Yearly archive for 2006

Oficialmente

Olavo de Carvalho

Diário do Comércio (editorial), 20 de setembro de 2006

 

Um amigo, a quem considero o maior e mais sério conhecedor do problema do aborto no Brasil, me abre os olhos para esta seqüência de informações, cuja lógica implacável acaba diluída no fluxo diário de notícias:

1. Em dezembro de 2004, Lula colocou oficialmente a legalização do aborto entre as prioridades do seu governo.

2. Em abril de 2005, comprometeu-se com a ONU, oficialmente, a legalizar o aborto no país.

3. Em agosto, escreveu uma carta à CNBB negando oficialmente qualquer intenção de realizar as promessas 1 e 2.

4. Em setembro, começou a realizar ambas, enviando à Câmara um projeto de lei que descriminalizava oficialmente o aborto.

5. Em dezembro, incluiu oficialmente a legalização do aborto entre as diretrizes do seu programa de governo para o segundo mandato.

Como a população brasileira é maciçamente contra o aborto, toda menção ao assunto, que por si só bastaria para arruinar a candidatura do engraçadinho, é meticulosamente evitada na sua campanha eleitoral. A grande mídia, obsequiosa e, aliás, comprometida por mil e um acordos com ONGs bilionárias e organismos internacionais abortistas, não faz ao candidato nenhuma pergunta a respeito.

É, portanto, oficial:

1. Lula não tem o menor respeito pela sua própria palavra e pela sua própria assinatura, que ele põe oficialmente em qualquer papel que lhe interesse no momento, sem qualquer intenção de honrá-la. O critério do cronista José Simão para distinguir entre Lula candidato e Lula presidente continua portanto válido e infalível: “Quando ele promete merda, é candidato; quando faz merda, é presidente”. O caso do abortismo sugere apenas que nem sempre a matéria excrementícia prometida é aquela que vem a ser realizada: Lula não é confiável nem mesmo na sua produção fecal.

2. Lula não tem o menor respeito pela religião que diz professar. Mas não me espanta que seja cínico ao ponto de tentar enganar a Igreja, uma vez que se acha esperto o bastante para enganar o próprio Deus, como o fez ao alegar que podia comungar sem confessar por ser “homem sem pecados”. veja: http://www.olavodecarvalho.org /semana/050416globo.htm .

3. Lula não tem o menor respeito pelo eleitorado, ao qual ele sonega informação essencial sobre seus planos de governo.

4. Da minha parte, não tenho o menor respeito por Lula, que os fatos aqui relatados provam ser um farsante maquiavélico e perigoso. Qualquer palavrinha que eu tenha escrito em favor dele, mesmo décadas atrás e antes que eu soubesse da existência do Foro de São Paulo, deve ser-me perdoada como expressão da minha profunda estupidez e substituída por um palavrão equivalente e contrário.

5. Muito menos tenho algum respeito pela grande mídia brasileira, que, com exceções, se tornou uma vasta societas sceleris empenhada em ocultar, por dinheiro ou por ambição de poder, tudo o que possa obstar a realização dos planos criminosos do Foro de São Paulo.

Peço a todos os leitores deste artigo que dêem a máxima divulgação, por todos os meios ao seu alcance , aos fatos que ele revela. Nossa única esperança de que as eleições deste ano não sejam uma farsa petista como as de 2002 é criar de improviso uma rede alternativa de informações que se sobreponha ao poder do crime organizado em que se transformou o jornalismo nacional.

Justiça social e injustiça pessoal

Olavo de Carvalho


Diário do Comércio, 18 de setembro de 2006

Eis um bom tópico de meditação ante o bombardeio de discursos eleitorais: esses sujeitos que vivem falando de “construir uma sociedade mais justa” praticam apenas a modalidade mais imperdoável de burrice, que é confundir palavras com coisas. Os termos que designam qualidades morais só se aplicam realisticamente a indivíduos humanos, não a estruturas sociais. Um homem pode ser mais justo que outro; uma sociedade, não, pelo simples fato de que a sociedade abrange tanto os autores quanto as vítimas de injustiças, e chamá-la de injusta ou justa seria colocá-los no mesmo saco. Uma sociedade pode fomentar a prática da justiça ou da injustiça, mas isso não tem nada a ver com ela ser justa ou injusta em si mesma. A criminalidade é notoriamente menor em ditaduras truculentas como a China ou o Irã. Tão logo suprimida a injustiça do regime vem o esculacho geral em que os cidadãos se regozijam e se desrecalcam na democratização da injustiça. Qual é a sociedade mais justa: aquela que suprime a criminalidade mantendo igualmente aterrorizados os bandidos e os cidadãos honestos, ou aquela que protege os cidadãos honestos ao ponto de ajudá-los a se tornar bandidos sem que precisem temer punições? O extremismo desses dois exemplos pode convidar o automatismo mental a buscar um hipotético meio-termo entre a repressão total e a libertinagem, mas é óbvio que não há justiça nenhuma no mero equilíbrio estatístico de dois erros. Aliás a revolta contra as injustiças é sempre maior nas sociedades que não são o bastante injustas para reprimi-la. Tal como o demonstra a paz social chinesa ou iraniana em contraste com as explosões de ódio anti-Bush nos EUA, a quantidade de injustiça real é inversamente proporcional ao desejo de erradicá-la. Mutatis mutandis, a nossa esquerda dos anos 60 berrava contra o autoritarismo brando e chinfrim dos nossos militares mas babava de admiração pela mais sangrenta ditadura latino-americana.

Toda idéia de justiça pressupõe não apenas uma distinção de mérito e demérito, mas também as diferenças escalares dentro de um e do outro. Homenagens, cargos, premiações escolares, hierarquias burocráticas, civis e militares refletem a escala do mérito, o Código Penal e os vários mecanismos de exclusão social a dos deméritos. É inútil falar em “meritocracia”, pois todas as hierarquias sociais são meritocráticas, divergindo apenas no critério de aferição dos méritos. Mesmo essa divergência é mínima. Nenhuma sociedade é tão fortemente apegada a prestígios de família que negue toda possibilidade de merecimento individual autônomo, nem é tão desapegada deles que não reconheça diferença entre ser filho de um herói nacional ou de um assassino estuprador.

Suponham uma rígida sociedade de castas e uma democracia igualitária. Qual das duas é mais justa? A sociedade de castas alega que é justa porque busca refletir na sua estrutura a ordem hierárquica dos valores, premiando em primeiro lugar os homens espirituais e santos, depois os valentes e combativos, depois os esforçados e industriosos e por fim os meramente obedientes e cordatos. Quem chamaria isso de injustiça? O igualitarismo democrático baseia-se na idéia igualmente justa de que ninguém pode prever de antemão os méritos de ninguém, sendo portanto melhor assegurar a igualdade de oportunidades para todos em vez de encaixilhá-los por nascimento em lugares estanques da hierarquia. A sociedade de castas falha porque não é garantido que os filhos de santos sejam santos, de modo que aos poucos a hierarquia social se torna apenas um símbolo remoto em vez de expressão direta da hierarquia de valores. De símbolo remoto pode mesmo passar a caricatura invertida. A democracia, por sua vez, na medida em que nivela os indivíduos nivela também suas opiniões e, portanto, os valores que elas expressam. O resultado é o achatamento de todos os valores, que favorece a ascensão dos maus, egoistas e prepotentes pela simples razão de que já não há critérios para considerá-los piores do que os mansos e generosos. Daí a observação de Georges Bernanos: a democracia não é o oposto da ditadura – é a causa da ditadura.

Pela mesma razão, todo aquele que promete eliminar as exclusões sociais começa por excluir os que não acreditam nele, e aquele que promete uma hierarquia aristocrática perfeita começa por invertê-la quando, ao reivindicar o poder necessário para construí-la, se coloca a si próprio no topo da escala e se torna a medida dela em vez de ser medido por ela.

Na alma do indivíduo bem formado é sempre possível conciliar o senso da hierarquia de valores com o sentimento da igualdade profunda entre os membros da espécie humana. O próprio amor aos valores mais elevados infundirá nele necessariamente um pouco de humildade igualitária, da qual Jesus deu exemplo constante. O indivíduo tem sempre a flexibilidade psíquica para buscar o equilíbrio dinâmico entre valores opostos. Mas nenhuma sociedade pode ser ao mesmo tempo uma sociedade de castas e uma democracia igualitária, nem muito menos ter a elasticidade necessária para passar de uma coisa à outra conforme as exigências morais de cada situação. Os valores morais existem somente na alma do indivíduo concreto. As diferentes estruturas sociais podem apenas macaqueá-los de longe, sempre sacrificando uns em proveito de outros, isto é, institucionalizando uma quota inevitável de erro e de injustiça. Os seres humanos podem ser justos ou injustos – as sociedades só podem sê-lo de maneira simbólica e convencional, eminentemente precária e relativa.

Essas distinções são elementares, e nenhum indivíduo incapaz de percebê-las intuitivamente à primeira vista está qualificado para julgar a sociedade ou muito menos propor sua substituição por outra “mais justa”. Infelizmente, essa incapacidade é precisamente a qualificação requerida hoje em dia de todos os doutrinários de partido, parlamentares, líderes de movimentos sociais etc., porque cada um deles só consegue subir na vida na medida em que personifique a “sociedade mais justa” em nome da qual legitima suas propostas. Ou seja: são sempre os homens injustos que se incumbem de promover a “justiça social”, julgando e condenando aquilo que nem mesmo compreendem. Se em vez de buscar uma “sociedade mais justa” começássemos por derrubar de seus pedestais os homens injustos, um a um, a sociedade em si não se tornaria mais justa, mas haveria mais justiça na sociedade injusta – e isto é o máximo a que seres humanos razoáveis e justos podem aspirar.

 

Mais um capítulo da luta dos monstros

No último número de American Scholar (outono de 2006), Bryan Boyd, professor de inglês na Universidade de Auckland, Nova Zelândia, desce o pau nos seus colegas de teoria literária por continuarem apegados aos dogmas do desconstrucionismo, que se reduzem a pó de traque quando confrontados com as descobertas mais recentes da ciência biológica.

Esses dogmas são dois, o “antifundamentismo” e a “diferença”. O primeiro afirma que nenhum conhecimento humano tem fundamento universal. O segundo diz que todas as afirmativas aparentemente universais são apenas produtos locais nascidos de interesses malignos e do desejo de poder. Enfim, não há realidade objetiva. Tudo é “cultura”, isto é, invenção mais ou menos arbitrária de signos para camuflar alguma bela sacanagem da classe dominante.

Boyd lembra que a possibilidade mesma da cultura – nesse ou em qualquer outro sentido da palavra – nasce de certas características biológicas humanas que, por sua vez, não são invenções culturais mas dados da natureza. Para piorar, a biologia vem descobrindo aspectos “culturais” – símbolos, regras, atos ritualizados – na conduta de inúmeras espécies animais, dos hipopótamos aos passarinhos. A “cultura” não é uma negação da natureza: é uma extensão dela. Enquanto os mandarins dos “estudos culturais” perseverarem na sua ignorância científica radical (mais que demonstrada no clássico episódio Alan Sokal), sua empáfia de onissapientes continuará sendo objeto de chacota entre o pessoal da biologia, da física, etc., os quais realmente sabem alguma coisa.

Até aí, tudo bem. O argumento é irrespondível. Só que, uma vez humilhado o desconstrucionismo, Boyd coloca no lugar dele o seu próprio dogma. O “antifundamentismo” e a “diferença” não estão errados em si mesmos, diz ele. Seu único problema é que opõem natureza e cultura, quando as verdadeiras razões em favor deles estão na natureza tal como compreendida pelos evolucionistas. “Quase um século antes de Derrida, a teoria darwiniana da evolução por seleção natural já havia tornado o antifundamentismo uma conseqüência inevitável.” Claro: se tudo o que acontece na cultura vem da natureza, e se esta é conduzida por mutações randômicas consolidadas pela seleção natural e pela repetição, é incontornável a conclusão de que nada que o ser humano pense tem qualquer fundamento universal – é apenas um produto local e passageiro da evolução natural. Tudo neste mundo é pois incerto e vacilante – exceto, é claro, o fator que o tornou incerto e vacilante: pode-se duvidar de tudo, exceto da evolução darwiniana. Tal como no desconstrucionismo, a suposta razão da falta de fundamentos absolutos torna-se o novo fundamento absoluto.

A simetria oposta, a igualdade dos contrários, torna-se aí mais do que visível. Para o desconstrucionismo, a total inexistência de fundamentos objetivos instaura imediatamente o reinado do fundamento metodológico único, que é ele próprio. Daí a intolerância dogmática com que os gurus desconstrucionistas recusam dialogar com seus críticos – quando chegam a reconhecer que há algum. O desconstrucionismo é tão autoritário e prepotente que se autodenomina “a Teoria”, com ênfase no artigo e na inicial maiúscula, quer dizer, a única teoria que existe ou tem o direito de existir. Boyd cita a propósito o crítico Christopher Ricks: “O império da Teoria é zelosamente inquisitorial com relação a todos os outros impérios exceto o dele próprio.”

Se a ausência de fundamento objetivo gera o império da Teoria, Boyd derruba esse império restaurando um fundamento objetivo incapaz de ser neutralizado por ele, mas com base nesse fundamento ergue um novo império: o do evolucionismo. Só que, se o desconstrucionismo não podia ser discutido porque era a única teoria possível, o evolucionismo também não pode ser discutido, mas por uma razão ainda mais forte: ele não quer ser mera “teoria” – exige ser aceito como “um fato”. Qualquer objeção possível fica assim descartada a priori, já que todas as discussões têm de começar com o reconhecimento unânime do fato, ou melhor, “do” Fato – com ênfase verdadeiramente derridática no artigo e na inicial maiúscula. Não é de espantar que o clero evolucionista seja ainda mais intolerante do que o desconstrucionista, não apenas desprezando os adversários como inexistentes mas demitindo-os de seus cargos, ameçando interná-los em hospícios, negando suas credenciais acadêmicas por mais respeitáveis que sejam e tentando impor a poibição legal de colocar em dúvida “o Fato”.

O ardil retórico com que duas idéias, tão falíveis como quaisquer outras, usam o pretexto da falibilidade geral como artifício para impor-se como infalíveis, é o mesmo em ambos os casos. Se o descontrucionismo se arvorou em dono da cultura negando a existência da natureza, o movimento que hoje se conhece como “darwinização da cultura” (v. uma discussão favorável em Robert Aunger, ed., Darwinizing Culture, Oxford University Press, 2000) vai um pouco mais longe: restaura a natureza para proclamar-se a um tempo senhor absoluto dela e da cultura. Dois de seus apóstolos mais fanáticos, Richard Dawkins e Daniel C. Dennett, proclamam que o evolucionismo deve mesmo suprimir as religiões e tomar o lugar delas como orientador moral e espiritual da humanidade. Tudo isso, é claro, em nome da modéstia científica.

Um dia a humanidade vai rir dessas coisas, como hoje ri do positivismo comtiano, da filosofia marxista da História ou do cientificismo racista de Ernst Haeckel e Thomas Huxley. Mas até lá ainda haverá muito o que chorar ante a devastação que a luta dos monstros vai produzindo na inteligência humana.

Falsos amigos

Um detalhe especialmente deprimente nesse panorama é a filiação política mal disfarçada dos desconstrutores e darwinizantes. Os primeiros estão em geral na extrema-esquerda, torcendo pelos terroristas, pedindo a cabeça de George W. Bush, a extinção de Israel e, de modo geral, o fim do Ocidente. O partido darwinista está mais próximo dos “liberal-revolucionários”, que se dizem adeptos do Ocidente, mas de um Ocidente amputado de suas raízes judaico-cristãs, e favoráveis à liberdade de mercado, que eles vêem, no entanto, não como expressão dos valores religiosos e morais que a criaram, mas como o meio mais fácil de promover, sem perdas econômicas traumáticas, o avanço da agenda cultural do movimento revolucionário: abortismo, casamento gay, cotas raciais, o diabo.

Não é preciso dizer que desde suas origens o movimento revolucionário sempre agiu com esses dois braços, usando um ou o outro conforme as conveniências do momento. Na presente situação brasileira, a tentação que pode deitar a perder as parcas energias do nascente movimento conservador é a de submeter-se ao partido liberal-revolucionário e, sob o pretexto de “concessões inevitáveis”, ajudar a fomentar a agenda cultural esquerdista em troca de um pouquinho de liberdade econômica, exorcisando Belzebu em nome de Satanás. Neste momento, os liberal-revolucionários mal perceberam a emergência do movimento conservador e já trataram de se organizar, juntando recursos milionários, para parasitá-lo, desviá-lo de seus fins e usá-lo em benefício próprio. Quando vocês ouvirem alguém pregando liberdade de mercado separada dos valores judaico-cristãos e associada a propostas “politicamente corretas” na esfera cultural e moral, justificadas a título de concessões espertalhonas ou sob qualquer outro pretexto, saibam que não estão na presença de um conservador, mas de um agente infiltrado ou de um idiota útil a serviço daquilo que ele diz combater. O futuro do movimento conservador no Brasil depende de que esses seus falsos amigos sejam identificados e desmascarados, como o foram nos EUA por uma militância conservadora que ganhou muita força ao expeli-los.

Por enquanto estas explicações podem parecer um tanto genéricas, mas num dos próximos artigos darei nomes a bois e vacas, se é que no fundo vocês já não adivinharam a identidade do rebanho inteiro.  

Sutilezas da política americana

Olavo de Carvalho

Zero Hora, 17 de setembro de 2006

Para vocês começarem a entender um pouquinho da política americana, nada melhor do que analisar o noticiário brasileiro sobre o conflito do presidente Bush com seu ex-secretário Colin Powell, confrontando-o com um detalhe sutil publicado por uma parte ao menos da mídia nos EUA, mas omitido totalmente na do Brasil.

O que vocês vão ler por aí é que o general Powell é lindo-maravilhoso porque, sendo um republicano e conservador, teve a coragem de se erguer, por motivos morais e humanitários, contra a proposta presidencial de ocultar dos acusados de terrorismo as provas consideradas material secreto (“classified evidence”). “O mundo, disse Powell, está começando a duvidar das bases morais do nosso combate ao terrorismo.”

Desde logo, a posição de Powell é que é moralmente insustentável. “O mundo”, isto é, o falatório geral, já era classificado pela Bíblia como um dos inimigos da alma, e nenhuma concessão a ele pode ter sentido moral mais elevado que a de um afago demagógico na vaidade dos tagarelas enragés, principalmente quando se sabe que não há entre eles um só amigo dos EUA.

Em segundo lugar, que notável moralidade pode haver na exigência de entregar segredos militares ao inimigo em época de guerra? Powell e tutti quanti sabem perfeitamente que tratar terroristas estrangeiros como se fossem cidadãos nacionais no pleno gozo de seus direitos é um suicídio político e militar a que país nenhum do mundo (muito menos alguma ditadura islâmica) jamais se submeteria.

Mas a dura realidade é que Powell, posando de guardião da moral e prevalecendo-se de um resto de prestígio de servidor leal do governo, tem agido de maneira imoral e desleal para com o presidente desde muito antes da discussão atual.

Vocês devem se lembrar de Valerie Plame, a agente secreta cuja identidade foi revelada à imprensa por alguém do governo. Forçando o caso até à demência, pois Valerie não estava de serviço no exterior e portanto a divulgação do seu nome não constituía crime, a mídia chique armou um fuzuê dos diabos, acusando o assessor presidencial Karl Rove e o vice-presidente Dick Cheney, atribuindo-lhes toda sorte de motivos ignóbeis para o vazamento proposital de informação classificada e chegando a estimular, no Congresso, um movimento de impeachment do presidente Bush por “alta traição”.

Por fim, os próprios acusadores acabaram descobrindo que o culpado pela revelação não tinha sido ninguém do primeiro escalão mas um simples funcionário de carreira, Richard Armitage, tão íntimo da equipe presidencial quanto eu do ministério Lula. Até o Washington Post, radicalmente antibushista, acabou confessando que dar crédito às acusações contra Cheney, Rove e Bush no caso Plame tinha sido “um erro lamentável”.

Pois bem, o detalhe a que me referi acima é que desde o começo da história o general Powell sabia quem era o verdadeiro culpado e não disse uma palavra a respeito, deixando que a mentira crescesse, criasse uma crise política e ameaçasse deixar o país sem comando em plena época de guerra. Sua conduta no episódio foi francamente imoral, não sei até que ponto ilegal também. Mas pior do que a conduta é a lógica subentendida nela: o homem capaz de deixar que um ridículo vazamento de informação secundária passe como crime de alta traição, que autoridade tem para proclamar que a mais alta moralidade consiste na obrigação de passar informações secretas ao inimigo em guerra?

Para mim está claro que o general Powell tem menos afeição pela hierarquia de comando ou pela hierarquia de valores do que por qualquer oportunidade, mesquinha e impatriótica o quanto seja, de brilhar perante a mídia anti-americana às custas da imagem do presidente e da própria honra nacional dos EUA.

O contraste entre sua atitude no caso Plame e na presente discussão é tão flagrante e tão repulsivo, que só a mania presidencial de preferir antes o prejuízo político do que o escândalo pode explicar que o governo ainda finja enxergar nele um sujeito respeitável.

Se há um defeito óbvio no governo Bush é a delicadeza mórbida, masoquista, com que trata seus inimigos políticos e midiáticos, enquanto estes são de uma crueldade mental a toda prova no que dizem e fazem contra ele. Suprimido esse defeito, logo se tornaria claro que quase todos os outros não passam de efusões retóricas nascidas dessa mesma crueldade. Nos EUA, muita gente já percebeu isso. No Brasil, ninguém.

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