Diana Nedelcu entrevista Olavo de Carvalho

Rádio Nacional, Bucareste, 12 de novembro de 1998

1. Quem é você, que teve a coragem de ter um pensamento tão livre neste fim de século?

Quando era jovem eu queria me tornar escritor, já possuía um domínio sólido de minha língua natal e todos me diziam que eu escrevia muito bem, mas eu me dei conta de que não tinha absolutamente nada a escrever, de que eu estava vazio de todo conteúdo que valesse a pena escrever. Assim, deixei de lado meu plano de me tornar escritor e concebi um novo plano de vida, que era o de me tornar um homem que soubesse verdadeiramente alguma coisa, mesmo não escrevendo nada. Desde então, tenho feito grandes esforços de atenção para extrair conclusões válidas daquilo que a vida me trazia e também daquilo que eu lia. Pus-me a distinguir minuciosamente, na massa de meus pensamentos e conhecimentos adquiridos, entre aqueles que eram certos e verdadeiros, aqueles que eram ao menos razoáveis e prováveis, aqueles que não eram mais que opiniões verossímeis e aqueles que eram puras fantasias da minha imaginação. Abdiquei de toda pretensão de ter uma carreira de homem de letras, para me devotar somente àquilo que se pode chamar a pesquisa da verdade para meu uso pessoal. Foi assim que me tornei filósofo. E foi assim que o mundo foi poupado de ler os execráveis livros de juventude que eu jamais escrevi.

Até os 35 anos, eu não falava de assuntos filosóficos com ninguém a não ser comigo mesmo; vivia numa solidão intelectual quase completa. Então, comecei a dar conferências para um pequeno grupo de estudantes. Eu também escrevia, mas apenas resumos para os meus alunos, e teria continuado de bom grado a fazer o mesmo a vida inteira se as circunstâncias não me tivessem tirado de minha solidão para fazer de mim uma espécie de inspetor da saúde mental dos intelectuais brasileiros. Estou feliz por ter abandonado a modéstia da vida solitária unicamente para fazer algo de útil e objetivo, sem concessões às minhas vaidades de juventude, as quais já estavam mortas.

Publiquei o meu primeiro livro apenas aos 47 anos, a pedido de meu amigo, o poeta Bruno Tolentino, e desde então não parei de publicar livros e artigos, mas tenho ainda mais de dez mil páginas de notas de aula, que talvez venham algum dia a se transformar em livros.

Eu não diria que a liberdade de pensamento é uma questão de coragem. Trata-se unicamente de ver as coisas como elas são, e para tal é preciso tempo, paciência e modéstia. Creio que uma carreira profissional de escritor ou professor universitário pode muito bem desviar um homem da pesquisa da verdade e, como eu sempre soube que era fraco como todos os outros homens, tratei de me colocar fora do alcance dessas tentações.

Se posso dizer as coisas tais como eu as vejo, sem fazer concessões à moda ou à pressão de grupos de opinião, é precisamente porque socialmente e profissionalmente não sou absolutamente nada. Sou apenas um homenzinho que não exige de forma alguma ser levado a sério pelas pessoas que se imaginam sérias.

2. Por que você escolheu o caminho do comunismo, quando era jovem?

Eu não escolhi nada. O comunismo tinha na ocasião o prestígio de uma verdade estabelecida; bastava ser comunista para ter o prestígio de um homem de idéias. Mas eu me dei conta de que o comunismo não era para mim, como para todos os outros, nada mais que o disfarce da minha ignorância, da minha mediocridade, da minha assustadora preguiça intelectual. Foi por causa disso que eu renunciei a fazer-me um jovem escritor: eu não tinha nada a dizer além do que já havia sido escrito mil vezes por outros escritores comunistas, jovens e velhos. O que é uma pena é que muitos de meus companheiros de geração tenham continuado a escrever as mesmas coisas durante três décadas e hoje eles não possam admitir que alguém tenha abandonado as suas mesmices para se lançar à pesquisa de algo mais interessante. Eles tomam isso como um insulto à dignidade da sua filiação ideológica.

Ademais, é falso pensar que as pessoas se tornam comunistas porque têm sede de justiça. Aquele que tem sede de justiça procura, em primeiro lugar, se abster de cometer injustiças ele mesmo e nunca se toma por um justiceiro supremo que vai punir todos os maus, porque isso não é senão uma vaidade pomposa e, em suma, a pior das injustiças. Os jovens somente se tornam comunistas por vaidade e por preguiça. A diferença entre mim e meus companheiros de geração é que eles tiveram mais sucesso do que eu em enganar-se quanto aos motivos íntimos de sua conduta. Eu não pude me impedir de ver a mim mesmo tal qual eu era: nada mais que um pequeno farsante comunista, que queria se descarregar de sua responsabilidade pessoal sobre as costas de bodes expiatórios abstratos — o capitalismo, os burgueses, etc. Quando eu me dei conta disso, compreendi o que Nietzsche queria dizer quando afirmava que “a vergonha é a mãe do aprendizado”. Os jovens esquerdistas de outrora que se tornaram apenas os velhos esquerdistas de hoje nunca tiveram consciência da miséria moral de suas motivações, auto-proclamadas idealistas e humanitárias.

3. Os brasileiros são tão superficiais quanto aparenta ser a sua imagem estereotipada?

Sim, a superficialidade, a leviandade são os pecados capitais dos brasileiros. Mas eu acho que isso só é verdadeiramente grave nos círculos intelectuais, porque entre o povo uma certa falta de seriedade foi o preço a pagar para construir uma sociedade como a nossa, onde as pessoas de todas as raças e de todas as culturas podem se entender e se amar umas às outras. Veja: os Estados Unidos são também uma sociedade multicultural, mas lá os grupos diversos trilham caminhos separados, cada qual no seu gueto, e dialogam somente ao nível político, por intermédio de seus representantes e sob a proteção da polícia. Enquanto que no Brasil, os negros, os árabes, os portugueses, os italianos, os alemães, os judeus sempre viveram juntos dentro dos mesmos bairros e são todos misturados ao nível da vida social, da amizade, do casamento, etc., sem que o Estado tenha jamais feito o menor esforço para ensinar-lhes essas coisas. No Brasil nunca houve combates de rua entre grupos raciais diferentes (exceto alguns conflitos menores durante a guerra, quando as pessoas de ascendência italiana e alemã eram um pouco perseguidas, mas mesmo isso terminou por completo da noite para o dia assim que a paz foi assinada). Para um homem viver em paz com pessoas muito diferentes é preciso que ele não se leve muito a sério, e os brasileiros se habituaram a pensar que as crenças políticas ou mesmo religiosas têm menos importância, na prática, do que a paz e o amor. Os brasileiros também são cristãos pragmáticos: eles acreditam que ter razão vale menos do que fazer um amigo.

É por isso que os brasileiros são o que são: um povo maravilhoso, fraternal, generoso, mas estranhamente desprovido de convicções sólidas e profundas. Mas se naquilo que diz respeito às pessoas do povo isso não é grave, nos intelectuais a falta de solidez se torna um perigo e uma doença assustadora, porque os intelectuais têm responsabilidades incomparavelmente mais pesadas. É por isso que eu vejo os brasileiros como um povo maravilhoso que produz os intelectuais mais abomináveis do universo.

4. Qual é o seu ponto de vista sobre a cultura norte-americana e européia de hoje?

Aquele que perde o senso do absoluto perde da mesma forma o senso das relatividades. Uma cultura que rompeu seus laços com o senso de infinitude metafísica está condenada a dar uma importância absoluta a imbecilidades que não têm nem mesmo importância relativa. A cultura européia e norte-americana de hoje me parece totalmente obcecada por questões menores da atualidade política e social. Veja: são sempre essas recriminações mútuas de grupos raciais, essas briguinhas de família, essas frustrações sexuais que exigem ser tratadas pela lei e pelo Estado — tudo isso é para mim o cúmulo da mesquinharia. O pior é que recursos extraordinários são postos a serviço de debates totalmente desprovidos de importância e dos quais ninguém vai se lembrar dentro de três ou quatro décadas. Em tais circunstâncias, o automatismo e o verbalismo tendem a se substituir à consciência.

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