fevereiro 26, 2004

Meu cachorro

Robin

Chama-se Robin e é um Weimaraner de dois anos. A homenagem que aqui lhe presto não é vaidosa nem despropositada. É que andei estudando o bichinho e, depois de comparar suas expressões fônicas às últimas declarações da filósofa Marilena Chauí, cheguei à conclusão de que ele é uma das pessoas mais inteligentes deste país.

Posted by Olavo at 06:23 PM

O filósofo-mirim

I. As direções do espaço

"A cama é um móvel metafísico." (Nelson Rodrigues)

Meu primeiro experimento de investigação filosófica deu-se na cama - e não pelos motivos licenciosos que a palavra pode sugerir hoje em dia. Eu era apenas um garoto e, estando doente por vários anos, imobilizado pela febre, acostumei-me a uma perspectiva vertical do mundo, que começava no chão (prolongando-se imaginariamente até abaixo do centro da Terra) e se erguia até o fundo ilimitado do céu, adivinhado para além do teto. De tempos em tempos, a febre me largava e eu descobria, atônito, que tinha de reaprender a andar. Já contei isso aqui. Mas o giro de minha pessoa da posição horizontal para a vertical era acompanhado de um concomitante giro inverso do quadro do mundo. Formou-se assim naturalmente um esquema de proporções, que estruturou de uma vez para sempre, para mim, o quadro relacional das coisas: acima-abaixo, adiante-atrás, perto-longe. Estas linhas, que se cruzavam tendo como centro a minha humilde pessoinha, não designavam apenas direções do espaço, mas diferentes sentidos da experiência de viver. A horizontal era a saúde, a vida, a ação: brincar e correr, ir ao encontro de meus amigos, participar dos dramas e alegrias da tribo. A vertical era a solidão, a presença da morte, mas também a abertura para o céu infinito, numa paz sobre-humana.

Essas duas direções não se cruzavam apenas estaticamente: eram movimentadas pela alternância irregular do longe e do perto. Na horizontal, o longe ora significava a liberdade, a aventura, ora equivalia a estar perdido e desamparado, sem encontrar o caminho de casa; o perto ora designava a estreiteza do quarto que periodicamente me aprisionava, a limitação e o tédio da vida doméstica, ora o aconchego dos braços de minha mãe e a inesgotável riqueza do mundo pequeno: eu tinha dezenas de miniaturas - soldados, bichos, carros - e, ajeitando-os num caixote com areia entre plantas e pedras, ia compondo um universo miúdo, quase tão complexo quanto o grande. Na vertical, o perto representava ora o teto que pendia sobre mim como a tampa de um túmulo, ora a variedade interna das sensações e imaginações que faziam do meu corpo um microcosmo engenhoso, onde o doente imobilizado podia se instalar por semanas a fio sem muito desconforto; o longe, às vezes, era a imensidão serena do céu silencioso, às vezes o abismo do esquecimento, uma treva confusa e agitada, sem chão nem fim.

Tal era, em suma, o esquema do mundo. Devo sua descoberta ao ritmo peculiar de existência que a doença prolongada impõe ao corpo humano. As pessoas saudáveis vivem no mundo horizontal: quando mergulham na verticalidade, dormem e esquecem tudo. Não percebem que há ali outro espaço, tão real quanto o da agitação cotidiana: o universo do silêncio. O doente percebe claramente a passagem, a pulsação entre o oculto e o manifesto, o latente e o patente, o mistério e a claridade, bem como as rotações incessantes de sentido entre os seis pólos de uma cruz de três dimensões onde o homem está cravado no centro da esfera armilar do mundo.

O signo da esfera armilar gravou-se em mim, sem nome, sem palavras, por fim sem imagens -- pura latência interior --, antes mesmo que eu tivesse a menor consciência de qualquer ênfase religiosa que lhe estivesse associada. Reencontrei-o muitas vezes, mais tarde, nos ritos da Igreja, na arquitetura dos templos, na ordem interna das obras de arte, e em dois dos maiores livros escritos neste século: O Simbolismo da Cruz, de René Guénon, e A Estrutura Absoluta, de Raymond Abellio, que, uma vez lidos, se incorporaram definitivamente à minha concepção das coisas, como traduções verbais quase perfeitas de uma experiência primordial e arquetípica.

Suponho que todos os homens tenham vivido essa experiência. Apenas, passando por ela demasiado rapidamente, não repararam nem na sua beleza, nem no seu alcance metafísico. Tão distraído e fútil é o ser humano, que somente a doença tem o poder de forçá-lo à contemplação. Mas nem toda doença serve: não pode ser breve e intensa como um desmaio, nem tão prolongada que leve ao entorpecimento da consciência. Só a doença consumptiva, que derruba sem adormecer, que enfraquece sem derrotar, produz aquela imobilidade paciente e serena em que a profundidade das coisas começa lentamente a revelar-se. Mais tarde, a sentença de Aristóteles -- "A imobilidade gera a sabedoria" -- retiniu em minha alma como uma verdade tão certa e tão alta, que nela reconheço a marca do sagrado.

II. A realidade do mundo exterior

Minha segunda experiência filosófica foi, em contraste, banal e rasteira: retirou-me dos altos cimos da contemplação metafísica para me atirar nos jogos dialéticos vulgares que muitos tomam como se fossem a filosofia mesma, toda a filosofia. Trata-se da pergunta sobre a existência do mundo exterior. Ela surgiu em mim tão logo, refeito da doença aos sete anos de idade, entrei definitivamente no mundo humano. Devia agora mover-me, orientar-me ativamente no espaço horizontal. O esforço físico não me surpreendeu: era apenas a tradução em voz ativa do sofrimento e da dor habituais. O que me pegou desprevenido foi a súbita necessidade de usar a visão, afeita à penumbra e aos longos delírios, para mapear o espaço físico em torno. Foi aí que reparei que meus olhos eram ruins. Pior: que discordavam entre si. O direito mostrava uma perspectiva afunilada, hierarquizada, onde a nitidez diminuía com a distância. O outro mostrava-me um mundo bidimensional, chapado, onde tudo, de dois metros para diante, tinha o mesmo perfil difuso - mas suficientemente nítido para ser reconhecido - e os objetos mais próximos se esfumavam como borrões num papel molhado. Mais tarde os médicos, sem corrigir o defeito, me dariam o notável reconforto de saber o seu nome técnico: eu tinha uma leve miopia no olho direito, uma pesada hipermetropia mesclada de astigmatismo no esquerdo. Bela droga! Mas, na ocasião, o fenômeno suscitou em mim as mais profundas e ociosas interrogações em que o cérebro filosófico já se lambuzou: Entre as duas imagens contraditórias, qual a verdadeira? Elas devem excluir-se ou sintetizar-se num terceiro quadro? E, em caso de ser impossível a síntese, a aporia tomava a forma clássica: Não estarei totalmente enganado quanto ao que vejo? Posso confiar em meus sentidos? Existe, afinal, o mundo sensível, ou é tudo ilusão e fantasmagoria?

Confirmei assim por experiência, em toda a linha, aquilo que dizia Fontenelle, que para ser filósofo é preciso ter um cérebro saudável e olhos doentes.

O curioso é que eu me fazia essas perguntas várias vezes por dia, mas ao mesmo tempo tinha o sentimento vivo da sua fatuidade. Embrulhava-me nelas como um peixe na rede, sentindo que estava me deixando envolver numa singular e requintada forma de perda de tempo.

Como resolvi a aporia? A solução já foi exposta em meus escritos e aulas. Mas o ponto de partida foi o seguinte.

Observei que a duplicidade de visões não era permanente; ela se desfazia tão logo eu deixava de prestar-lhe atenção, voltando às ocupações verdadeiramente sérias, como alinhar soldadinhos de chumbo ou levar minhas tartarugas de estimação (eram sete) para nadar no tanque. Ora, mesmo vistos com a duplicidade de perspectivas, os soldadinhos que eu punha à esquerda ficavam à esquerda, os da direita na direita. Do mesmo modo, olhadas alternadamente pelos dois olhos, as tartarugas, se pareciam duplicar-se em número, conservavam fielmente, as da tela esquerda e as da tela direita, um comportamento homogêneo: quando a tartaruga número 1 da tela esquerda ia para o fundo, ou boiava, ou ia em frente, o mesmo fazia o seu equivalente da tela direita; e assim todas as seis, ou melhor, as doze restantes. Num dia em que estava inteiramente absorvido em ocupações anfíbias, totalmente alheio a perguntas filosóficas, repentinamente atinei que a duplicidade de visões se recortava sobre o fundo comum de um mesmo sistema de direções do espaço. Se eu não tivesse claramente a noção intuitiva de direita, esquerda, frente, fundo, perto, longe, acima, abaixo, nunca teria podido sequer perceber a diferença entre as visões que me eram mostradas por um olho e pelo outro, já que essa diferença consistia precisamente em distâncias medidas nessas direções. É claro que não percebi a coisa com essas palavras, e na verdade não foi nem com palavras, mas com uma repentina superposição de esquemas geométricos na tela da consciência. Levei décadas para poder expressar isso em palavras, mas na hora, em linguagem de figuras, tudo ficou perfeitamente claro e confirmei instantaneamente minha impressão de que as dúvidas quanto a forma e à existência do mundo exterior eram um sórdido e fútil auto-engano.

O mundo real não era nem o da tela esquerda nem o da direita. Não era nem mesmo uma tela, mas sim o espaço no qual eu me movia, o qual continuava rigorosamente organizado em torno de mim, desdobrando-se em inumeráveis perspectivas que se sucediam à medida que eu me movia e jamais se desligavam umas das outras. O mundo, em suma, era aquilo que depois eu soube chamar-se um "continuum espaço-tempo" -- um tipo de coisa que tinha pelo menos duas propriedades: (1) a de compor-se de uma infinidade de ângulos, que se mesclavam conforme a gente se movia, sempre encaixados uns nos outros sem salto ou ruptura, e (2) a de aparecer diferente, sem deixar de ser o mesmo, conforme os olhos que o vissem. Ora, era precisamente esse continuum que eu rompia sempre que começava a examinar a duplicidade de visões e me expunha à humilhante dúvida cética, paralisando a sucessão vivente das perspectivas para deter-me em duas delas, isolando-as de todas as outras e opondo uma à outra em suas respectivas reivindicações de uma realidade soberana. Essa ruptura não acontecia sem que eu a desejasse ou, pelo menos, a consentisse: era eu quem a produzia, era a minha vontade que partia o mundo em pedaços para depois se queixar de não poder colá-los de volta; era a minha vontade que exigia injustamente, de duas fatias de mundo, as propriedades de um mundo inteiro. A dúvida cética não era imposta pela realidade, mas criada artificialmente por uma consciência que, levada por algum instinto maligno, apreciava prender-se a si mesma na cumbuca de uma pergunta idiota. Mais tarde, a experiência da vida me confirmou que toda dúvida cética, toda contestação do poder da inteligência humana para conhecer o real parte sempre de uma decisão da vontade, ou melhor, de uma má-vontade, que se recusa a conhecer e se deleita em seguida em demonstrar a validade universal da sua impotência. O ceticismo é sempre um abstracionismo pérfido, que se engana por medo de enganar-se.

Também não precisei de muito esforço para afastar mais tarde a objeção kantiana de que as direções do espaço eram projeções da minha mente. Como, afinal, as tartarugas haveriam de mover-se numa projeção da minha mente, em vez de fazê-lo na água do tanque? Minha mente não projetava uma tela, e sim duas: e quem as unificava não era eu mesmo, pensando, mas as tartarugas, nadando. Era o contrário do que dizia Kant: em vez de a mente dar unidade aos fragmentos sensíveis colhidos do mundo exterior, era a unidade do mundo exterior que se sobrepunha, imperiosa, à confusão da mente fragmentada. Estar no mundo não é costurar com formas a priori um caos atomístico de sensações, mas conquistar aos poucos a unidade da consciência pela participação na unidade do real.

Posted by Olavo at 06:19 PM