Meditação de Natal

Olavo de Carvalho

Jornal do Brasil , 25 de dezembro de 2008

Se há no mundo uma coisa óbvia, é que o cristianismo não é na origem uma doutrina, mas uma narrativa de fatos miraculosos. O próprio Jesus deixa isso muito claro em Mateus 11:1-6, quando lhe perguntam quem Ele é: “Contem o que ouviram e viram: os cegos enxergam e os paralíticos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem e os mortos se levantam”. Se essa é a autodefinição de Jesus, essa é a definição do cristianismo: não um discurso doutrinal, mas uma sucessão de milagres.

Mas vivemos numa época tão estúpida que as pessoas, mesmo crentes, já não conseguem conceber o que seja um milagre: acreditam que é um acontecimento estranho ao qual se atribui uma “causa divina” por falta de uma “explicação científica”. Essa idéia é absurda. Vejam, por exemplo, o milagre de Fátima: ele junta, num só momento do tempo, uma variedade de acontecimentos correlatos – as aparições, milhares de curas de doenças, as profecias confirmadas pelo decorrer da História e, por fim, a “dança do Sol”, vista a centenas de quilômetros por pessoas sem a menor idéia dos demais fatos que ocorriam simultaneamente. Uma “explicação materialista” requereria uma superciência inexistente e, a rigor, impossível, que fosse capaz de encontrar uma causa material comum não só para os variados fatos de ordem histórica, médica e astronômica que compõem o episódio mas para a sua convergência naquele instante e lugar, bem como para a sua coincidência acidental com a simbólica e as doutrinas cristãs.

Na verdade, todo milagre é assim: não é um fato recortável nos padrões desta ou daquela ciência existente ou inexistente, mas um complexo inseparável, e inexplicavelmente harmônico, de diferentes fatos pertencentes a diferentes planos de realidade. Não pode haver uma “explicação científica” dos milagres antes da sua descrição científica, e esta não pode ser válida se começa por mutilar os dados que pretende explicar. Não obstante, a mera hipótese de uma “explicação material” futura, embora problemática e virtualmente impossível, é usada com freqüência como argumento cabal para negar de imediato o caráter miraculoso de fatos bem comprovados. Suponham que seja possível encontrar uma explicação médica para a menina que, curada pelo Padre Pio de Pietrelcina, enxerga sem pupilas. Seria ainda preciso explicar a coincidência de que esse fato médico inusitado acontecesse em seqüência com centenas de outros fatos miraculosos, uns semelhantes, outros diferentes, ocorridos no curso de uma mesma vida de santo. Por exemplo, o fato de que o mesmo sacerdote conhecesse tão bem a vida secreta de tantas pessoas que ele via pela primeira vez, ou de que, ao contrário, fosse visto à distância por pessoas que nunca tinham ouvido falar dele, e que depois ao conhecê-lo confirmavam o que ele lhes havia dito nessas aparições. O Padre Pio de verdade, efetivamente existente, é o mesmo ser humano concreto que fez todas essas coisas, e não as fez em momentos isolados, inconexos, mas no curso de uma vida coerentemente dedicada àquele que, no seu entender, era o Autor desses milagres. Qual o nexo comum entre esses vários fatos – entre a disciplina cristã do Padre Pio, a menina que vê sem pupilas, as aparições à distância, os segredos íntimos conhecidos à primeira vista, etc. etc.? Ou você encontra esse nexo, ou as “hipóteses científicas” que você inventou para explicar um ou outro detalhe isolado – só existente como tal na sua imaginação abstrata – não serve para absolutamente nada. A impotência da ciência materialista ante os milagres não é um obstáculo temporário que possa ser removido por “progressos” futuros: é um abismo intransponível. Os milagres, a começar por este que celebramos hoje, não são fatos comuns provisoriamente inexplicados: são fatos de uma ordem específica, com uma estrutura interna reconhecível e irredutível, distintos não só dos fatos acessíveis a esta ou àquela ciência materialista, mas até mesmo a uma utópica articulação de todas as ciências materialistas existentes ou por existir.

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