Excesso de delicadeza

Olavo de Carvalho

Diário do Comércio, 17 de setembro de 2007

Ainda há quem seja otário o bastante para, observando a fidelidade conjugal que no fim das contas reina entre o governo petista e os banqueiros internacionais, concluir que os comunistas mudaram, se aburguesaram, só pensam em dinheiro e não querem mais saber de revoluções.

Não contesto o direito à ignorância, mesmo radical e completa. Mas por que raios cada um que me aparece com essa idéia cretina tem de expressá-la com ar de sabedoria paternal, como se estivesse desvelando a realidade do mundo ante a minha inexperiência juvenil?

Aos sessenta anos, boa parte dos quais dedicados ao estudo das ideologias revolucionárias, não tenho mais a obrigação de ouvir polidamente essa patacoada arrogante. Respondê-la com palavrões já é delicadeza excessiva da minha parte. O certo mesmo seriam pontapés no traseiro.

Quem quer que tenha estudado a história do movimento revolucionário sabe que comunistas e banqueiros vivem em simbiose, comprovadamente, desde há pelo menos um século. Como no Brasil ninguém estuda nada, cada um se crê no direito de anunciar como novidades explosivas as obviedades centenárias que acabam de lhe chegar aos ouvidos.

O problema é que, quando você não sabe a data das notícias que alardeia, não pode compreender o sentido delas. Se você acha que a conduta do PT prova uma mudança da mentalidade comunista, é porque imagina que os comunistas de antigamente eram diferentes, eram puros idealistas revolucionários que jamais se rebaixariam a jogar o jogo do grande capital financeiro. Então me diga: Quem eram os contatos de Trotski nos EUA quando de sua primeira viagem à América? Quem financiou a construção de toda a indústria pesada soviética, prolongando por décadas a sobrevida de um regime impossível que já nascera moribundo? Quem alimenta de dinheiro toda a esquerda americana e uma infinidadade de movimentos anti-americanos no mundo inteiro? Quem salvou da debacle o Partido Comunista chinês, fomentando do exterior a recuperação de uma economia que até então só crescia em número de mortes por desnutrição?

Se os comunistas deixassem de ser comunistas cada vez que vão para um motel trocar afagos com banqueiros, Lênin teria entrado para a História como comandante do Exército da Salvação.

O caso de amor entre esses dois tipos de criaturas aparentemente incompatíveis tornou-se ainda mais intenso desde que, na década de 20, os teóricos marxistas mais avisados – Georg Lukacs, os frankfurtianos e Antonio Gramsci – saíram gritando que o inimigo primordial a ser destruído não era a economia capitalista, mas “a civilização judaico-cristã”. O programa traçado por eles, que na época parecia distante das preocupações imediatas do militante comunista vulgar (e até agora não chegou ao conhecimento dos idiotas acima referidos), está hoje sendo aplicado em escala planetária, e sua implementação acelerada reflete a colaboração estreita entre o grande capital financeiro e a rede global de organizações comunistas – os dois braços da revolução mundial. Abortismo, desarmamento civil, sex-lib , feminismo, gayzismo, criminalização da moral religiosa, controle estatal da vida privada e tópicos similares são hoje infinitamente mais importantes para a estratégia revolucionária do que as divergências estereotipadas entre políticas econômicas “populistas” e “elitistas” (ou “progressistas” e “neoliberais”). Onde essas divergências monopolizam o espaço das discussões públicas, como acontece no Brasil, é precisamente porque servem para camuflar o essencial, para expulsar da vida pública o conservadorismo genuíno fundado em valores morais e religiosos e para dividir todo o espaço político e cultural entre a esquerda e uma “direita” postiça, criada especialmente para isso, uma articulada à outra de tal modo que, seja pela via

“populista” ou “elitista”, indiferentemente, a mutação revolucionária do mundo continue avançando.

A pessoa mesma do sr. Luís Inácio Lula da Silva, homenageada simultaneamente em Davos por sua conversão à economia de mercado e no Foro de São Paulo por sua fidelidade inalterável ao comunismo, é o símbolo vivo desse acordo essencial, mas os tagarelas que falam dela o dia inteiro, para louvá-la ou para maldizê-la, parece que não enxergam de maneira alguma a identidade do personagem. Também não enxergam, por isso mesmo, a natureza traiçoeira e cúmplice de uma “oposição” que só combate o petismo no campo das discussões econômicas e das cobranças moralistas, abstendo-se de toda crítica ideológica e de toda menção à estratégia comunista maior por trás de tudo; oposição que, uma vez no poder, faz avançar a mutação social e cultural revolucionária em velocidade ainda maior do que poderiam fazê-lo os próprios petistas.

Não por coincidência, mas por um cálculo psicológico muito preciso, cada nova regra “politicamente correta” que se incorpora aos hábitos sociais perde imediatamente sua aparência comunista originária, de modo que os milhões de trouxas submetidos à sua jurisdição se sentem cada vez mais distantes do perigo comunista quanto mais se adaptam ao tipo de cultura revolucionária concebido por Lukacs e Gramsci. É precisamente o que este último chamava de “autoridade invisível e onipresente” do Partido Príncipe. Nunca a palavra “subversão” descreveu tão adequadamente uma estratégia. É a inversão desde baixo, ou, como a chamava Walther Rathenau, a “invasão vertical dos bárbaros”. Enquanto o poder do grande capital permanece intacto, ou até se fortalece, a “revolução cultural” vai invertendo um a um todos os critérios da razão, da moral, do direito, criando em torno de nós uma infinidade de controles sociais opressivos e absurdos que parecem inventados pessoalmente pela Rainha de Copas. E tudo realizado de maneira indolor, insensível. Dentro de poucos anos, o sujeito ser preso por ler em voz alta certos versículos da Bíblia será considerado a coisa mais natural do mundo, e quem quer que diga que a perseguição anti-religiosa é a realização de um velho plano comunista será tido por louco. Perdão: isso não acontecerá dentro de alguns anos. Já está acontecendo agora.

Do ponto de vista econômico, a unidade do processo revolucionário em curso pode ser resumida da seguinte maneira. Pelo menos desde Stálin nenhum economista marxista acredita em estatização total da economia. Todos sabem que um vasto resíduo de economia de mercado é impossível de eliminar. O máximo que se pode fazer, para perseverar na linha de controle estatal concebida por Marx, é concentrar ao máximo o capital e ao mesmo tempo atrelar seus interesses aos de uma elite governante que por sua vez concentre o máximo de poder político. Ora, quem pode estar mais interessado em concentração do capítal do que os concentradores de capital por antonomásia, isto é, os banqueiros internacionais? E quem pode desejar mais concentração de poder político do que os concentradores compulsivos de poder político, isto é, os partidos comunistas? A via da colaboração entre comunistas e monopolistas foi portanto aberta pelo próprio curso natural das coisas, e por esse canal vem fluindo a história do mundo desde há muitas décadas, ante os olhos cegos da multidão – incluídos nela quase todos os “formadores de opinião”, consultores empresariais, analistas estratégicos e demais pessoas iluminadas cujos pareceres custam em geral uns dez mil dólares por hora.

A fusão tornou-se ainda mais acelerada desde que o movimento comunista, graças ao narcotráfico, à exploração genial dos fundos de pensão, ao apoio dos países árabes, à rede de ONGs ativistas que sugam verbas de todos os governos do mundo e às quantias mastodônticas de dinheiro injetadas discretamente na economia ocidental pela KGB desde os tempos de Gorbachov, se tornou ele próprio tão rico quanto a elite bancária, negociando com ela de igual para igual e tendo com ela uma vasta e nebulosa área de interesses comuns onde se tornam praticamente indiscerníveis.

As vítimas do processo são a economia liberal genuína, os valores civilizacionais milenares, a liberdade individual e a consciência religiosa, estranguladas sob controles estatais cada vez mais abrangentes e opressivos, sempre sob as desculpas edificantes da modernização, do interesse público, da proteção ambiental, da eficiência administrativa e — é claro, porca miséria — dos direitos civis. Mas a maior vítima de todas é a inteligência humana, que de tanto ser desviada, ludibriada, anestesiada, vai perdendo vigor a cada dia e se adaptando a um estado crepuscular de obnubilação e semiconsciência.

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