Ainda a Argentina

José Nivaldo Cordeiro


1o de janeiro de 2002

Uma das seqüelas mais sérias das desastradas intervenções do Estado argentino na economia é ter criado uma forte desconfiança do público com relação ao sistema bancário. Isso significa que a flexibilização do limite de saques de US$ 1.000,00 poderá decretar a morte desse sistema, com quebra de bancos e, em conseqüência, a impossibilidade de manter a liquidez da economia como um todo. De quebra, a desintermediação bancária reduzirá dramaticamente a disponibilidade de recursos para investimento, com sérios e imediatos desdobramentos.

O problema é que a recuperação da confiança do público poderá levar muito tempo, qualquer que venha a ser o novo presidente e qualquer que seja a sua política econômica. Os argentinos poderão preferir, por muito tempo, guardar o seu dinheiro em casa ou simplesmente antecipar os seus gastos, para se livrar da moeda. Ou adquirir moeda estrangeira, para lastro. É uma situação dramática.

Vai ser muito difícil escapar de uma corrida bancária, que poderíamos chamar de a herança maldita do ministro Cavallo. Certamente não será um aleijão fácil de superar.

O drama é a reconstrução. Será preciso a implantação de séria e confiável política econômica para restabelecer a confiança. Com um governo de continuismo peronista, é difícil imaginar um cenário em que isso aconteça. É provável que surpresas e fortes emoções – tudo o que o mercado não quer e não precisa – venham ser a marca registrada, nos próximos meses, na área econômica. Infelizmente.

Mas já diz o ditado popular: não há mal que sempre dure e nem bem que nunca acabe. O inferno econômico e político da Argentina será superado, mais dia, menos dia. Quando as trevas são as mais profundas é que nasce a luz, ensinam as religiões em todos os quadrantes. Elas sempre estiveram certas.

Quem viver, verá.

 

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