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Leituras recomendadas - 53
Distúrbios da
Mente Pedro Paulo Rocha Ao se defrontar com o problema de transcender a
própria individualidade, o homem, que criou um meio social progressivamente
complexo, tornou-se uma vítima potencial do tremendo estresse gerado
por esta complexidade. A Religião e a Filosofia, com enorme diversidade,
reflexos de suas respectivas culturas, espelham a busca da solução desta
questão. O medo do desconhecido e a necessidade de dar sentido ao mundo
que nos cerca levaram o homem a fundar diversos sistemas de crenças,
cerimônias e cultos, quase sempre centrados na figura de um ente supremo,
que o ajuda na busca da compreensão do significado último de sua própria
natureza. Mitos, superstições ou ritos mágicos que as sociedades primitivas
teceram em torno de uma existência sobrenatural, inatingível pela razão,
já nas primeiras formas de religião, se alicerçaram na crença num ser
superior e no desejo de comunhão com ele. O fato é que, quanto mais
o ser humano se separa do mundo natural e desfaz os laços que o ligam
à natureza, mais intensa se torna a sua necessidade de encontrar meios
de fugir aos dilemas que o progresso lhe traz. Não só a pressão cada vez mais insuportável do
meio social, como a influência de fatores ambientais, genéticos, viróticos,
efeito de drogas, etc. deflagram distúrbios de comportamento que vêm
sendo um motivo de preocupação crescente. Levantamentos da OMS reportam
que os índices de incapacitação por distúrbios mentais chegam a 10%
e revelam uma tendência a aumentar. A idéia de que a insanidade era rara entre os povos primitivos
e que tende a aumentar na proporção em que o processo civilizatório
se desenvolve, apareceu inicialmente no século XIX. Importantes psiquiatras
daquela época defenderam a idéia de que há uma relação íntima entre
civilização e saúde mental. A noção do “bom selvagem” proposta por Rousseau,
filósofo francês do século XVIII, era predominante. O naturalista alemão, Alexander Von Humbold, em sua viagem
pelo interior América, se disse surpreso com a ausência de doentes mentais
entre os selvagens. Um médico, responsável pelas reservas dos Cherokees,
registrou que, entre os 20 mil índios, nunca havia visto ou mesmo ouvido
casos de insanidade. O capitão Wilkes, comandante da Expedição Exploratória
Americana, também relatou que, durante a sua viagem pelos mares do sul,
não encontrou nenhum caso de loucura entre os povos daquela região.
Contudo, curiosamente, os autores, não fizeram qualquer referência
às suas limitações lingüísticas e à dificuldade de entender os valores
e costumes dos povos estudados. Os pesquisadores deste período não dominavam
seus idiomas e ainda menos seus valores culturais. Assim, se manifestavam
a respeito dos comportamentos visíveis e externos, destes povos, sem
ouvi-los e conhecer seus sofrimentos subjetivos. Além disto, devido
as condições precárias de atendimento psiquiátrico, apenas os casos
mais graves, predominantemente de agressividade, recebiam alguma atenção.
Durante o curso do século XIX, simultaneamente com o colonialismo,
os colonizadores começaram a descobrir doenças mentais que atingiam
povos primitivos, como Amok, entre os nativos de Java; Koro, entre os
chineses; Myriath, na Siberia; Piblokto entre os esquimós, etc. Nesta
época surgiu também o interesse do alguns psiquiatras europeus em demonstrar
que doenças clássicas conhecidas, como a esquizofrenia, eram universais
e não apenas limitadas, geograficamente, à Europa. O grande psiquiatra
alemão Emil Kraepelin foi um dos primeiros a fazer repetidas viagens
ao Oriente e a examinar pacientes mentais entre os povos primitivos,
inclusive na ilha de Java. Em decorrência, a idéia de ausência de doenças
mentais entre os povos primitivos não se sustentou. De fato, a doença mental acompanha o homem desde os seus primórdios.
Histórias antigas relatam os impulsos homicidas do rei Saul, ou a insensatez
de Nabucodonosor, que “comia grama como os bois e deixava que o orvalho
das nuvens molhasse o seu corpo até que crescesse o cabelo como as penas
da águia e suas unhas como as garras dos pássaros”. Arqueólogos
encontraram crânios trepanados, em locais tão dispersos como o Vale
do Nilo, no Egito, e as sepulturas dos Incas, no Peru, que denotam a
tentativa das antigas civilizações de desvendar o cérebro humano. Cerca de quatro séculos antes de Cristo, o médico grego Hipócritas,
(460 a 370 AC), considerado o pai da medicina, procurou livrar o estudo
das doenças mentais do posicionamento místico e filosófico, colocando-o
no contexto das enfermidades em geral. No terceiro século depois de
Cristo, Galen, um grego, também responsabilizou o cérebro pela ocorrência
de distúrbios psíquicos. Foram porém tentativas isoladas, pois “A
Psiquiatria, quase que no momento em que nasceu do útero da Medicina,
nos tempos de Hipócrates, foi raptada e carregada para a estranha casa
da teologia e para os policrômicos jardins da filosofia abstrata”
(* Zilboorg & G.W.Henry – A History of Medical Psychology – 1941)
A conceituação da doença mental como uma forma de possessão, dominou
durante a idade média e perdurou por muitos séculos. A demonologia considerava que Satanás podia se apoderar do
corpo de uma pessoa e exercer sobre ela total controle. Com a hegemonia
do catolicismo, na Europa, a possessão passou a ser interpretada como
uma oposição à igreja e a Deus. A teologia reconhecia dois tipos de
possessão. No primeiro tipo, a suposta vítima era possuída contra a
sua vontade, como um castigo divino pelos pecados cometidos. No outro,
a pessoa teria feito um pacto voluntário com o diabo. Esses eram os
bruxos. Além do diabo, que também era denominado Satã, Lúcifer ou outros
títulos, como Príncipe das Trevas ou simplesmente demônio, os cristãos
medievais acreditavam haver grande número de maus espíritos, que auxiliavam
o Diabo, em sua obra do mal. Em 1484 o Papa Innocêncio VIII redigiu uma bula papal, na
qual advertia o clero, exigindo “que não se deixasse pedra sobre
pedra, na caça aos bruxos”. O livro Malleus Maleficarum (O Martelo
das Bruxas), escrito por dois monges dominicanos, em 1486, por determinação
daquele Papa, e reimpresso 14 vezes, apresentava detalhada descrição
dos processos para se reconhecer os feitiços. Muitas das características
descritas são as mesmas dos sintomas de inúmeros distúrbios mentais,
hoje conhecidos e catalogados. Os infelizes, assim identificados, eram
torturados até a morte, disto não escapando nem crianças ou anciões.
“Entre 1450 e 1750, mais de 100 mil pessoas, a maioria mulher, foram
julgadas por tribunais eclesiásticos, em diferentes partes da Europa,
pela suposta prática de magia maléfica e adoração do Diabo”. Milhares
de desgraçados, pereceram sob as mais terríveis torturas, em nome de
Deus e da Religião. O julgamento era conseqüência de uma acusação formal. Caso
houvesse alguma dúvida, o tribunal apelaria a Deus para que fornecesse
alguma prova. O modo mais comum era o ordálio, ao qual o acusado tinha
que se submeter, para provar sua inocência. Consistia em testes, como
carregar um ferro em brasa, a certa distância e, se não fosse culpado,
ter miraculosamente curada a carne queimada, ou ainda ser jogado em
um reservatório de água e considerado inocente somente se afundasse.
A alternativa era a desumana tortura, descrita em muitos documentos
da época. O mais famoso crítico da caça às bruxas, foi Johann Weyer,
médico do humanista duque de Cleves. Nos seus livros ele tentou mostrar
que as mulheres ignorantes que confessavam a prática de bruxaria eram
“pobres, miseráveis, velhas, decadentes e melancólicas mulheres,
vítimas de delírios”. Usando seus conhecimentos médicos, alegava
que o suposto malefícia das bruxas podiam ser explicados por causas
naturais médicas e que, na verdade, eram doentes mentais. Por lhe faltar
uma teoria filosófica e teológica abrangente sobre os poderes do Diabo,
os tratados de Weyer foram incapazes de resistir aos ataques que lhe
foram atirados. Sua posição foi rejeitada pelo poder eclesiástico que
preferia acreditar que a bruxaria era real e que as bruxas deveriam
ser duramente julgadas e castigadas, para a salvação de suas almas.
Por ocasião do século XVII a caça às bruxas se estendeu também
às colônias do Novo Mundo. Salém, em Massachussets, tornou-se o famigerado
centro de perseguição. Houve, por exemplo, médicos que “apresentaram
importantes provas científicas da culpa das feiticeiras” (* S.J.Fox
– Science and Justice) Centenas de pessoas foram presas, 19 enforcadas
e uma esmagada até a morte. Deutch (1949) transcreve as declarações
de uma empregada de uma família de Boston, prestadas no processo aberto
contra ela, em 1688, “por ter enfeitiçado os filhos do seu patrão”.
“Quando lhe foi perguntado pelos Juizes, se alguém a havia
ajudado, ela respondeu que isto era certo, mas então ela olhou no ar,
com jeito descarado, e acrescentou que agora ele foi embora” (pg.
34). Evidentemente a mulher sofria de alucinações. Um comportamento
como esse, que vem a ser um sintoma claro de esquizofrenia, no século
XVII foi considerado como prova definitiva de possessão demoníaca. Durante a Renascença, a idéia de que os doentes mentais fossem
possuídos pelos demônios, começou a ser contestada. Johan Weyer foi
o primeiro médico a se interessar pelos distúrbios mentais, sendo considerado
por alguns como o fundador da psiquiatria. O primeiro livro abordando
problemas mentais, “A Anatomia da Melancolia” foi publicado em 1621.
Ao longo de todos os tempos, a história das doenças mentais
foi sempre uma tenebrosa história de crueldades, inconsciência e desumanidade!
Só há relativamente pouco tempo a humanidade começou a se libertar de
uma pesada carga de superstições e preconceitos. Faz ainda muito pouco
tempo que despertamos de tão inconcebível pesadelo. Apesar de todos
os pesares, diante de tão tétrico quadro, poder-se-ia concluir que,
comparativamente, a situação já não é tão desesperadora e conseguimos
avançar bastante e atingir um nível razoável de conhecimento neuro-psiquiátrico.
Contudo, nessa nossa visão pretensiosa, talvez sejamos encarados pelas gerações futuras, como igualmente retrógrados e ignorantes. O que nos dá o direito de, agora, nos presumirmos donos da verdade? Extraído de A Psicanálise no Divã, a ser lançado em breve.
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