Analisando Ciro Gomes

Por José Nivaldo Cordeiro

26 de julho de 2002

Se a eleição fosse hoje (segundo turno), Ciro seria o eleito, asseguram as pesquisas de opinião. Como seria eventualmente o seu governo? Que forças sustentam a sua candidatura? Quais as crenças do candidato, a sua filosofia política?

Penso que o primeiro passo é separar o que é esforço eleitoral do que seria o governo de fato. Esse esforço compreende uma espécie de ônibus de apoio, no qual entra qualquer um, num leque que vai da esquerda (PPS, PDT, PSDB) ao centro, (PTB) e a direita (PFL). Considero essa classificação um tanto enganosa. No fundo, todos esses partidos são patrimonialistas e se opõem a uma plataforma de corte liberal. São todos amantes do Estado grande e acreditam que as soluções para os problemas do País passam pelo agigantamento do Estado ou, pelo menos, na manutenção do seu tamanho atual.

E o candidato? Penso que Ciro acredita nisso também, mas tem todos os elementos para fazer um julgamento mais crítico do fetiche estatal: governou (quem vive o Levitam por dentro e tem um mínimo de discernimento compreende com rapidez os limites da ação estatal) durante muito tempo, é membro de um grupo político chefiado por um empresário (Tasso) e é oriundo de uma família tradicional da política. A primeira conclusão é que dele não se deve esperar sobressaltos que possam colocar as relações de propriedade em risco.

O ideário político até agora ventilado é socialista e patrimonialista, especialmente através de suas falas na TV e nos artigos do guru Mangabeira Unger. Eu não levaria a sério o seu conteúdo, pois acredito não passar de propaganda eleitoral. Para mim é coisa postiça na boca do candidato.

Um eventual governo Ciro, assumindo na conjuntura que está posta, será marcado pelo conservadorismo na condução dos orçamentos públicos e por decisões visando a minimização da crise econômica, com ênfase na crise cambial. Os graus de liberdade de qualquer governante que venha a assumir o poder serão pequenos, pois terá necessariamente que buscar caminho para superar o estrangulamento externo, a inflação e o déficit público. Ciro provavelmente trilhará o caminho da racionalidade, o que equivale a dizer que os seus dois primeiros anos serão de recessão, não porque queira ou goste, mas porque não há alternativa. Com certeza um acordo com o FMI deverá ser feito, pois a alternativa seria a moratória técnica, o que não seria bom para ninguém.

Na verdade, as virtudes que vejo no candidato serão mais “negativas”, no sentido do que não fará: não tentará ir contra o mercado, não atentará contra a propriedade privada, não elevará a carga tributária, não multiplicará os ditos programas sociais. Não é pouca coisa perto do que fariam os seus adversários, especialmente Lula. Um governo Ciro será conservador e provavelmente contará com as condições de governabilidade, na medida em que fará o jogo político das elites tradicionais, o que também não é pouca coisa, perto da ruptura que seria um eventual governo Lula, um tumulto político sem fim.

Ciro certamente não fará um governo que seja o sonho político de um liberal, mas certamente não é um incendiário. É essa a inclinação do eleitor médio brasileiro e seu governo será certamente a expressão desse eleitor. É, com certeza, a melhor escolha entre os nomes postos para a eleição.

O autor é economista e mestre em Administração de Empresas pela FGV – SP

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