Kubrick e Jung

José Nivaldo Cordeiro


10 de outubro de 2001

O recente lançamento dos filmes de Kubrick em DVD permitiu-me revisitá-lo em seqüência, o que ajuda a reconhecer a unidade da obra, seja na sua temática inspiradora, seja na técnica. Toda a obra de Kubrick é uma saga em busca do Divino; a pergunta permanente que faz o grande diretor é sobre o sentido da vida. O que retrata radicalmente é o diálogo e a oposição entre o Bem e o Mal. Seus filmes são recheados do simbolismo mais sagrado, cruzes, mandalas, círculos, estrelas, cores rituais, as dualidades corpo/alma, razão/emoção, eterno/efêmero, homem/mulher, luz/sombra, consciente/inconsciente, morte/renascimento, Criador/criatura, entre outras.

Em qualquer dos gêneros que explorou, da sátira (Dr. Strangelove, Laranja Mecânica), ao drama romântico (Lolita), passando pelo épico (Spartacus, Barry Lyndon), terror (O Iluminado), guerra (Nascido para Matar), ficção científica (2001, Uma Odisséia no Espaço) e, sobretudo, no drama religioso por excelência que é o Eyes Wide Shut, sua obra síntese, o apogeu do trabalho de toda a vida, está a referência constante a Jung. Por isso seus filmes têm sido tão incompreendidos pela crítica, que insiste em colocar o instrumental do materialismo dialético e da psicologia freudiana onde não cabem. Ambas as correntes de pensamento são incapazes compreender a obra, pois estão muito aquém do objeto a ser compreendido. Como, via de regra, a crítica só dispõe desses toscos instrumentos, perde-se em palavras vãs, descoladas completamente do objeto analisado.

É impossível a compreensão da obra de Kubrick para aqueles que são pouco versados em religião. É claro que o espectador poderá até satisfazer seus gostos estéticos, pela maestria da condução do diretor, pelo detalhismo requintado das narrativas, pelo ótimo elenco escolhido a dedo para cada papel, pelos cenários magníficos, pela música magistral, pelos efeitos especiais, sempre à frente do tempo de cada produção. Mais difícil ainda é a compreensão para quem desconhece as obras de Jung. Kubrick é integralmente um junguiano, desde o princípio. Não apenas pela temática religiosa obsessivamente perseguida, mas sobretudo pela exploração dos duplos em praticamente todos os filmes, pela investigação sistemática das profundezas da alma. A sua obra é a psicologia profunda aplicada ao cinema. Não bastasse isso, ele faz uma citação literal de Jung no Nascido para Matar, na cena em que o soldado/repórter responde ao coronel sobre o lema escrito no capacete (born to killer) e o símbolo da paz no broche pregado no peito. Em O Iluminado, a criança com a dupla personalidade é ela mesma uma homenagem à pessoa do Jung, que relata a mesma experiência no seu Memórias, Sonhos e Reflexões.

O símbolo da cruz pode ser encontrado em praticamente toda a obra. Quem não lembra de Spartacus crucificado com os seus, numa tocante e poética prefiguração de Cristo? Não obstante ser um judeu, Kubrick mostra uma fascínio enorme pelas coisas do Cristianismo. E, ao contrário Spilberg, não fez nenhuma obra com temática tipicamente judaica. No Barry Lyndon, por exemplo, obra na qual o Fado é sublinhado de forma muito junguiana, na cena do duelo entre o personagem-título e seu enteado, em um ambiente que mais parece a nave de uma igreja, como um duelo entre o Bem e o Mal, vemos no alto as cruzes resplandecentes na forma de janelas, iluminando o nobre gesto de Lyndon, o guerreiro, poupando a vida do enteado ressentido. Magnífico instante daquele filme.

Da mesma forma, o 2001, Uma Odisséia no Espaço vai levar aos confins do Sistema Solar um engenho humano recheado de símbolos, cruzes, mandalas e círculos, em que o diálogo da criatura com o Criador é metaforicamente exposto na relação da tripulação com o computador Hal. Este humaniza-se ao errar e, ao tornar-se humano, repete a cena inaugural na qual macacos tornam-se assassinos caçadores, testemunhados pelo mesmo enigmático monolito. O próprio formato da nave lembra um espermatozóide penetrando na escuridão cósmica, fertilizando o universo. É o mergulho da humanidade em busca de si mesma.

Em O Iluminado, a frase grifada pelo personagem (“Mais siso e menos riso fazem o Jack infeliz”) é um instante em que a dualidade razão/emoção, mente/coração, o apolínio e o dionisíaco se chocam. Há um claro renascer de Dionísio no Ocidente nos últimos séculos, um nome pagão para o que a mitologia cristã chama de Diabo, em disputa com o caráter apolínio de Cristo. Siso contra o riso, razão x emoção: é o Diabo enganador mais uma vez desviando a humanidade mediante a promessa da felicidade fácil e falsa. A existência é e sempre foi um fardo, uma cruz a ser carregada. A festa que ele oferece é apenas uma festim antropofágico contra a entrega da alma, ou seja, da própria liberdade espiritual, da própria essência do Ser. Nesse filme, o sonhado e real se confundem. O sonho é a realidade.

Finalmente, o Eyes Wide Shut leva a expressão dos sonhos interagindo com a realidade ao limite dos recursos do cinema. O olho interior pode ser desnudado mediante a retirada de um simples pano negro. Inversamente, ao colocar o pano negro, ou seja, ao adormecer, a pessoa passa a viver uma outra realidade pelo olho interior, pelo onírico. E esse olho vê aquilo que está sob a superfície, o nefando, o sensualidade desenfreada, a perda do “siso para o riso”. No entanto, o mergulho no mundo onírico é a condição para o conhecer-se a si mesmo, para o encontrar-se, para a redenção. No Laranja Mecânica há uma cena em que o personagem protesta que a retirada do julgamento moral em alguém retira-lhe a condição humana. Em outras palavras, é necessário ao Homem confrontar-se com o Mal na plenitude de sua liberdade e inteireza, Mal que lhe aparece de todas as formas, nos duplos feminino/sombra/interior. Para buscar a luz é antes necessário renascer do reino das trevas. Para a plenitude, é preciso descobrir o Outro, sobretudo o feminino (o inverso vale para a mulher). Para renascer antes é necessário morrer. O sexo despojado de seus aspectos demoníacos é o que permite a Vida, a vinda das novas gerações, a sacralidade da união homem/mulher que é a magia da existência e a própria expressão da Divindade. Let’s a fuck!

A obra de Kubrick é uma oração ao Indizível. É o olho de um filósofo perscrutando as profundezas da alma. É uma lição de vida, mas para isso é preciso ter olhos para ver, é preciso retirar a trava do olho que impede ao espectador a percepção da realidade mais profunda.

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