens trabalhadores, comerciários, vindos do batente, ainda com os uniformes. Alguns quarentões; e eu, trintão.

Cursinho pré-vestibular é aquela coisa: muita informação, alguns professores talentosos, outros nem tanto. De modo geral os professores de matemática e física melhores que os outros. Uma professora de literatura que ridicularizava quase todos os autores pra poder ganhar as risadas e a atenção dos alunos, ainda deplorou “a tortura que a inquisição infligiu a Galileu Galilei”; um professor de geografia que achava que os russos só saíram da Iugoslávia com a derrocada do comunismo em 1989, um professor de biologia que ridicularizava a teoria da evolução; um professor de história (substituto) que achava que capitalismo e roubo não têm diferença e que o comunismo vai ressugir triunfante, blá-blá-blá.

Muitas piadas de gosto duvidoso sobre sexo e política, pra poder chamar a atenção dos alunos, a maioria, como já disse, de adolescentes, preocupados com esses assuntos daquela maneira confusa dos adolescentes.

Agora… o que fez valer a pena escrever este texto foi a personagem que dava aula de história geral.

Desde o começo do ano fui obrigado a saber da simpatia que ela tinha pelo PT (“é o melhor partido”, dizia), que ela fazia mestrado em Cuba, Fidel Castro era uma espécie de santo, ops!, desculpem, no comunismo não tem esse negócio de santo.

Apesar disto continuar, prometi a mim mesmo que ia permanecer o mais anônimo possível na sala de aula, e ignorar essas coisas, mas fui obrigado a mudar de atitude.

Passamos pela pré-história e boa parte da antigüidade com a rapidez de praxe, já que o vestibular não costuma cobrar muito esses assuntos. Lá pela história da Grécia Antiga, a professora falou algumas besteiras que me fizeram ligar o alerta. Como “Alexandre na juventude saiu da Macedônia pra tomar aulas com Aristóteles, que lhe ensinou a arte militar.” Assim.

Até que chegamos à história de Roma e eu a ouvi dizer que a cidade havia sido fundada pelos descendentes de Enéias. Não, não a origem lendária. Ela sabia que a origem lendária dizia respeito à história de Rômulo e Remo. Ela falava dos reais fundadores de Roma.

Em completo espanto eu pensei em intervir na aula para lembrá-la de que Enéias é um personagem mítico-literário, filho da deusa Vênus, cuja lenda foi aproveitada por Virgílio, escritor romano de pouco antes da era Cristã. Ou seja, nunca existiu, a não ser na imaginação da humanidade.

Não intervim, achando que talvez fosse um lapso que pode ocorrer a qualquer pessoa que tenha a quantidade de coisas que professores de pré-vestibular têm a ensinar. Me omiti, apesar de achar extremamente grave o fato de uma professora de história não saber explicar a fundação de Roma. Pior: confundir um personagem mitológico com um ser humano real, o que é equivalente a um professor de matemática que por um lapso errasse o Teorema de Pitágoras; ou a um professor de Geografia que se esquecesse de que a Espanha é na Europa.

Isso não parou por aí. Comecei a alertar os coleguinhas com quem eu já tinha feito amizade sobre os erros da mestra, que foram se avolumando. Decidi anotar alguns:

A professora afirmou que durante a Idade Média a igreja construiu imensos labirintos onde as obras clássicas eram escondidas das populações dos feudos, assim impedidos de ter acesso à informação (fácil lembrar em que filme de Hollywood ela viu essa situação, que tomou como real).

Ainda segundo a professora, respondendo à pergunta de um aluno, durante o Renascimento, os artistas vinham de todas as classes sociais, “sabe como é artista: tem vontade de fazer arte e vai lá fazer uma obra” – impossível reproduzir o estilo, mas a essência foi essa aí. Consulte-se uma enciclopédia qualquer sobre arte no Renascimento e poderemos ver quantos burgueses optaram pela “carreira” de artistas naquele período. E se isso ocorreu, se era a regra ou a exceção.

Pode-se argumentar que tais informações não são importantes para quem vai fazer vestibular (sim, eu ouvi alguém dizerem isso), mas se para os alunos não importa saber ou não ter esse tipo de informação com tal profundidade, é imperdoável que alguém que tenha feito um curso superior e se intitule professor de história afirme essas idiotices.

Outras da professora Silvana:

“Etruscos queriam invadir península Itálica.” Como, se eles já estavam lá? Queriam invadir e dominar TODA a Península Itálica, talvez? Talvez tenha sido somente um problema de se expressar corretamente em Português.

“A igreja Católica, no começo, era legal, porque condenava o lucro.” Depois deixou de ser “legal”? O Colégio Americano Batista lucra com a educação dos seus estudantes? Talvez este colégio não seja tão “legal” assim.

“A igreja católica podia ter impedido a ascensão de Hitler. E até pediu perdão, recentemente, por isso.” Esta afirmação, repetida não uma, mas algumas vezes em sala de aula, contém não um erro histórico, mas um erro crasso de lógica. A Igreja Católica admitiu, há pouco tempo, ter feito pouco pela questão dos judeus durante a ditadura nazista. Uma vez que a Igreja tivesse agido de maneira diferente, a história poderia ter sido outra, mas ninguém racional pode afirmar que assim poderia se ter impedido a subida desse tirano ao poder. Uma infinidade de coisas poderia acontecer, mas que nunca saberemos, porque já aconteceu, não é mesmo? Condenar a Igreja Católica por um resultado hipotético de uma inação sua é ridículo.

“A Igreja Católica foi a principal responsável por não educar as pessoas na Idade Média”. Ignorando as dificuldades, falta de condições e o funcionamento da sociedade existente na Idade Média, a senhora Silvana elegeu a sua favorita para ser a principal.

Começado o segundo semestre, a referida senhora, depois de já haver proferido estas e mais uma dúzia e meia de sandices deu de explicar os métodos que ela achava legítimos para ser bem sucedido numa greve. Para ilustrar seus métodos, ela imaginou uma greve hipotética de professores. Um “fura-greve” desta situação imaginária deveria ter um tratamento especial. Segundo ela, deve-se jogar barro na sala de aula, sujando paredes, carteiras, quadros negros; deve-se jogar creolina no chão para tornar impossível assistir aula do professor “fura-greve” hipotético, deve-se jogar tinta nas caixas d’água da nossa escola hipotética, para que as pessoas ali não tenham água para beber. Todos esses, segundo ela, recursos válidos para que se obrigue uma pessoa a fazer o que ela não quer.

Agora, a pérola final: todas as coisas descritas acima, devem ser feitas “sem violência”, segundo a mestra.

Perguntei como era possível que ela não considerasse os atos que havia descrito como não sendo também violência.

“Não”, disse ela, “não é violência.”

Dona de verdades históricas que só ela conhece, de uma ética toda própria e agora dona da língua portuguesa e da definição da palavra “violência”, percebi que era inútil argumentar com tal monstro.

Silenciosamente, sem procurar afrontá-la na sala de aula, procurei nos dias seguintes o coordenador do pré-vestibular para lhe expor o que estava acontecendo e pedir que tomasse providências: afinal, eu estava pagando para ter um ensino com um mínimo de qualidade, e aquilo havia passado dos limites.

O professor Rogério, então a cargo do pré-vestibular, anotou as questões que foram por mim lembradas no momento e prometeu fazer algo a respeito.

Magnífico profissional, interessado na qualidade do serviço que oferece, ele simplesmente entregou a mesma folha em que anotou as minhas reclamações à tal Silvana. Não se lembrou de checá-las por si mesmo. Aliás, nem ficou espantado quando eu as listei, logo ele que me disse ser professor de história também.

Qual não foi a minha surpresa, quando diante da classe, com o papel surrado com as anotações do professor Rogério na mão, reafirmou como correto tudo o que havia dito, mostrando que nem mesmo se deu ao trabalho de abrir a apostila do próprio Colégio Americano Batista, onde se poderia ver claramente alguns dos seus erros. Ainda afirmou que “a sua aula não era para debate”.

Como é óbvio, não é questão de debater. Todos nós já tivemos professores ruins. Todos já tivemos professores que não ensinam direito. Mas pela primeira vez na vida eu estive numa sala onde um professor ensina coisa errada.

Não estou acostumado com tal tipo de aberração, perdi a calma, me levantei, “Você é um engodo”!, disse, que ela “estava enganando as pessoas ali presentes, que ela não sabia nada de história”, e que já que a aula dela não era para debate, eu a estaria esperando no corredor, quando acabasse a aula para explicar a ela e a quem quisesse os absurdos que ela havia cometido.

Nesta noite apenas dois alunos foram me procurar para saber afinal de contas do que eu estava falando. Ao final da sua aula, ela foi por mim convidada para um debate, obviamente recusado, já que esse tipo de confronto, imagino, poderia desmascarar a sua evidente incompetência que, compreensivelmente, ela deve querer proteger.

A partir desse dia, para evitar constrangimentos aos meus colegas, não freqüentei as aulas de história geral, que pensei atrapalhavam mais do que ajudavam a quem a ouvia. Mesmo assim, muitos colegas vieram me procurar a respeito de algumas questões que a tal senhora havia “ensinado”. A todos eu recomendava que fossem conferir as informações duvidosas em livros, ou na apostila, que não dependessem de mim para lhes esclarecer, por que toda a situação me havia tornado suspeito para opinar sobre a matéria dada por aquela criatura. A surpresa, desta vez, foi dos que seguiram meu conselho.

Deixei que se passassem algumas semanas, conversei com muitas pessoas sobre o ocorrido para que a cabeça esfriasse e eu pudesse pensar em algo de racional a fazer. Talvez eu pudesse estar errado, talvez tivesse exagerado. Mas não era o que diziam os livros e a minha consciência.

Tão surpreendente quanto a existência de uma professora como essa foi a reação dos alunos meus colegas. Na noite em que eu perdi a calma e saí da sua aula, quase todos ficaram calados. Um coleguinha até me disse pra sair mesmo, que a porta da rua era serventia da casa, essas coisas.

Outro, que havia faltado à aula nesse dia me procurou pra perguntar o que eu havia feito, o que é que eu havia questionado. “Como é que você sabe isso?” “Do mesmo jeito que você deveria saber”, respondi. “Lendo. A apostila já serve.”

Voltei a procurar o coordenador do Pré-Vestibular, o professor Rogério. Afinal de contas, eu havia apresentado fatos concretos, e nada havia acontecido. Ele me pediu para que novamente relatasse as minhas queixas, e me passou o seu endereço de correio eletrônico, rogerio@americanobatista.br, para que eu pudesse fazê-lo. Apesar da confirmação do e-mail ter sido recebido, segundo o meu provedor, não obtive resposta nem nada aconteceu. Escrevi novo e-mail perguntando pelo primeiro; nada, nenhuma resposta, apesar de ter recebido confirmação de recebimento também do segundo. Como tenho mais o que fazer do que ficar resolvendo esse tipo de problema, fui me dedicar à primeira prova do vestibular. O professor Rogério, grande profissional, apesar da gravidade do que apresentei, não se mostrou muito curioso e também não me procurou para esclarecer o assunto, que como disse dessa segunda vez, se aproximava de artigos do código penal brasileiro.

Novamente, nada aconteceu. Passei na primeira etapa do vestibular. Para a segunda etapa escalaram um outro professor para a nossa turma. Na semana anterior às provas da segunda etapa eu vi que essa criatura estava escalada para nos dar aula novamente. O que me motivou a procurar uma terceira vez a coordenadoria do Pré-vestibular, com um relato escrito do que havia acontecido até então, que muitas partes estou aproveitando aqui neste texto e esperando que alguém fizesse alguma coisa.

Desta vez quem me atendeu foi a senhora Leni, que ocupava provisoriamente pelo que entendi o cargo que era então do professor Rogério. Dona Leni leu o meu relato na minha presença, e prometeu encaminhar o caso ao senhor Ibrahim, diretor pedagógico do Colégio Americano Batista.

Mas então já era a última semana do vestibular, os horários dos professores já estavam definidos, e tudo o que ela poderia me oferecer era um convite para assistir às aulas de História Geral em outra turma, com outro professor, em outro horário. Deixei pra lá, agradecido por ser ao menos ouvido e pela esperança de que o alguma coisa fosse feita.

O ano letivo acabou, e eu nunca mais ouvi falar destas pessoas. O Colégio Americano jamais me procurou, e a tal professora, a julgar pela publicidade do colégio, continua lá a “ensinar”.

***

Minhas opiniões sobre o assunto, se é que elas interessam:

Na minha opinião, um professor que ensina matéria errada para os alunos é um estelionatário, um vigarista educacional. É pior que um ladrão, um bandido. Esse pelo menos a gente tem certeza que tá agindo mal. Quando se contrata um professor, acredita-se que ele saiba do que está falando. Quem não tem outras fontes de informação não pode nem se defender do mal causado por um mau professor.

Na minha opinião, apesar de meu pensamento ser radicalmente oposto, é perfeitamente normal que uma pessoa acredite e até mesmo, vá lá, que ensine que a violência é um meio legítimo de obrigar as pessoas a aderirem a idéias que não são as suas.

Mas esses métodos não estão no programa de nenhum vestibular, e quero crer que o Colégio Americano não endosse a posição da professora a esse respeito. Portanto talvez fosse melhor que ela ensinasse tais conceitos em outro espaço, para pessoas que soubessem que vão ouvir esse tipo de coisa desde o começo do ano lendo o programa da disciplina. Talvez ela devesse abrir seu próprio curso.

Quando vi uma monstruosidade dessas sendo cometida na minha frente, e podendo fazer alguma coisa a respeito, acreditei ser meu dever moral tomar uma providência e eu o fiz da única maneira que me parece razoável. Questionei a direção do Colégio sobre o assunto e para tornar ainda mais público aquilo que as pessoas na nossa sala de aula presenciaram.

Isso não deveria ser nenhum problema, afinal, se a senhora em questão ensina essas idéias em sala de aula, não deve temer que elas sejam conhecidas fora de lá.

O ideal seria que esta senhora se pronunciasse sobre o ocorrido, que lhe fosse dada ampla oportunidade de defender sua posição, e ela, caso isto aceite e que a mim parece razoável e justo, vai precisar mesmo de um bom tempo para explicar a situação constrangedora em que ela própria se pôs: Se reafirmar os erros apontados por mim ao colégio, mostra que é incompetente. Se negar o que disse em sala de aula, não só uma, mas pelo menos duas vezes, em frente a dezenas de alunos, estará mentindo.

Talvez ela pudesse, sabe-se lá, num arroubo de ética, humildade e consciência, admitir que estava errada, voltar aos livros e aprender o que deve ensinar, de modo a não prejudicar mais pessoas como até agora vem fazendo. Se bem que isso já não me interessa tanto, e é problema dela e das pessoas que a contratam para dar aulas.

Mas o dano que ela causou com seus erros a sabe-se lá quantos jovens que acreditaram que estavam obtendo informação legítima que permitiria disputar o exame vestibular em iguais condições com pessoas de outros colégios, esse talvez seja difícil de reparar.

Marcello Alves da Silva
Ex-aluno do curso pré-vestibular noturno
Colégio Americano Batista
Praia do Canto – Vitória, ES
e-mail: celloalves@bigfoot.com

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