Carpeaux nos EUA

Olavo de Carvalho

13 de outubro de 1999

Todo brasileiro que faça alguma coisa pelo seu país deve estar preparado para ver as sementes que lançou no solo pátrio germinarem antes no Exterior do que aqui. Se a imprensa local fez tudo o que pôde para ocultar os meus esforços de editor e biógrafo de Otto Maria Carpeaux, o Center for Portuguese Studies and Culture da Dartmouth University, ao preparar sob a direção do Prof. João Cezar de Castro Rocha uma edição especial de Portuguese Literary & Cultural Studies que estuda as influências estrangeiras na formação da cultura nacional, e que não podia deixar de conter um capítulo sobre a obra de Carpeaux, não hesitou em encomendá-lo a alguém que se dedicara seriamente ao resgate dessa obra, em vez de pedi-lo aos tradicionais aproveitadores políticos e saqueadores de túmulos.

Como tantos outros brasileiros que passaram por essa situação, não posso deixar de considerá-la ao mesmo tempo reconfortante e constrangedora. Reconfortante porque, afinal, é um reconhecimento. Constrangedora porque mostra, uma vez mais, que a elite intelectual nacional continua incapaz de se governar a si mesma e necessitada de guiar-se pelo exemplo estrangeiro.

Reproduzo aqui o texto que enviei para essa louvável publicação da Dartmouth University. Dentro de algumas semanas receberei o texto da tradução inglesa, que também constará desta página. — O. de C.

Otto Maria Carpeaux

Olavo de Carvalho

Portuguese Literary & Cultural Studies. Special Issue, No. 4, 2000, “Brazil 2000”, João Cezar de Castro Rocha (org.), Universidade de Massachusetts, Dartmouth.

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O conhecimento começa com o espanto, e o espanto surge da percepção de problemas. Problema, dizia Ortega y Gasset, é consciência de uma contradição. A insensibilidade aos problemas, que repousa em certezas convencionais sem que mesmo as contradições mais gritantes lhe perturbem o sono, é sinal seguro de decadência intelectual, seja dos indivíduos, seja das coletividades e nações.

Quem deseje, por curiosidade sociológica ou afeição aos abismos, avaliar a profundidade da queda da vida intelectual no Brasil de hoje pode colher uma amostra significativa desse fenômeno nas reações unânimes da imprensa cultural brasileira à recente edição dos Ensaios Reunidos de Otto Maria Carpeaux (Vol. 1, Rio, Topbooks, 1999). Foi tudo uma repetição dos elogios feitos à beira do túmulo do escritor quando da sua morte em 1978 — sem uma só menção aos problemas de interpretação de sua vida e obra, para os quais chamei expressamente a atenção dos leitores na longa introdução que preparei para o volume. Eis alguns:

1. Otto Maria Carpeaux chegou ao Brasil em 1939 e, tão logo estreou no jornalismo com ensaios literários publicados no Correio da Manhã, foi alvo de uma violenta campanha de difamação movida pelos comunistas. Ao morrer, em 1978, tinha-se tornado o ídolo máximo da intelectualidade comunista no Brasil. Dá-se isto por explicado pela oposição feroz do escritor ao regime militar de direita, mas se esta explicação valesse ela se aplicaria também ao romancista Carlos Heitor Cony, companheiro de Carpeaux nessa batalha heróica e desigual, no entanto até hoje antipatizado pelos comunistas. A tranfiguração de Carpeaux de bête noire em santo beatificado permanece, pois, um problema, e um tanto mais enigmático porque, enquanto crítico e historiador, Carpeaux jamais aderiu ao marxismo. Sabe-se que no Brasil contribuições financeiras ao Partido Comunista — fortemente hegemônico na imprensa e nos meios editoriais — bastam para absolver um escritor de qualquer pecado ideológico, como aconteceu, por exemplo, com o grande romancista José Geraldo Vieira, que se tornou comunista de carteirinha sem deixar de ser, nos livros, o cristão conservador que sempre fôra (se o leitor americano não compreende estas coisas, saiba que no Brasil também ninguém as compreende; apenas as admite). Mas Carpeaux nunca teve dinheiro.

2. Carpeaux ou Otto Karpfen, judeu nascido em Viena em 1900, converteu-se ao catolicismo aos trinta anos de idade e no curso da década seguinte tornou-se um dos principais teóricos da direita católica que governava a Áustria sob a liderança de Engelbert Dolfuss. Após a queda do regime, com a invasão nazista, encontrou refúgio no Brasil graças à intervenção do Vaticano. No estudo aliás notável Os Judeus do Vaticano, de Avram Milgren, seu nome, aliás com grafia errada, consta da lista dos judeus que receberam falsas certidões de batismo para escapar à perseguição. É um equívoco: Carpeaux não apenas era católico desde bem antes da guerra, mas, quando os nazistas entraram em Viena, ele já era conhecido como teórico do regime austrocatólico, através de seu livro A Missão Européia da Áustria (Österreichs Europäische Sendung, 1936). Ademais, na correspondência que logo após sua chegada ao Brasil trocou com Álvaro Lins, seus sentimentos católicos são bem patentes. É pois um espanto para o pesquisador que esse católico tenha sido sepultado sem ritos religiosos porque, segundo alegou então a viúva em declarações à imprensa, ele “era homem sem religião”. Ainda que a hipótese de uma apostasia senil após a conversão tardia seja um tanto extravagante, ela poderia ser aceita se, no depoimento do amigo mais íntimo do escritor, Carlos Heitor Cony, não constasse a informação de que Carpeaux, até o fim da vida, fazia regularmente suas orações, e se o testemunho igualmente insuspeito do filólogo Antônio Houaiss não nos informasse que ele tinha medo de tocar em assuntos religiosos nas rodas intelectuais brasileiras, fortemente materialistas. Bem, se, do ponto de vista de um biógrafo, isso não é problema, não sei o que seja um problema. Para explicá-lo, sugeri a hipótese de que o exilado, cansado de sofrer, disfarçava sua opinião para não desagradar seus anfitriões brasileiros, quase todos ateus. Mas é apenas uma hipótese, e toda encrencada. Como é que um homem tão valente contra os inimigos podia ser tão frouxo ante os amigos? E, ademais, como conceber que a precaução do escritor contaminasse sua esposa ao ponto de esta fazê-lo levar o disfarce para o além-túmulo? Não, nada aí está explicado.

3. Carpeaux escreveu toda a parte mais valiosa de sua obra — os melhores ensaios e a monumental História da Literatura Ocidental— num período de não mais de seis anos, entre 1941 e 1947. São quase cinco mil páginas. Fora disso, sua produção continuou volumosa, mas foi caindo de qualidade até baixar ao nível do louvor convencional, na biografia de Alceu Amoroso Lima, seu último escrito. Em 1968, Carpeaux anunciou o fim de sua carreira literária, prometendo dedicar o resto de seus dias à luta política. Assim fez, dispersando seus talentos em polêmicas contra o regime que, se então tiveram a mais assombrosa repercussão, hoje só conservam interesse como documentos históricos. E o fato é que ele já vinha perdendo impulso desde vinte anos antes, de modo que sua famosa abdicação, longe de poder ser compreendida pela motivação exclusivamente política, parece ter sido a cristalização final de um longo processo de autonegação depressiva. Mas isto é também pura hipótese, se bem que confirmada pelo depoimento de um íntimo amigo de Carpeaux, o escritor pernambucano Edson Nery da Fonseca.

Não vou me prolongar em exemplos. Os que citei já bastam para mostrar que Otto Maria Carpeaux, no Brasil, é tanto mais desconhecido quanto mais celebrado. O preguiçoso alheamento com que seu vasto círculo de admiradores e amigos se absteve, por vinte anos, de reunir em livro seus escritos jornalísticos dispersos — uma assombrosa coleção de obras-primas do ensaio literário — já mostra que tinham mais interesse em cultuar um estereótipo do que em divulgar uma obra. O motivo disto é bem evidente. Se Carpeaux, de início rejeitado pela massa da intelligentzia esquerdista e só aceito por um grupo seleto de cérebros privilegiados — um grupo politicamente diversificado ao ponto de incluir o comunista Graciliano Ramos ao lado dos conservadores Manuel Bandeira e Augusto Frederico Schmidt — acabou por se tornar um ídolo das esquerdas, isto foi graças à série de artigos políticos publicados no Correio da Manhã a partir de 1964 com os quais obteve a fama de inimigo público número 1 do regime militar (o qual aliás nunca o perseguiu seriamente, limitando-se a mover-lhe um processo no qual foi polidamente interrogado por algumas horas e que terminou sendo suspenso pela promotoria mesma). A imagem de Carpeaux que se consolidou na imprensa foi a de um militante comunista, que trazia a essa corrente política o reforço da pena afiada por uma erudição prodigiosa a serviço de um estilo literário que deve ser qualificado, no mínimo, de delicioso. Ora, a publicação dos ensaios literários completos dissolvia essa imagem simplória, revelando um Carpeaux religioso e místico, admirador de Léon Bloy, e um elitista preocupado, na linha de Ortega y Gasset, com a ascensão de massas de ignorantes ao comando da máquina cultural. Não espanta que a intelectualidade de esquerda, prevendo as dificuldades, adiasse indefinidamente um confronto com essas contradições, nem que, mesmo após a publicação dos Ensaios Reunidos, preferisse fazer de conta que não tinha visto nada…

Mas não há homenagem póstuma que possa fazer justiça a um escritor se os louvores que a compõem não vêm junto com um sério esforço de compreensão. Por isto, o coro de elogios que se seguiu à morte de Carpeaux e, agora, à publicação dos Ensaios, acabou, de maneira aparentemente paradoxal, por depreciar o escritor, ressaltando-lhe os méritos menores de erudito e divulgador sem atentar para o que sua obra tem de mais original e valioso. Pois o valor e a originalidade dessa obra residem, precisamente, nas suas contradições.

Para começar, a História da Literatura Ocidental é uma tentativa de responder de maneira sintética e simultânea a preocupações dificilmente compatíveis: a compreensão sociológica das épocas e a individualização estilística dos autores, a apreensão da unidade histórica de uma civilização e a avaliação judicativa das obras singulares. Fortemente escorado nos métodos que aprendeu de Burckhardt, Dilthey, Weber e Max Dvorak, mas também inspirado no senso croceano da individualidade irredutível da obra poética, Carpeaux busca ser inseparavelmente historiador e crítico — e, se falha aqui ou ali, exagerando os julgamentos de obras para harmonizá-los com o desenho das épocas, no conjunto ele se sai perfeitamente bem e compõe uma obra ímpar na bibliografia historico-literária, alguma coisa de equivalente, na escala do Ocidente como um todo, ao que Francesco de Sanctis fez com a literatura italiana. Para o crítico Mauro Gama, a História da Literatura Ocidentalé “simplesmente a melhor obra do gênero já publicada em qualquer língua e em qualquer país”.

Em segundo lugar, o modo de pensar de Carpeaux enfatiza antes os problemas do que as soluções, o que o leva a parecer inconclusivo. Alma sacudida por dúvidas e contradições temíveis, ele usa o seu próprio estado interior de perplexidade como instrumento de sondagem das obras e das épocas, e o resultado tem de ser, em muitos casos, uma pergunta sem resposta. Para muitos leitores o choque dessas contradições é uma experiência especialmente perturbadora e desagradável. Não percebem que é essa peculiar forma mentis do escritor o que lhe permite acompanhar o drama íntimo das idéias por baixo das suas manifestações literárias sem cair no simplismo das soluções forçadas.

O estilo literário de Carpeaux reflete o caráter paradoxal de sua visão do mundo. Às vezes, durante páginas e páginas, ele assume o ponto de vista do escritor que está analisando, defendendo as idéias dele como se fossem as suas próprias, para logo em seguida desmenti-las brutalmente ou relativizá-las com a simples menção de um ou dois fatos que as contradizem. O leitor que exige certezas finais é levado ao desespero, mas para aqueles que se deleitam na contemplação da realidade como tal, a leitura de Carpeaux é uma rara exaltação do espírito. No conjunto, a História da Literatura Ocidental permanece uma das obras mais sólidas nesse gênero, superando de muito a de Arnold Hauser, divulgada no Brasil contemporaneamente a ela e ainda hoje investida de muita autoridade e prestígio no nosso país.

Por isso não é exato dizer, como Franklin de Oliveira, que o maior mérito de Carpeaux é ter introduzido no Brasil os métodos da Geisteswissenschaft de Dilthey. A História da Literatura Ocidental, se bem que moldada à luz desses métodos, é algo mais que simples divulgação deles. É realização que ultrapassa, por sua amplitude e perfeição, qualquer aplicação que os próprios inventores deles possam ter-lhes dado. Nesse sentido, ela não é uma contribuição da escola de Dilthey à cultura brasileira, mas uma contribuição brasileira à escola de Dilthey.

Por isto, no meu livro O Futuro do Pensamento Brasileiro (Rio, Faculdade da Cidade Editora, 1998), no capítulo dedicado a extrair da massa de produções do pensamento brasileiro a lista quintessencial das conquistas fadadas a permanecer quando tudo o mais se desvaneça, não pude deixar de colocar, ao lado dos escritos de Gilberto Freyre, de Miguel Reale e de Mário Ferreira dos Santos, a obra historiográfica e ensaística de Otto Maria Carpeaux.

O critério aí adotado foi simples: tomei como obras intrinsecamente dotadas da capacidade de durar, não aquelas que “representassem o Brasil”, pois nada nos garante que os homens dos séculos vindouros desejarão saber do Brasil, mas sim aquelas que, desde o Brasil, levasse a cada homem, de qualquer país, um ensinamento que o ajudasse a compreender melhor o sentido da vida humana em geral e a dele próprio em particular. O clássico, por definição, não fala de si, da sua época, do seu país: fala de nós. Uma obra histórica — preparada, amparada e completada por uma multidão de ensaios — que logre mostrar a unidade interna do desenvolvimento literário no Ocidente, de Homero a Valéry, é por si mesma um microcosmo da alma humana e se torna merecedora de que o leitor se aproxime dela com um temor devoto, consciente da advertência latina: De te fabula narratur.

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