junho 02, 2003

Tema a desenvolver

Este país já se tornou indigno -- ou incapaz -- de ser examinado sob a ótica da filosofia política, que pressupõe, nos agentes do processo histórico, um mínimo indispensável de consistência, de realidade, de substancialidade. No Brasil de hoje tudo é simulação -- numa medida jamais vista em qualquer outro lugar ou época da história --, e por isso os únicos enfoques possíveis para estudá-lo são o da psicopatologia social e o da criminologia: o primeiro porque as conexões entre os pensamentos e a realidade, entre a vida interior e exterior dos personagens, são puramente convencionais e imaginárias; o segundo, porque não há um só ato ou decisão dos agentes que não constitua de algum modo uma violação das leis do país, para não dizer dos princípios elementares da moralidade. No fundo, a simples existência de um país como esse já é uma imoralidade, talvez um crime.

A vida pública no Brasil de hoje não pode sequer ser objeto de sátira, pois ela mesma é satírica, no sentido de que todas as falas e ações dos personagens têm duplo significado e os dois significados são igualmente ilusórios: aquele que o agente pretende impingir ao ouvinte ou espectador e aquele em que ele se baseia para se orientar no quadro daquilo que imagina ser a realidade.

O atual enredo brasileiro é totalmente composto de auto-ilusões que se sustentam na base de ilusões secundárias criadas para ludibriar o próximo, mas que não raro acabam por persuadir o próprio agente, transformando-o em instrumento inconsciente daqueles a quem pretendia enganar.

As ações aí obedecem rigorosamente à estrutura de um engano mútuo fundado num duplo auto-engano, multiplicando-se num efeito em espelho até a total impossibilidade de controlar -- ou até de narrar -- o fluxo dos acontecimentos.

Nesse panorama, qualquer discussão de idéias, doutrinas ou programas de ação nunca é o que parece, mas também não é o que os produtores da comédia desejariam que parecesse, uma vez que eles não têm domínio suficiente da realidade para projetar um efeito previsível e acabam sendo eles próprios arrastados no jogo de fantasmagorias que criaram.

É a apoteose da macaquice, que termina por macaquear-se a si mesma, na ilusão suprema de poder restabelecer contato com a realidade por meio de uma macaqueação de segundo grau.

A coisa só não descamba em tragédia porque as ações são tênues, o território é grande e os contatos sociais são ralos e epidérmicos. Comprimido num espaço mais denso, esse jogo seria explosivo. O caos das consciências só não se transmuta em caos social porque os agentes são fracos demais para romper o quadro rotineiro da vida, que, na desorientação geral, continua o único guiamento possível e adquire uma autoridade quase divina, produzindo, como efeito colateral, o culto devoto da banalidade.

Posted by Olavo at junho 2, 2003 10:39 AM