junho 10, 2003

Da águia de Haia ao papagaio de Evian

É inacreditável. Diante das minhas observações sobre os discursos de Lula (“Um clássico e um paralelo”, O Globo, 7 jun. 2003), um petista enfezado metido a universitário me escreveu que eu ignorava ou desprezava a diferença entre gramática e lingüística. O argumento supunha, naturalmente, que esta última falava em favor do estilo presidencial. Nunca pensei ter de me rebaixar a esse tipo de explicações, que no meu tempo qualquer adolescente alcançava sozinho, por intuição imediata. A lingüística encontra uma ordem e uma estrutura por trás de qualquer discurso, inclusive o dos esquizofrênicos, o dos disléxicos, o dos chimpanzés e até o do sr. Jacques Derrida. Deve encontrá-las também, decerto, no fundo dos discursos de S. Excia., o que, como diria Groucho Marx, não melhora em nada a situação deste último.

A mensagem, em todo caso, tem o mérito da tipicidade. Na cabeça dos nossos universitários, o mais completo analfabetismo funcional convive em boa paz com um arremedo de pedantismo científico, o qual permite uma boa simulação provinciana de debate intelectual tão logo se veja reforçado por alguns chavões acadêmicos de quarenta anos atrás, que a platéia juvenil recebe como novidades arrasadoras contra os reacionários adeptos da educação clássica.

A miséria cultural deste país ultrapassa todas as possibilidades de descrição. Pode-se apenas designá-la, de longe, simbolicamente. Um bom símbolo é o nosso presidente em Evian, com um sorriso idiota nos lábios, vagando como um fantasma surdo e mudo entre as vozes anglófonas de homens vindos de nações mil vezes mais pobres que o Brasil.

A glória política de Lula não é a redenção da pobreza. É a consagração da ignorância auto-satisfeita, tão orgulhosa de seu terno Armani quanto de não saber falar inglês.

É verdade que a águia de Haia parece ter sido antes uma lenda que uma realidade. Raymundo Magalhães Júnior diz isso. Em A Torre do Orgulho, de Barbara Tuchman, a única menção ao nosso Ruy é que, entre todos os enviados à conferência, ele era o mais chato. O suposto brilho do seu desempenho parece ter passado completamente despercebido.

Mas no caso a lenda ainda podia alegar algum fundamentum in re, pois Ruy era de fato escritor excelente, ao menos na escala local. Um aluno meu resolveu a parada com esta observação maravilhosa: mítica ou não, a águia de Haia continua perfeitamente discernível do papagaio de Evian.

Posted by Olavo at 04:11 PM

junho 02, 2003

Tema a desenvolver

Este país já se tornou indigno -- ou incapaz -- de ser examinado sob a ótica da filosofia política, que pressupõe, nos agentes do processo histórico, um mínimo indispensável de consistência, de realidade, de substancialidade. No Brasil de hoje tudo é simulação -- numa medida jamais vista em qualquer outro lugar ou época da história --, e por isso os únicos enfoques possíveis para estudá-lo são o da psicopatologia social e o da criminologia: o primeiro porque as conexões entre os pensamentos e a realidade, entre a vida interior e exterior dos personagens, são puramente convencionais e imaginárias; o segundo, porque não há um só ato ou decisão dos agentes que não constitua de algum modo uma violação das leis do país, para não dizer dos princípios elementares da moralidade. No fundo, a simples existência de um país como esse já é uma imoralidade, talvez um crime.

A vida pública no Brasil de hoje não pode sequer ser objeto de sátira, pois ela mesma é satírica, no sentido de que todas as falas e ações dos personagens têm duplo significado e os dois significados são igualmente ilusórios: aquele que o agente pretende impingir ao ouvinte ou espectador e aquele em que ele se baseia para se orientar no quadro daquilo que imagina ser a realidade.

O atual enredo brasileiro é totalmente composto de auto-ilusões que se sustentam na base de ilusões secundárias criadas para ludibriar o próximo, mas que não raro acabam por persuadir o próprio agente, transformando-o em instrumento inconsciente daqueles a quem pretendia enganar.

As ações aí obedecem rigorosamente à estrutura de um engano mútuo fundado num duplo auto-engano, multiplicando-se num efeito em espelho até a total impossibilidade de controlar -- ou até de narrar -- o fluxo dos acontecimentos.

Nesse panorama, qualquer discussão de idéias, doutrinas ou programas de ação nunca é o que parece, mas também não é o que os produtores da comédia desejariam que parecesse, uma vez que eles não têm domínio suficiente da realidade para projetar um efeito previsível e acabam sendo eles próprios arrastados no jogo de fantasmagorias que criaram.

É a apoteose da macaquice, que termina por macaquear-se a si mesma, na ilusão suprema de poder restabelecer contato com a realidade por meio de uma macaqueação de segundo grau.

A coisa só não descamba em tragédia porque as ações são tênues, o território é grande e os contatos sociais são ralos e epidérmicos. Comprimido num espaço mais denso, esse jogo seria explosivo. O caos das consciências só não se transmuta em caos social porque os agentes são fracos demais para romper o quadro rotineiro da vida, que, na desorientação geral, continua o único guiamento possível e adquire uma autoridade quase divina, produzindo, como efeito colateral, o culto devoto da banalidade.

Posted by Olavo at 10:39 AM