Advertência de um sábio afegão

Autor desconhecido

22 de setembro de 2001

Não tenho a menor idéia de quem é Tamin Ansary, mas ele mesmo diz que é um americano de origem afegã. E que ele é um sábio, é coisa de que não se pode duvidar depois da leitura dessa mensagem breve e exata que ele está distribuindo em inglês pela internet.

Cada uma das palavras de Ansary, no meu entender, é verdadeira. Eu acrescentaria apenas que o plano macabro que ele menciona nas linhas finais não me parece criação exclusiva de Bin Laden, ou mesmo de qualquer outro líder islâmico, e sim de potências interessadas em usar os muçulmanos como instrumentos de agressão e de camuflagem, para poder ferir os EUA sem arriscar-se a um confronto direto. É a velha pergunta: Quia bono? (“Bom para quem?”). Quem lucraria com um conflito total entre o Islam  e o Ocidente? Não me venham com histórias de conspiração judaica. Nesse conflito, Israel perderia tudo. Os únicos ganhadores seriam a Rússia e a China. Creio que Ansary sabe disto tanto quanto eu, mas, por algum motivo, não quis levar sua análise até esse ponto. – O. de C.

22 de setembro de 2001

Andei ouvindo um bocado de conversas sobre “mandar o Afeganistão de volta à Idade da Pedra à força de bombas”. Ronn Owens, na Rádio KGO, admitiu hoje que isso significaria matar pessoas inocentes, pessoas que não têm nada a ver com essa atrocidade, mas disse que “estamos em guerra, temos de aceitar o dano colateral. Que mais podemos fazer?”. Minutos depois ouvi outro sábio da TV discutindo se “temos o estômago para fazer o que tem de ser feito”.

E pensei com ainda mais afinco nessas questões porque sou do Afeganistão, e embora tendo vivido aqui nos EUA por 35 anos a gente nunca perde a pista do que está se passando por lá. Por isso quero dizer, a todos os que queiram ouvi-lo, como é que a coisa se mostra desde o ponto em que a observo.

Falo como homem que odeia o Talibã e Osama Bin Laden. Não há dúvida, na minha cabeça, de que essa gente foi responsável pela atrocidade em Nova York. Concordo que algo precisa ser feito para dar um jeito nesses monstros.

Mas o Talibã e Bin Laden não são o Afeganistão. Não são nem mesmo o governo do Afeganistão. O Talibã é uma seita de psicóticos ignorantes que tomaram de assalto o Afeganistão em 1997. Bin Laden é um criminoso político que tem um plano. Quando você pensa no Talibã, pensa em nazistas. Quando você pensa em Bin Laden, pensa em Hitler. E, quando você pensa em “povo do Afeganistão”, pensa em “judeus nos campos de concentração”. Não é só que o povo afegão não teve nada a ver com essa atrocidade. Ele foi a primeira vítima dos perpetradores dela. Ele ficaria exultante se alguém fosse lá, tirasse o Talibã e limpasse o ninho de ratos, de bandidos internacionais que se escondem no seu país.

Alguns perguntam: “Por que os afegãos não se revoltam e derrubam o Talibã?” A resposta é: eles estão esgotados, exaustos, feridos, reduzidos à incapacidade e ao sofrimento. Uns anos atrás a ONU avaliou que havia 500.000 órfãos aleijados no Afeganistão – um país que já não tem economia nem comida. Tem milhões de viúvas. E o Talibã andou enterrando essas viúvas em valas comuns. O solo está cheio de minas explosivas, as fazendas foram todas destruídas pelos soviéticos. Essas são algumas das razões pelas quais o povo afegão não derrubou o Talibã.

Chegamos àgora à questão de bombardear o Afeganistão de volta para a Idade da Pedra. O problema é o seguinte: isso já foi feito. Os soviéticos se incumbiram da coisa. Fazer os afegãos sofrerem? Eles já estão sofrendo. Arrasar suas casas? Já estão arrasadas. Derrubar seus hospitais? Já estão derrubados. Destruir sua infra-estrutura? Deixá-los sem assistência médica e sanitária? Tarde demais. Alguém já fez tudo isso.

Novas bombas apenas remexeriam o entulho das velhas. Pelo menos elas atingiriam os Talibãs? Não é provável. No Afeganistão de hoje, só os Talibãs comem, só eles têm os meios de mudar de lugar. Eles cairiam fora e se esconderiam. Talvez as bombas alcancem alguns daqueles órfãos aleijados, porque eles não andam muito rápido e não têm nem cadeiras de rodas. Mas voar sobre Kabul e jogar bombas não seria realmente um golpe nos criminosos que fizeram aquela coisa horrível. Seria apenas fazer causa comum com os Talibãs – estuprar mais uma vez o povo que eles andaram estuprando esse tempo todo.

Que mais, então? Que é que se pode fazer? Permitam-me falar com autêntico temor e tremor. O único jeito de pegar Bin Laden é ir até lá com tropas terrestres. Quando as pessoas falam de “ter o estômago para fazer o que é preciso fazer”, elas estão pensando em termos de ter o estômago para matar quanto seja preciso matar. Ter o estômago para superar quaisquer escrúpulos morais de matar inocentes. Vamos tirar nossas cabeças para fora do buraco na areia. O que de fato está na mesa são mortes de americanos. E não é só porque alguns americanos podem morrer abrindo caminho a bala, Afeganistão a dentro, até o esconderijo de Bin Laden. É porque, para colocar soldados no Afeganistão, teremos de ir pelo Paquistão. Os paquistaneses nos deixarão fazer isso? Provavelmente não. A vitória sobre o Paquistão terá de vir primeiro. Outras nações muçulmanas vão ficar só olhando? Vocês vêem aonde estou querendo chegar. Estamos flertando com uma guerra mundial entre o Islam e o Ocidente.

E – adivinhem o que? Esse é o programa de Bin Laden. Isso é exatamente o que ele quer. Eis por que ele fez o que fez. Leiam seus discursos e declarações. Está tudo lá. Ele realmente acredita que o Islam venceria o Ocidente. Pode parecer ridículo, mas ele imagina que, se puder polarizar o mundo em Islam e Ocidente, conseguirá um bilhão de soldados. Se o Ocidente fizer um holocausto naquelas terras, isso será um bilhão de pessoas sem mais nada para perder, mas isso será ainda melhor desde o ponto de vista de Bin Laden. Ele provavelmente está errado, e no fim o Ocidente vencerá – o que quer que isto possa significar –, mas a guerra terá durado anos e milhões de pessoas terão morrido, não só do lado deles mas do nosso. Quem tem estômago para isso? Bin Laden tem. Alguém mais?

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