Marcel van Hattem entrevista Olavo de Carvalho

“Acabaram com a inteligência no Brasil” – Entrevista com Olavo de Carvalho

4 de abril de 2014

A entrevista exclusiva concedida pelo filósofo e jornalista Olavo de Carvalho foi destaque de capa da Revista Voto deste mês.

“Todo mundo no Brasil é idiota até prova em contrário”, declarou; e advertiu: “sem restaurar a cultura no Brasil, não dá para fazer política”.

Foi um prazer e uma grande honra a oportunidade de entrevistá-lo. Leia a íntegra abaixo!

Olavo de Carvalho: “Acabaram com a inteligência no Brasil”

Entrevistado por Marcel van Hattem

Apesar de assumir rótulos tidos como repulsivos pelo que chama de “establishment esquerdista na mídia, na cultura e na política brasileiras”, Olavo de Carvalho é um fenômeno virtual no país. Residindo há quase uma década nos Estados Unidos, o jornalista e filósofo tem um público fidelíssimo no Brasil – e grande parte dele foi conquistado nos últimos anos, pela internet. Somente no Facebook ele possui mais de 50 mil seguidores em seu perfil. Sua fama na internet intensificou-se a partir de 2007, com o seu Seminário Online de Filosofia. “Eu achava que teríamos uns 100 alunos. Hoje temos mais de 3 mil de todo o Brasil e do exterior também”.

Com vasta obra publicada, seu recente livro “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, organizado por Felipe Moura Brasil e publicado pela Record, continua aparecendo nas listas dos livros mais vendidos. Em entrevista exclusiva à Revista Voto concedida da sua casa na Virgínia, Olavo de Carvalho fala sobre política, cultura e por que não quer voltar ao Brasil. Nunca mais.

O senhor é hoje considerado uma das mais importantes vozes do conservadorismo no Brasil. O senhor tem percebido também um aumento no número de núcleos conservadores no País?
Sim, formidavelmente. Durante muito tempo fiquei totalmente sozinho na mídia. Era um negócio tão esquisito que as pessoas nem entendiam o que eu estava falando. Aos poucos, começaram a ler mais, a se interessar. Hoje é muita gente. Pelas pesquisas feitas pela Folha (de S. Paulo), vê-se que o público brasileiro é acentuadamente conservador. Ele só não tem canais, não tem liderança, não tem porta-voz. Agora já tem alguns – não propriamente na política, mas no jornalismo e na internet, na cultura.

E por que na sua opinião não há conservadores na política brasileira?
Isso começa já no tempo dos militares. Os militares, ao invés de incentivar alguma política liberal ou conservadora, simplesmente mataram a política. Tinham uma ideia tecnocrática, remotamente inspirada no positivismo de Augusto Comte, que dizia que os problemas políticos deveriam ser resolvidos pelo método científico. Mais ainda: todas as organizações da sociedade civil que participaram do movimento de 64 foram definhando e o governo as deixou às traças. Portanto, desapareceram não só a política como também as lideranças da sociedade civil e abriu-se espaço para as lideranças comunistas ocuparem. A guerrilha foi eliminada, mas a esquerda pacífica, entre aspas, ocupou todos os espaços. Podemos dizer sem sombra de dúvidas que a esquerda dominou completamente a mídia e as universidades já durante a época da ditadura, sem que o governo nada fizesse para impedir isso, nem mesmo no embate cultural.
*A hegemonia esquerdista na mídia, a ocultação de fatos inconvenientes à esquerda já vem desde o tempo da ditadura. Em 1965 saiu o livro do Edmar Morel, o “Golpe Começou em Washington”. Se espalhava aí a tese de que o golpe havia sido tramado e financiado pelo governo americano e todo mundo acreditou nisso. Isso é até hoje ensinado nas universidades e é repetido na mídia. Qual é a origem disso? É um mito criado pela KGB em 1964. A tese oficial, da esquerda, é a seguinte: em 1964 tínhamos um governo democrático e não havia perigo comunista algum. Foi tudo um delírio, um pretexto dos golpistas para derrubar um governo legítimo. Mas foi o contrário, tudo comprovado por documentos soviéticos: a penetração da KGB no Brasil era avassaladora. A KGB estava controlando a situação. Havia um perigo comunista manifesto, havia uma presença comunista.

A Petrobras era a 12ª empresa no mundo e hoje é a 120ª e o grande período de decadência tem sido nesses últimos anos. A que o senhor computa isso?
Quando um político revolucionário, comprometido com o movimento revolucionário continental como o Foro de São Paulo, assume o governo do País por vias democráticas, ele tem que atender simultaneamente a dois tipos de compromisso: ele sobe lá com um programa que ele precisa cumprir e, por baixo disso, ele tem uma outra série de compromissos que é com o próprio movimento revolucionário. Esses compromissos com o movimento são muito mais fortes do que os outros. Ele vive em um regime de dupla lealdade. Quando o Lula assume, ele tem um programa econômico, mas por baixo disso tem o plano de implantar o socialismo. Para implantar o socialismo há que se ter uma política dúbia, que por um lado mantém a economia mais ou menos funcionando, para não criar hostilidade popular, mas que por baixo esteja solapando tudo. E criando crise social. Ninguém vai entender o Lula, os governos do PT, se os encarar de uma maneira linear. Raciocinar de maneira dialética, pensar em dois planos, isso é da tradição do movimento revolucionário.

Nesse sentido, o Brasil pode estar seguindo o mesmo rumo da Venezuela?
Pior. Pior porque na Venezuela há uma imensa oposição organizada, ativa, e no Brasil não há nada. No Brasil, os próprios militares desmantelaram a direita brasileira.

E os protestos de junho, não podem ser comparados ao que acontece hoje na Venezuela?
Não, não podem. Pelo seguinte: há uma insatisfação enorme por causa dos impostos, mau serviço público, falta de segurança – o Brasil tem 70 mil homicídios por ano, uma coisa absurda! Os movimentos de junho foram criados pelo próprio governo, pelo pessoal do Foro de São Paulo para acirrar as contradições e encerrar a fase de transição, que foi o governo Lula, e passar para a implantação do socialismo. Esta era a ideia. Botaram a garotada na rua, treinaram uma parte para gritar, outra para fazer depredação. No entanto, uma parte da população saiu voluntariamente à rua, ocupando mais espaço do que a militância treinada. É um acontecimento inédito, nunca houve uma manifestação espontânea desse tamanho em país algum. Não tinha liderança, não tinha organização, não tinha coisa nenhuma. Só o pessoal da esquerda que tinha organização.

*Essas manifestações espontâneas não foram positivas para o Brasil?
Claro que foram positivas mas foi uma ação completamente difusa, desordenada, não aproveitável politicamente. Isso só nos informa de uma coisa que nós já sabíamos: que o povo estava “por aqui” com o governo. Quem é que não sabe disso? Mas esse mesmo povo não tem canais de atuação. Todas as organizações da sociedade civil, escolas, igrejas, sindicatos, clubes, tudo está na mão da esquerda. Ou seja, a sociedade civil está contra o governo, mas os órgãos que a “representam” estão a favor do governo.

*Como o senhor explica a alta popularidade da Dilma e de Lula nas pesquisas?
É muito simples: você tem que votar entre os candidatos que existem. Mostre-me um candidato que represente a nação brasileira, a nação conservadora, cristã, etc. Não tem nenhum! Então tem-se que escolher entre o que se tem. Veja o pessoal do PSDB: são sempre pessoas inócuas. José Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, são pessoas que não dizem nada. Nas eleições temos pessoas de esquerda diluída e outras de esquerda autêntica, como a Dilma. Em um campeonato de esquerdismo ganha o mais esquerdista, evidentemente. O próprio Lula observou que nas últimas eleições só havia candidatos de esquerda. Então, forçados a escolher entre candidatos de esquerda, o eleitor escolherá o mais popular, o mais notório.

Os rumores de que Lula poderia voltar a se candidatar à presidência da república têm fundamento?
É bem possível. Acho que ele quer, quer muito. Ele é isso. Toda a vida dele foi feita para ele virar o que ele virou. Ele não é capaz de fazer outra coisa. O que o Lula vai fazer? Escrever suas memórias? Vai abrir uma empresa?

Seu livro, organizado por Felipe Moura Brasil é intitulado “O Mínimo que Você Precisa Saber Para Não Ser um Idiota”. Quem é o idiota?
Em princípio, todo mundo no Brasil é idiota até prova em contrário. Por quê? Este é um país que odeia o conhecimento. Há mais de dez anos nossos alunos da escola secundária tiram sistematicamente os últimos lugares em todos os testes internacionais, abaixo de estudantes do Paraguai, da Serra Leoa, de Uganda. Dizer que o brasileiro é o povo mais burro da face da terra não é portanto exagero nenhum, é uma questão de estatística. As pesquisas mostram que entre 35% e 50% dos nossos universitários são analfabetos funcionais. Ou seja: é esse pessoal que está sendo diplomado. Os nossos professores universitários, os nossos advogados, nossos sociólogos, filósofos, todos analfabetos funcionais! Então é claro que é um bando de idiota. Não estou xingando, é uma constatação quantitativa. Isso quer dizer que, com o desaparecimento da alta cultura no Brasil para instalar a máquina de propaganda do PT, acabaram com a inteligência do Brasil.

Muitas pessoas que lerão esta entrevista acharão que o senhor é muito radical e muito pessimista…
Então, está bem! Na primeira vez que foi noticiado que nossos estudantes do secundário tinham tirado último lugar nos testes internacionais, o ministro da educação à época disse: “poderia ter sido pior”. Como assim, tem algum lugar abaixo do último? Isso é que é um otimista no Brasil! Abaixo do último não tem pra onde cair. Quando você chega a 70 mil homicídios por ano o que você espera que aconteça? Quem pode ser otimista diante de uma coisa dessas? Estou discutindo uma questão objetiva, fatos e números. Aí o sujeito vai dizer, “você é muito radical”. Quer dizer que se eu fosse menos radical o número de homicídios diminuiria? Isso é puro raciocínio mágico.

Então qual é na sua opinião a saída para o Brasil?
A única saída possível é o pessoal liberal e conservador começar do começo: tentar começar a organizar a sociedade civil desde as suas bases mais modestas e locais. Experimentem tomar um sindicato, uma redação de jornal, uma organização religiosa. Mas eles não querem. Os comunistas começaram no pequeno, tomando as organizações da sociedade civil há mais de 60 anos, e foram crescendo. Só que os liberais e conservadores não querem fazer isso, querem chegar por mágica, querem dominar o país sem terem dominado a sociedade civil. Isso nunca vai dar certo.

O senhor está há nove nos EUA e não retornou para o Brasil…
Nenhuma vez e não volto mais aí.

O que faria o senhor voltar?
Nada. Absolutamente nada. Eu não pisarei mais nesse país. Já me esforcei muito por este país e continuo me esforçando. Só que ficar aí dentro é ficar impotente. Daqui de fora dá para fazer alguma coisa, daí não dá para fazer nada. *Não quero ficar deprimido em ver o Brasil. Conheci a cidade de São Paulo nos anos 1950, 1960. Um pouco bagunçada, trânsito terrível, mas era uma cidade bonita. Na época em que eu saí do Brasil, todos os prédios estavam grafitados, via-se mendigo por toda a parte, uma coisa horrível. Pegue uma foto de uma rua do centro de SP nos anos 50 e outra agora. O sujeito fosse ele pobre ou rico, nos anos 1950 estava andando de terno, gravata e até chapéu. Todo mundo vestido decentemente. Agora, não! Estão os caras de bermuda, barriga de fora e chinelo havaiana. Todo mundo! É uma deterioração estética, visual, absolutamente insuportável. A cabeça de uma pessoa que é criada no meio da feiúra, da desordem e da bagunça nunca vai funcionar. A feiúra no Brasil já virou valor. Há a feiúra estética, na indumentária, na música. A feiúra na esculhambação e no esculacho geral. Qual o conceito de beleza do brasileiro? É uma bunda grande e lisinha. Na minha opinião, a personalidade se vê pelo rosto. Você concebe um sujeito apaixonado dizer para a sua amada: “amarei a sua bunda até o fim dos meus dias”? Você vê até que ponto a coisa foi rebaixada?

Mas o que move o senhor a continuar o trabalho relacionado ao Brasil, apesar de estar nos EUA e não querer voltar ao país?
É a minha vida, tudo o que estou fazendo é pelo Brasil. Eu só não quero ser contaminado pela loucura, mas preciso fazer algo pela reabilitação da cultura brasileira. Os escritos de alunos meus que começaram a aparecer recentemente – do Felipe Moura Brasil, do Rafael Falcon, do Gustavo Nogy, do Flavio Morgenstern, e vários outros: esse pessoal está em um nível infinitamente superior ao da média dos universitários e jornalistas brasileiros. Sem alta cultura não dá para fazer nada. Não dá para fazer política. Dizia o poeta austríaco Hugo von Hofmannsthal: “nada está na política de um país que não esteja primeiro na sua literatura”. Sem restauração da alta cultura é bobagem pensar em política.

Nota do entrevistador: Trechos iniciados por asterico (*) e até o final dos respectivos parágrafos não constam da versão impressa por limitação de espaço. Aproveitei o post nesta página do Facebook para mantê-los.

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